Guaçatonga
Casearia lasiophylla
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: guaçatunga-graúdo, guaçatunga, guaçatunga-graúda, erva-de-lagarto, espeto, espeto-peludo, cambroé
Botânica
Pelo sistema de classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), Casearia lasiophylla pertence à ordem Malpighiales (tratada como Violales na proposta de Cronquist) e à família Salicaceae (classificada em Flacourtiaceae por Cronquist), no gênero Casearia. A espécie foi descrita por Eichler, com publicação em Martius, Fl. Bras. 13(1): 468, tab. 94, de 1871. Tem como sinônimo botânico Antigona serrata Vellozo. O nome do gênero homenageia o missionário holandês Casearius, enquanto o epíteto lasiophylla une os termos gregos lasios (peludo, aveludado) e phyllon (folha), em referência às folhas tomentosas na face inferior.
Apresenta-se como arbusto, arvoreta ou árvore decídua. Os exemplares adultos de maior porte chegam perto de 15 m de altura e 30 cm de DAP (diâmetro medido a 1,30 m do solo). O tronco é tortuoso, com fuste de seção irregular ovalada, base reforçada e raízes subterrâneas. A ramificação varia de dicotômica a irregular ou simpódica, formando copa alta, estratificada, irregular e com poucas folhas. Os ramos novos têm tons pálido-ferrugíneos, tomentosos ou velutinos nas extremidades, tornando-se glabrescentes com o tempo; nas porções mais velhas (3 mm a 5 mm de diâmetro) cobrem-se densamente de lenticelas levemente achatadas. A casca chega a 5 mm de espessura: externamente é marrom-acinzentada, finamente fissurada, soltando-se em pequenas escamas longitudinais; internamente é amarelo-queimada, de textura arenosa e estrutura compacta e heterogênea. As folhas são simples, alternas, dísticas e elípticas, com base aguda a decorrente, ápice acuminado terminado em pequeno múcron e margem finamente serreada. Medem em média cerca de 18 cm de comprimento por 7 cm de largura, com pecíolo seríceo de 2 mm a 8 mm. A face superior é seríceo-velutina a pubescente e a inferior seríceo-velutina, de pilosidade macia; há pontuações translúcidas espalhadas pelo limbo, concentradas em uma faixa junto à margem. As estípulas, em par, são lanceoladas (4 mm a 8 mm) e caducas; a consistência é membranosa a papirácea, com gema axilar grande, globosa e pilosa. As inflorescências são pequenas umbelas compactas e de pedúnculo curto, reunindo até 50 flores bissexuais, miúdas e amareladas. O fruto é uma cápsula globosa e carnosa, levemente trígono-costeada, amarela quando madura e vermelho-escura a negra quando seca, com 14 mm a 34 mm de diâmetro, que se abre em três valvas e tem pericarpo fino-coriáceo. Cada fruto contém de 2 a 38 sementes ovóideo-achatadas, com cerca de 6 mm, testa lisa e arilo discreto, envolvidas por uma polpa alaranjada de sabor adocicado.
Uso e ecologia
Os frutos rendem uma polpa de sabor adocicado, aproveitada na alimentação. As flores são melíferas, com interesse para a apicultura, e as folhas têm uso medicinal por suas propriedades antissépticas em aplicação externa. A madeira é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,85 g/cm³), de textura média, pouco resistente e de baixa durabilidade natural, com alburno e cerne indistintos e de cor castanho-clara. É empregada apenas localmente em pequenas construções, como caibros e vigas, e na Região Metropolitana de Curitiba (PR) Baggio e Carpanezzi a apontam como adequada para cabos de ferramentas e utensílios domésticos. Também serve como lenha e carvão, mas é considerada inadequada para celulose e papel.
Trata-se de uma espécie clímax exigente em luz. O guaçatunga-graúdo tem distribuição ampla, porém descontínua e pouco expressiva. No bioma Mata Atlântica ocorre na Floresta Estacional Semidecidual (formações submontana e montana, em Minas Gerais e no Paraná, com até 20 indivíduos por hectare), na Floresta Ombrófila Densa (formação montana no Paraná e em São Paulo, e alto-montana no Maciço do Itatiaia, em Minas Gerais) e na Floresta Ombrófila Mista, com araucária (formações montana e alto-montana, no Paraná e no Itatiaia, com até 14 indivíduos por hectare). No bioma Cerrado aparece na Savana Florestada (cerradão), no sudoeste de Minas Gerais e em São Paulo. Surge ainda em ambientes fluviais ou ripários de Minas Gerais e do Paraná (até dois indivíduos por hectare) e em campo rupestre mineiro.
A floração ocorre de maio a outubro no Paraná, de agosto a setembro em Santa Catarina e de setembro a novembro em São Paulo. Os frutos amadurecem de outubro a janeiro no Paraná, em dezembro em Minas Gerais e de dezembro a janeiro em São Paulo.
A espécie é monóica. A polinização é feita sobretudo por abelhas, além de diversos insetos pequenos e borboletas. A dispersão de frutos e sementes é zoocórica: os frutos são muito procurados por aves, com destaque para o sanhaçu (Thraupis sp.), que os busca ainda verdes.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos na transição da cor verde para a amarela e beneficiados no mesmo dia da coleta, pois, se guardados de um dia para o outro, escurecem e começam a embolorar. Cada quilo reúne de 19.170 a 23.125 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. A semente é recalcitrante e perde a viabilidade em cerca de 3 meses.
Indica-se a semeadura em sementeiras, com posterior repicagem para sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio, feita quando as plântulas alcançam 5 cm a 6 cm de altura. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência começa entre 13 e 30 dias após a semeadura. Costuma ser baixa, em torno de 50%. As mudas chegam a cerca de 20 cm de altura aproximadamente 6 meses depois do plantio das sementes.
Espécie esciófila, adaptada à luz difusa ou mesmo heliófila, de tolerância mediana e que não suporta geadas fortes. Tem forma tortuosa, sem dominância apical definida, com ramificação pesada, bifurcações e multitroncos, além de desrama natural fraca, o que exige podas frequentes de condução e de galhos. Desenvolve-se melhor sob cobertura ou em plantios mistos e rebrota da touça, emitindo vários brotos. Por ser rara, integra a lista de espécies da flora paulista ameaçadas de extinção, na categoria em perigo.
O crescimento é lento. Em Rolândia (PR), registrou-se produção volumétrica de até 1,65 m³ por hectare ao ano aos 7 anos de idade.
A precipitação média anual varia de 1.100 mm, em São Paulo, a 2.500 mm, no Rio de Janeiro, com chuvas bem distribuídas no Sul (exceto no norte do Paraná) e periódicas no Sudeste. A deficiência hídrica é nula no Sul (salvo o norte paranaense), de pequena a moderada no inverno no centro e leste de São Paulo e no sul de Minas Gerais, e moderada no inverno no leste mineiro. A temperatura média anual oscila entre 16,2 ºC (Castro, PR) e 21,2 ºC (Caratinga, MG); a média do mês mais frio fica entre 12,2 ºC (Curitiba, PR) e 18 ºC (Assis, SP / Caratinga, MG) e a do mês mais quente entre 19,7 ºC (Resende, RJ) e 24 ºC (Londrina, PR). A mínima absoluta registrada foi de -8,4 ºC (Castro, PR), chegando a -12 ºC junto à relva. As geadas variam de 0 a 13 por ano em média, com máximo absoluto de 35 no Paraná. Pela classificação de Köppen, abrange os tipos Cfa, Cfb, Cwa e Cwb, conforme a região.
Na natureza, ocorre em solos de baixa fertilidade química.