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Foto de Gonçalo-alves

Foto: Thomaz Ricardo Favreto Sinani (CC BY) via GBIF

Gonçalo-alves

Astronium fraxinifolium

Anacardiaceae AmazôniaCerradoMata AtlânticaCaatingaPantanal
  • até 25 mAltura
  • Grande portePorte
Crescimento rápidoRaras / ameaçadasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: aroeira, aroeira-do-campo, aroeira-mole, aroeira-vermelha, arueira-brava, arueira-da-mata, gonçaleiro, gonçalave, gonçalo, gonçalves, garapeiro, jequira, pau-gonçalves, chibatã, ubatã, sete-cascas, brito, angelim, santo

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pertencente à família Anacardiaceae, o gonçalo-alves recebe o nome científico Astronium fraxinifolium Schott, descrito em 1827. Dentro da ordem Sapindales, integra o gênero Astronium, cujo nome remete a astro, em referência ao fruto cujas cinco sépalas formam uma estrela; já o epíteto fraxinifolium alude à semelhança das folhas com as do gênero Fraxinus. São reconhecidos como sinônimos botânicos Astronium graveolens var. brasiliensis Engler e Astronium fraxinifolium f. mollissimum Mattick. A espécie recebe denominações populares variadas conforme a região: além do amplamente difundido gonçalo-alves, é chamada de jequira e pau-gonçalves no Amazonas; aroeira em Goiás, no Pará e na Paraíba; arueira-brava e arueira-da-mata no Maranhão; gonçaleiro em Mato Grosso e Minas Gerais; garapeiro em Mato Grosso do Sul; chibatã e ubatã no Rio de Janeiro; sete-cascas na Paraíba e em Pernambuco; aroeira-mole no Piauí; e angelim em Sergipe, entre outras variações locais.

Descrição botânica

Árvore de comportamento decíduo, o gonçalo-alves alcança, quando adulto, cerca de 25 m de altura e até 60 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo). Em regiões de Cerrado e Caatinga, no entanto, é comum encontrar indivíduos bem menores, com 3 a 5 m. O tronco é reto e por vezes apresenta sapopemas na base, com fuste de até 8 m. A ramificação é cimosa e a copa, frondosa, é pouco ramificada. A casca chega a 17 mm de espessura: a parte externa (ritidoma) é lisa a levemente rugosa, de tom grisáceo a escuro, e se desprende em placas arredondadas, deixando depressões esbranquiçadas que são uma marca registrada da espécie; costuma ser manchada por liquens e portar numerosas lenticelas pequenas, enquanto a casca interna é rosada. As folhas são alternas e imparipinadas, medindo de 15 a 25 cm, com 4 a 6 pares de folíolos ovados de 5 a 12 cm de comprimento por 2 a 3,5 cm de largura, que liberam aroma de manga ao serem amassados. As inflorescências surgem em panículas terminais ou axilares, amplas e compostas, de 2 a 6 cm. As flores são pequenas e abundantes, com 4 mm, brancas ou amarelo-esverdeadas e cinco pétalas. O fruto é uma drupa elipsoide-oblonga e monosspérmica, de 1 cm de comprimento por 3 a 5 mm de diâmetro, com as cinco sépalas persistentes alargadas em alas oblongas castanho-claras. A semente é oblonga, de 5 a 7 mm, com taxa de poliembrionia em torno de 4%.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícola
Produtos e utilizações

A madeira do gonçalo-alves é densa a muito densa (massa específica aparente de 0,73 a 1,13 g/cm³ e densidade básica de 0,820 t/m³). O cerne é bastante irregular: recém-cortado apresenta tom bege-rosado ou róseo-acastanhado, escurecendo depois para castanho, com grandes manchas e veios pardo-escuros e reflexos dourados. A superfície é lustrosa e lisa, de textura média e uniforme, grã irregular, diagonal ou revessa, cheiro pouco perceptível e leve sabor adstringente. Trata-se de madeira muito durável, com elevada resistência a fungos, que recebe acabamento de grande beleza. É empregada em construção civil e naval, postes, parquetes, mobiliário fino, peças torneadas e de adorno, além de lâminas para compensado, sendo, por outro lado, inadequada para celulose e papel. A espécie também fornece lenha e carvão de ótima qualidade. A casca é rica em taninos (até 12% de compostos tânicos). Na medicina popular, é utilizada pela população rural de Santo Antônio do Leverger (MT) no tratamento de doenças venéreas; a casca, em forma de lavagem, é aplicada contra hemorroidas, e o óleo dos frutos e das cascas (cáustico e irritante) é usado contra calos e dor de dente.

Aspectos ecológicos

Há divergência entre os autores quanto ao grupo sucessional do gonçalo-alves, classificado ora como pioneira, ora como secundária inicial, secundária tardia ou clímax exigente em luz. Em geral, forma agrupamentos descontínuos. Sua presença abrange diversos biomas e tipos de vegetação: na Mata Atlântica, ocorre em Floresta Estacional Decidual (até 43 indivíduos por hectare em Minas Gerais), em Floresta Estacional Semidecidual (até 125 indivíduos por hectare no Ceará, em Minas Gerais e em São Paulo) e em Floresta Ombrófila Densa do Ceará e do Rio de Janeiro; na Amazônia, em Floresta Ombrófila Densa de terra firme no Pará; no Cerrado, em savana stricto sensu (até 25 indivíduos por hectare) e em cerradão; na Caatinga, na savana-estépica do sertão árido do Piauí; e no Pantanal Mato-Grossense, com até nove indivíduos por hectare. É também frequente em ambientes ripários e matas ciliares (até 43 indivíduos por hectare). No Cerrado mineiro, sua baixa frequência é explicada pela germinação reduzida em campo, já que as sementes são constantemente atacadas por fungos.

Floração e frutificação

A floração varia conforme a região: de maio a junho no Pará; em junho em Goiás; de junho a outubro no Distrito Federal; de julho a agosto no Piauí; de julho a setembro em Mato Grosso do Sul e em Minas Gerais; e de agosto a setembro no Ceará. Os frutos amadurecem de julho a novembro em Mato Grosso; em setembro no Piauí; de setembro a outubro em Goiás e no Pará; de setembro a novembro no Distrito Federal e em Mato Grosso do Sul; e em fevereiro em Minas Gerais.

Fauna associada

Espécie dioica, o gonçalo-alves depende da fecundação cruzada (alogamia), embora possa recorrer a mecanismos assexuados de reprodução (apomixia facultativa) na falta de polinizadores. A polinização é entomófila, realizada principalmente por abelhas, com destaque para a abelha-africanizada (Apis mellifera) e, sobretudo, a abelha-arapuá (Trigona spinipes), o agente mais eficiente; pequenos dípteros também visitam as flores em busca de pólen, mas sem papel comprovado na polinização. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, feita pelo vento. A espécie é muito melífera, rica em pólen e boa produtora de néctar.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começarem a cair e, em seguida, expostos ao sol para secar e facilitar a retirada manual das sépalas aderentes. Cada quilo reúne cerca de 35.500 sementes. Não há necessidade de tratamento pré-germinativo, embora alguns autores recomendem um preparo prévio. As sementes são ortodoxas quanto ao comportamento fisiológico, e a criopreservação (a -196 ºC) desponta como alternativa promissora para sua conservação a longo prazo. Em laboratório, registraram-se 86% de germinação com temperatura alternada de 20/30 ºC e fotoperíodo de 8 horas de luz por 16 de escuro em substrato rolo de papel; outros ensaios apontaram como condições ideais temperatura de 25 ou 30 ºC, substrato sobre papel e regime de luz indiferente.

Produção de mudas

Para a produção de mudas recomenda-se usar recipientes de cerca de 16 cm de diâmetro por 28 cm de altura, com substrato composto por 50% de matéria orgânica curtida e 50% de terra arenosa, mantendo as mudas à sombra. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência ocorre entre 12 e 35 dias após a semeadura, com taxa de poliembrionia de 4%. Sementes recém-colhidas germinam entre 65% e 94%; para elevar esse índice, convém lavá-las sucessivamente (para extrair o óleo) e imergi-las em solução de hidróxido de sódio a 2%.

Características silviculturais

Heliófila, a espécie tolera moderadamente baixas temperaturas e apresenta crescimento monopodial, com boa desrama e cicatrização. É indicada para plantio misto a pleno sol. O consórcio com o jacarandá-caroba (Jacaranda cuspidifolia) mostrou-se promissor, favorecendo o crescimento rápido das plantas, com introdução de gado quatro anos após o plantio para controle do mato. Já em linhas de enriquecimento de mata secundária em Minas Gerais, registrou alta mortalidade (90,24%) e o menor incremento médio anual em altura. Quanto à conservação genética, o gonçalo-alves integra a lista da flora brasileira com deficiência de dados (Anexo II) e, em Mato Grosso, encontra-se na categoria vulnerável, demandando programas urgentes de conservação. Estudos de populações naturais revelaram variabilidade genética em todos os caracteres avaliados, com maior herdabilidade para altura e espessura de casca.

Crescimento e produção

Há poucos dados sobre o desenvolvimento do gonçalo-alves em plantios, mas seu crescimento é considerado rápido, podendo facilmente alcançar 3 m de altura aos 2 anos de idade.

Clima

A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 700 mm, no Piauí, a 2.600 mm, no Amapá, sob regime de chuvas periódicas. A deficiência hídrica oscila de pequena a forte conforme a região, sendo forte no oeste da Bahia e no Piauí. A temperatura média anual varia de 18,1 ºC (Diamantina, MG) a 26,5 ºC (Bom Jesus do Piauí, PI, e Macapá, AP). A mínima absoluta registrada foi de -3,7 ºC, em Coxim (MS), em julho de 1975, chegando a -6,2 ºC em Puerto Iguazú, na Argentina. As geadas são ausentes na maior parte da distribuição e raras no sudoeste de Mato Grosso do Sul, no oeste e sul de Minas Gerais e no oeste de São Paulo. Pela classificação de Köppen, abrange os tipos Am, Aw, BSh, Cwa e Cwb.

Solos

Espécie calcífila típica e indicadora de solos mesotróficos, o gonçalo-alves prefere sítios bem drenados e profundos, de textura arenosa ou argilosa e alta fertilidade.