Foto: Hermógenes Teixeira Pinto Filho (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia
Grápia
Apuleia leiocarpa
- até 35 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: amarelão, amarelinho, amarelinho-da-serra, garapiapanha, grapiapunha-branca, guarapeapunha, aricirana, barajuba, cetim, coração-de-negro, cumarurana, garapa, garapa-amarela, garapa-branca, garapeapunha, garapeira, garapeiro, garapiapunha, gema-de-ovo, gemada, gotaí-amarelo, gramiamunha, grápea, grapeapunha, grapeapunha-branca, grapiá, grapiapunha, guaretá, jataí, jataí-amarelo, jetaí, jitaí, jitaí-amarelo, jutaí, minrajuba, muirajuba, mulateira, parajuba, pau-cetim, pau-mulato
Botânica
Seguindo o sistema de Cronquist, a grápia pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae) e à classe Magnoliopsida (Dicotiledôneas), dentro da ordem Fabales e da família Caesalpiniaceae (Leguminosae Caesalpinioideae). Sua denominação científica é Apuleia leiocarpa (Vogel) Macbride, descrita em 1919. Ao longo do tempo recebeu outros nomes científicos, hoje tratados como sinônimos: Apuleia polygama Freire Allemão, Apuleia praecox (Martius) Vogel e Leptolobium leiocarpum Vog. O nome do gênero homenageia L. Apuleus Madaurensis, filósofo e escritor do século II d.C., enquanto o epíteto leiocarpa faz referência ao fruto liso, desprovido de ornamentação.
Trata-se de uma árvore caducifólia cujo tamanho varia bastante conforme a região: no Nordeste mede de 2 a 15 m, no Sudeste chega a 20 m e no Sul pode atingir 35 m de altura e 100 cm de DAP quando adulta; já na Amazônia, a variedade molaris alcança até 40 m. O tronco vai de irregular a cilíndrico, mostrando-se reto em floresta fechada e levemente tortuoso em áreas abertas; o fuste, em geral um pouco torto, chega a 15 m de comprimento na mata e por vezes desenvolve sapopemas na base. A ramificação é cimosa a simpódica, formando uma copa ampla, bastante ramificada, achatada e pouco densa, com até 8 m de diâmetro, que oferece sombra moderada. A casca é fina, com no máximo 10 mm de espessura; externamente é pardo-amarelada a branco-acinzentada, áspera e quase lisa, soltando-se em escamas finas e rígidas em forma de conchas que deixam cicatrizes inconfundíveis, com lenticelas espalhadas de modo irregular e tom pardo-arroxeado quando raspada. A casca interna é dura e rosada, liberando uma seiva que escurece ao contato com o ar após a incisão. As folhas são alternas, compostas e imparipinadas, de 8 a 15 cm de comprimento, pecioladas, com 5 a 11 folíolos pequenos e alternos; as lâminas medem de 2 a 5 cm por 1 a 2,5 cm, com formato variável (ovais a ovais-lanceoladas, elípticas ou ovado-oblongas), coriáceas, reticuladas, base obtusa, ápice agudo-acuminado e 7 a 9 nervuras secundárias, podendo ser levemente pubescentes na face inferior ou totalmente glabras. As flores ocorrem em dois tipos, masculinas e hermafroditas, na proporção de três para uma; são pequenas (5 a 8 mm), pouco vistosas, de cor branca, amarela ou bege, com três pétalas e ovário piloso. Reúnem-se em inflorescências terminais em cima ou cimeira, com 25 a 35 flores, ou paniculadas de até 5 cm, surgindo sobre ramos sem folhas ou no início do enfolhamento. O fruto é uma vagem achatada, oblonga a suborbicular, indeiscente, de cor castanho-clara, levemente coriácea e comprimida lateralmente, medindo de 1,5 a 6 cm de comprimento por 1,4 a 2,5 cm de largura e 3 a 5 mm de espessura, pesando em média 208 mg; observou-se que 92,6% dos frutos continham apenas uma semente e 7,4% continham duas. As sementes têm de 4 a 8 mm de comprimento por 2 mm de espessura, são suborbiculares, lisas, duras e achatadas, com peso médio de 102,5 mg, cor variando do castanho-esverdeado ao castanho-escuro, frequentemente com pontos ou manchas escuras e estrias longitudinais paralelas sempre presentes.
Uso e ecologia
A madeira da grápia é densa (0,75 a 1,00 g/cm³ a 15% de umidade; massa específica básica de 0,67 a 0,75 g/cm³). O alburno é branco-amarelado e o cerne vai do bege-amarelado ou amarelo rosado ao róseo-acastanhado, com superfície lustrosa, textura média e desigual e grã irregular, frequentemente revessa; cheiro e gosto são imperceptíveis. Apresenta resistência moderada ao apodrecimento e baixa resistência ao cupim de madeira seca, com boa durabilidade ao tempo desde que não exposta a alta umidade; em contato com o solo, sua vida média é inferior a 9 anos. Seca com dificuldade, exigindo secagem lenta e controlada ao ar ou em forno, e tem baixa permeabilidade a preservantes, não sendo tratável com creosoto nem com CCA-A. Pela presença de sílica, é fácil de trabalhar quando se usa ferramentas adequadas, recebe bem cola, prego e acabamento, mas torna-se difícil de trabalhar depois de seca. Tende a manchar pela ação de fungos, recomendando-se banhos preventivos com fungicidas. Lembra o vinhático-da-mata (Plathymenia foliolosa), porém com veios mais marcados e poros menores; no norte do Espírito Santo já foi vendida misturada à peroba-do-campo (Paratecoma peroba). É indicada para estruturas externas, dormentes, postes, estacas, mourões, cruzetas, construção civil (vigas, caibros, ripas, batentes, esquadrias, assoalhos e forros), construção naval, marcenaria, carpintaria, cabos de ferramentas, implementos agrícolas e vigas de ponte, além de lâminas para decoração e revestimentos internos. É também usada em tanoaria, sobretudo em barris de cerveja, e em Bento Gonçalves (RS) é a madeira preferida para tonéis de envelhecimento de vinhos; é tida ainda como a melhor para carrocerias de caminhão e carroças, por resistir bem à alternância de chuva e sol. Com alto teor de lignina, presta-se à produção de álcool, coque e carvão, e a variedade molaris (muiratauá-da-amazônia) fornece polpa para papel de embalagem de qualidade igual ou superior à do eucalipto. Da casca, que pode conter até 24% de tanino, extrai-se substância tanante empregada em curtumes, especialmente para peles claras. Nas cascas e no cerne foram identificados dez flavonoides inéditos, um pterocarpano, sitosterol, β-amirina e pinitol.
Quanto à sucessão, é uma espécie versátil, podendo comportar-se como pioneira indiferente, secundária inicial, secundária tardia ou clímax exigente em luz. Regenera-se com abundância em florestas secundárias e coloniza facilmente capoeiras e roças abandonadas, ocorrendo também em campos, terrenos cultivados, cafezais abandonados e pastagens, onde costuma formar agrupamentos com árvores de todas as idades (gregarismo). É característica da Floresta Estacional Semidecidual, na qual ocupa o estrato emergente e é mais frequente nas bacias dos rios Paraná, Uruguai e Jacuí, chegando a formar agrupamentos puros. Aparece ainda no estrato emergente da Floresta Estacional Decidual, sobretudo no Vale do Alto Uruguai e na Bacia do Jacuí, bem como na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica e de Tabuleiro, no norte do Espírito Santo) e na Floresta Amazônica. Em levantamentos no noroeste do Rio Grande do Sul registraram-se nove indivíduos por hectare; em mata de galeria no Distrito Federal, de 3 a 16 árvores por hectare; e na Argentina, de 4 a 7 exemplares por hectare, concentrados no estrato dominante.
A floração ocorre em geral antes do surgimento das folhas, variando conforme a região: de agosto a outubro no Paraná e no Rio Grande do Sul; de setembro a outubro no Rio de Janeiro; em outubro em Minas Gerais; e de outubro a novembro no Espírito Santo e em São Paulo. Os frutos amadurecem de novembro a abril no Rio Grande do Sul, de dezembro a janeiro no Paraná, de janeiro a maio no Espírito Santo, de fevereiro a maio no Rio de Janeiro, de março a abril em São Paulo e em maio em Minas Gerais.
É uma planta monoica, provavelmente alógama, polinizada principalmente por abelhas. A dispersão dos frutos e sementes se dá pelo vento (anemocórica) e por gravidade (autocórica, sobretudo barocórica). Suas folhas são muito apreciadas pelo macaco-bugio (Alouatta fusca), e primatas como o barbado e o muriqui (Brachyteles arachnoides) consomem brotos e flores, recursos importantes no fim da estação seca.
Plantio e silvicultura
A produção de sementes é irregular, podendo levar dois anos ou mais até uma safra satisfatória. Os frutos devem ser colhidos ao mudarem do verde para tons creme e, em seguida, espalhados no chão ou sobre mesas em local arejado ou a meia-sombra até secarem, quando as sementes são extraídas manualmente, limpas, selecionadas e armazenadas; o beneficiamento mecânico também é viável com trituradora adaptada. Cada quilo contém de 8.420 a 20.800 sementes. A espécie apresenta dormência tegumentar, recomendando-se a imersão em água quente a 80ºC fora do aquecimento, com repouso de 12 horas na mesma água para embebição (a água fervente não deve ser usada, pois causa 100% de mortalidade), ou ainda escarificação mecânica ou em ácido sulfúrico concentrado por mais de 2 minutos. As sementes têm comportamento ortodoxo: lotes com 96% de germinação inicial, guardados em saco de papel kraft em câmara seca a 50% de umidade relativa, mantiveram 85% de germinação aos 19 meses (72% em ambiente não controlado); em câmara fria (3ºC a 5ºC, 92% de UR), a germinação caiu a 14% após 7 anos. Sementes de coloração escura são mais vigorosas e geram mudas mais uniformes; os testes indicaram como melhores condições a temperatura de 25ºC e os substratos sobre papel-filtro e vermiculita.
Recomenda-se semear em sementeira e repicar as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou para tubetes médios de polipropileno, fazendo a repicagem de 2 a 4 semanas após a germinação (podendo chegar a 90 dias) quando as mudas tiverem de 8 a 12 cm, com poda da raiz para estimular raízes laterais; a semeadura direta no campo, com três sementes por cova, também funciona. A germinação é epígea e começa entre 10 e 30 dias, podendo levar até 80 dias sem tratamento adequado; o poder germinativo é alto (até 90%) com a dormência superada e baixo (até 20%) sem essa superação. As mudas permanecem no viveiro por pelo menos 6 meses, atingindo 20 cm, mas exemplares de até 70 cm pegam bem no campo. Por ter raiz axial pronunciada e poucas raízes laterais, não se aconselha o plantio com raiz nua. Para o endurecimento das mudas, deve-se evitar submetê-las a ciclos de déficit hídrico. Suas raízes não se associam ao Rhizobium, sendo recomendável investigar a presença de fungos micorrízicos arbusculares.
A grápia é semi-heliófila, tolerando sombreamento de 50% a 70% e respondendo melhor sob dossel fechado; é medianamente tolerante a baixas temperaturas. Costuma apresentar forma ruim, sem dominância apical definida, com caule acamado e ramificação pesada, e não desrama de modo satisfatório, exigindo podas de condução e de galhos frequentes e periódicas. Pode ser plantada a pleno sol em plantio misto, associada a espécies pioneiras para melhorar o fuste, ou empregada no enriquecimento em linhas de florestas secundárias, com bons resultados no Rio Grande do Sul em consórcio com a acácia-negra (Acacia mearnsii); rebrota da touça após o corte. Em sistemas agroflorestais, é usada na arborização de culturas, geralmente com o milho, nos dois primeiros anos. Estudos de progênies da variedade molaris detectaram alta variação genética, e a fórmula cariotípica da espécie é de 20 metacêntricos, 4 submetacêntricos e 2 telocêntricos.
Considerada uma das espécies madeireiras promissoras para o Paraná, a grápia tem crescimento lento a moderado. Em Cianorte (PR), aos 12 anos, alcançou incremento volumétrico máximo de 6,80 m³/ha/ano em volume sólido com casca. Em Concórdia (SC), o crescimento foi baixo em razão de geadas intensas registradas em 4 anos do experimento.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 850 mm (Bahia e Minas Gerais) a 2.900 mm (Pará), com chuvas bem distribuídas no Sul (exceto no norte do Paraná) e na região de Belém, e concentradas no verão nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula no Sul e moderada (estação seca de até 5 meses) no centro da Bahia e no centro-norte de Minas Gerais. A temperatura média anual varia de 16,7ºC (Xanxerê, SC) a 26,8ºC (Parnaíba, PI); a do mês mais frio fica entre 11,9ºC (Pelotas, RS) e 25,9ºC (Imperatriz, MA), e a do mês mais quente entre 20,8ºC (Xanxerê) e 28,2ºC (João Pessoa, PB), com mínima absoluta de -11,6ºC em Xanxerê. O número de geadas anuais vai de 0 a 10 em média, podendo chegar a 34 no Sul. Os tipos climáticos de Köppen são tropical (Af, Am e Aw), subtropical úmido (Cfa), temperado úmido (Cfb) e subtropical de altitude (Cwa e Cwb).
A grápia é referência para terrenos secos e profundos, ocorrendo sempre em lugares altos. No noroeste do Rio Grande do Sul, desenvolve-se em solos originados de rochas eruptivas básicas, de textura franca a argilosa e substrato basáltico; no norte do Paraná, em Nitossolo Vermelho eutroférrico (antiga Terra Roxa estruturada), de fertilidade média a boa e textura argilosa; e no Nordeste, em solos arenosos dos tabuleiros. Em plantios paranaenses, cresceu melhor em solo de boa fertilidade química, bem drenado e de textura areno-argilosa a argilosa.