Foto: Jefferson Gomes Lima (CC0) via Wikimedia
Guabiroba
Campomanesia xanthocarpa
- até 25 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: guaviroveira, guabirobeira, gabiroba, gabirobeira, gabirova, guabiroba-miúda, guabiroba-da-folha-grande, guabirobeira-do-mato, guabirobeira-de-folha-grande, guavirova, guavirova-de-folha-lisa, guabiroba-de-árvore, guabocaba, guariroba
Botânica
Pertencente à família Myrtaceae, ordem Myrtales, a espécie foi descrita por Berg e publicada na Flora brasiliensis de Martius (vol. 14, parte 1, p. 451) em 1857. O gênero Campomanesia homenageia o naturalista espanhol P. Rodrigues de Campomanes, enquanto o epíteto xanthocarpa une as palavras gregas xanthos (amarelo) e karpos (fruto), em referência ao 'fruto amarelo'. Em tupi-guarani recebe o nome guabira-roba, que se traduz por 'fruto-picante'. Entre os sinônimos botânicos mais citados na literatura estão Campomanesia malifolia Berg e Campomanesia rhombea Berg, ainda que a espécie reúna uma sinonímia bastante ampla, compilada por Landrum. Os nomes populares variam conforme o estado: guabirobeira no Mato Grosso do Sul; gabiroba e guabiroba em Minas Gerais; gabiroba, gabirobeira, gabirova, guabiroba, guabiroba-miúda, guabirobeira, guabirobeira-do-mato, guabivova, guaviroba e guavirova-de-folha-lisa no Paraná; gabirobeira-do-mato, guabiroba, guabiroba-da-folha-grande, guabiroba-miúda, guabirobeira, guabirobeira-de-folha-grande e guavirova no Rio Grande do Sul; guabiroba, guabirobeira e guavirova em Santa Catarina; gabiroba, gabiroba-de-árvore, guabocaba e guariroba em São Paulo. No exterior é chamada de guabiroba na Argentina e guavira pyta no Paraguai.
Trata-se de uma planta decídua que varia de arvoreta a árvore, alcançando, nos exemplares de maior porte e já adultos, cerca de 25 m de altura e 70 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). O tronco é acanalado e dotado de sapopemas na base; em árvores maiores, as caneluras podem percorrer todo o fuste ao redor. Em geral o fuste é curto e tortuoso, com até 8 m de comprimento e superfície de rugosidade macia. A ramificação é dicotômica, simpódica e irregular, formando uma copa arredondada, densa e finamente ramificada, com folhagem verde-escura na face superior e verde-clara na inferior; os ramos são cilíndricos e ásperos. A casca chega a 7 mm de espessura: a externa, de cor castanho-amarelada a cinza-escura, solta-se em tiras ou ripas fibrosas e finas, expondo a casca nova e deixando manchas claras, e revela tom marrom-claro ao ser raspada; a interna é fibrosa, de coloração amarelo-ferrugem e textura trançada. As folhas são simples, opostas-cruzadas, diáfanas e de consistência cartácea, com formato oval-oblongo, ápice acuminado-agudo e base cuneada; medem de 5 a 12,5 cm de comprimento por 2 a 7 cm de largura, têm lâmina verde-lustrosa e, na face inferior, nervuras amarelas e proeminentes, com margem irregular nas folhas jovens. O pecíolo atinge até 1 cm. As flores são solitárias, brancas e bastante vistosas, porém de curta duração, dispostas em 1 a 4 por verticilo. O fruto é uma baga globosa de 15 a 20 mm de diâmetro, axilar, solitário ou geminado, verde quando imaturo e amarelo ou alaranjado ao amadurecer; comestível e de sabor doce, abriga de 1 a 6 sementes. A semente é achatada, castanha e mede de 3 a 8 mm de diâmetro.
Uso e ecologia
A madeira da guaviroveira é moderadamente densa, com massa específica aparente de 0,86 g/cm³; o alburno é amarelado e o cerne, marrom-violáceo. É resistente, compacta e de boa durabilidade natural. Sem aplicação industrial, fornece tabuado em geral e desdobro, mas seu uso é restrito porque a árvore raramente atinge dimensão comercial; presta-se a peças curvas, instrumentos musicais e, na região metropolitana de Curitiba (PR), a cabos de ferramentas e utensílios domésticos. A lenha e o carvão são de boa qualidade e costumam ser escolhidos para o sapeco da erva-mate (Ilex paraguariensis). Para celulose e papel a espécie é inadequada. Como forrageira é imprópria, pois apresenta de 7% a 8% de proteína bruta e de 8% a 13% de tanino. Já na alimentação humana destaca-se como importante frutífera silvestre: seus frutos doces e ricos em vitamina C são consumidos in natura — historicamente apreciados, sobretudo, por populações indígenas — e empregados no preparo de licores, com potencial para industrialização. No campo medicinal, a infusão da casca dos frutos produz um óleo usado contra catarros, diarreia e disenteria; o chá das folhas é tido como redutor de colesterol, fortalecedor da memória e auxiliar contra disenterias, regulação intestinal e catarros da bexiga e do útero, e as folhas são usadas contra a gripe. As cascas, de ação adstringente, são empregadas contra diarreia, câimbras e catarros, além de serem consideradas anti-hemorrágicas, vermífugas e indicadas no tratamento de cistites e uretrites; banhos com o chá da casca aliviam hemorroidas. Povos indígenas do Paraná e de Santa Catarina utilizam folhas, caule, brotos e cascas para tratar sapinho, feridas na boca, fraturas, dor de dente, contusões, dores de estômago e de barriga, disenteria, dor nos olhos e para induzir o parto.
No quadro sucessional, a guaviroveira enquadra-se como secundária inicial, secundária tardia ou clímax tolerante à sombra. Pode crescer isolada ou formar agrupamentos quase puros, sendo bastante frequente e até abundante em solos úmidos e compactos, onde integra o estrato intermediário no interior dos pinhais. No bioma Mata Atlântica habita a Floresta Estacional Decidual (formações das Terras Baixas, Submontana e Montana, em Goiás, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, com 2 a 5 indivíduos por hectare), a Floresta Estacional Semidecidual (formações Aluvial, Submontana e Montana, em Minas Gerais, Paraná e São Paulo, com 1 a 10 adultos por hectare e até 100 jovens), a Floresta Ombrófila Densa (formações Submontana e Montana, no Paraná e em Santa Catarina, onde é muito rara), a Floresta Ombrófila Mista ou de Araucária (formação Montana, no Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, com 4 a 48 indivíduos por hectare) e a restinga em São Paulo. No Cerrado aparece na savana do Distrito Federal e de Minas Gerais. Ocorre ainda em ambientes fluviais e ripários do Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Paraná, com 1 a 65 indivíduos por hectare. Fora do Brasil, registra-se na Selva Misionera argentina, com 3 a 7 adultos por hectare.
A floração ocorre de julho a outubro em Minas Gerais e de setembro a novembro no Paraná e no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem de outubro a dezembro no Rio Grande do Sul e de novembro a janeiro no Paraná. Em solos de fertilidade química elevada, a frutificação pode iniciar-se já a partir do sexto ano.
Espécie monoica, é polinizada principalmente por abelhas e por diversos insetos de pequeno porte. A dispersão de frutos e sementes é zoocórica, contando com animais como o lagarto-teiú (Tupinamba sp.), o muriqui ou mono-carvoeiro (Brachyteles arachnoides) e o mico-leão-dourado (Leonthopithecus rosalia). Os frutos, produzidos em grande quantidade, são muito procurados por aves — sendo o alimento predileto dos papagaios (família Psittacidae) — e, nas margens de rios, servem de alimento a peixes frugívoros.
Plantio e silvicultura
Os frutos são recolhidos diretamente do solo, esmagados e lavados em peneira fina para separar a semente da polpa; em seguida, as sementes são secas à sombra por no máximo um dia. Cada quilo reúne de 13 mil a 28 mil sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. O comportamento é recalcitrante quanto ao armazenamento: em um lote, a germinação caiu de 45% para 33% após 60 dias; em outro, partindo de 88%, recuou para 33% em 15 dias e tornou-se totalmente inviável após 30 dias.
A semeadura pode ser feita em sementeiras com cobertura leve ou colocando-se duas sementes por saco de polietileno (no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro) ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio. A repicagem, quando necessária, é realizada em recipientes individuais assim que as mudas alcançam de 3 a 5 cm de altura. A germinação é hipógea ou criptocotiledonar, com emergência iniciando entre 30 e 60 dias após o plantio; a remoção da polpa eleva a taxa de germinação (45%, contra 26% sem remoção). O tempo mínimo de permanência em viveiro é de 4 meses após a semeadura. A espécie também se propaga vegetativamente por estacas.
Espécie esciófila e tolerante a baixas temperaturas, apresenta hábito variável, desde fustes retilíneos de crescimento monopodial até troncos irregulares, levemente tortuosos e com bifurcações a partir de 2 m de altura. Para a regeneração recomenda-se o plantio misto ou em vegetação matricial sob cobertura. No Sul do Brasil, integra tradicionalmente o sistema agroflorestal de faxinal.
O crescimento é lento, com produção volumétrica estimada em até 1,55 m³ por hectare ao ano aos 10 anos de idade.
A precipitação média anual varia de 1.200 mm, em Minas Gerais e São Paulo, a 2.300 mm, no Paraná, com chuvas bem distribuídas na Região Sul (exceto o norte do Paraná) e no sudoeste paulista, e periódicas nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula na Região Sul (exceto norte do Paraná), no sudoeste de São Paulo e na Serra dos Órgãos (RJ); pequena no inverno do norte do Paraná; de pequena a moderada no centro e leste de São Paulo, sul de Minas Gerais e sudoeste do Espírito Santo; e moderada no Distrito Federal. A temperatura média anual fica entre 16,5 ºC (Curitiba, PR) e 23,3 ºC (Posse, GO); a média do mês mais frio entre 9,4 ºC (São Joaquim, SC) e 21,7 ºC (Posse, GO), e a do mês mais quente entre 17,2 ºC (São Joaquim, SC) e 25,5 ºC (Foz do Iguaçu, PR). A mínima absoluta registrada é de -10,4 ºC (Caçador, SC), podendo chegar a -15 ºC na relva. As geadas variam de 0 a 30 por ano, com máximo absoluto de 57 no Sul, região onde também pode nevar — em São Joaquim (SC), quase todos os anos. Quanto à classificação de Köppen, a espécie ocorre nos tipos Af (litoral do PR e de SP), Aw (ES e MG), Cfa (PR, RS, leste de SC e SP), Cfb (PR, RS e SC), Cwa (DF, GO, MS, MG e SP) e Cwb (sul de MG, RJ e SP).
Cresce naturalmente em terrenos medianamente ondulados de solos de origem basáltica e fertilidade química alta, em solos úmidos e compactos de planícies, várzeas e aclives suaves. Tolera também sítios mal drenados.