Foto: Corli du Toit Smith (CC BY) via GBIF
Fumo-bravo
Solanum mauritianum
- até 12 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: cuvitinga, fumo-brabo, capoeira-branca, joá, jurubeba-de-árvore, canema, fumeiro, couvetinga, couvitinga, catarina
Botânica
Segundo o sistema de classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado Euasterídeas I, ordem Solanales (em Cronquist, alocada em Polemoniales), família Solanaceae e gênero Solanum. O binômio aceito é Solanum mauritianum Scop., descrito originalmente em 1788, na obra Deliciae Florae et Faunae Insubricae. Entre os sinônimos botânicos registrados estão Solanum auriculatum Aiton, Solanum tabaccifolium Vell., Solanum erianthum D. Don e Solanum verbascifolium sensu Rambo. O nome do gênero deriva do latim solamen, que remete a "alívio" ou "consolo", aludindo ao efeito calmante e sonífero atribuído a diversas espécies do grupo; já o epíteto mauritianum tem origem desconhecida.
A cuvitinga varia da forma arbustiva à arbórea, com folhagem sempre-verde (perenifólia). Os indivíduos maiores chegam a aproximadamente 12 m de altura e 30 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo) quando adultos. O tronco é reto e apresenta nós dilatados, com ramificação dicotômica. A copa, de formato arredondado e tonalidade verde-acinzentada, não é muito densa. A casca atinge até 9 mm de espessura: a parte externa (ritidoma) é semilisa, cinzenta, com fissuras curtas e muitas lenticelas grandes e salientes; a interna é esbranquiçada e fibrosa, mas adquire tom esverdeado ao ser exposta ao sol. As folhas são simples, alternas, elípticas, bicolores, pecioladas, pubescentes e de margem inteira, medindo de 5 cm a 30 cm de comprimento por 4 cm a 10 cm de largura. As inflorescências são corimbos terminais de até 15 cm, reunindo de 5 a 25 flores hermafroditas em forma de estrela, de 1 cm a 2 cm de largura e corola violeta. Os frutos são bagas (solanídios) indeiscentes, carnosas, globosas e tomentosas, de 5 mm a 19 mm de diâmetro, com epicarpo que permanece verde mesmo maduro, polpa branco-amarelada e muitas sementes distribuídas em dois ou mais lóculos. As sementes são pequenas, elipsoides e comprimidas, medindo em média 2,25 mm de comprimento, 1,92 mm de largura e 0,73 mm de espessura.
Uso e ecologia
A madeira da cuvitinga é leve, com densidade aparente de 0,48 g/cm³, cor creme-amarelada, textura fina e grã direita. Por suas limitações, a madeira não tem aplicação como peça serrada ou roliça e carece de valor econômico nesses usos, além de render lenha apenas de qualidade razoável. Por outro lado, presta-se à fabricação de papel, sobretudo papel diário. Quanto ao uso medicinal, nas zonas rurais as folhas são fornecidas a cavalos para combater parasitas intestinais; no Rio Grande do Sul, a planta foi registrada como de uso corrente na flora medicinal, atribuindo-se-lhe propriedades calmantes e diuréticas. Vale ressaltar que tais relatos têm valor etnofarmacológico para a pesquisa e não representam recomendação terapêutica. A espécie também tem grande relevância na restauração de áreas degradadas.
Trata-se de uma espécie pioneira, bastante frequente na vegetação secundária, onde coloniza áreas alteradas. Em certas formações chega a formar povoamentos densos ao lado da crindiúva (Trema micrantha) e de outras pioneiras, enquanto na floresta primária aparece muito raramente. Em uma capoeira baixa em Piracicaba (SP), foram registrados 203 indivíduos por hectare com altura igual ou superior a 50 cm. No Rio Grande do Sul, suas sementes foram localizadas no banco de sementes do solo de vários remanescentes florestais. Em estudo do banco de sementes, observou-se 16% de germinação em clareiras abertas e nenhuma germinação no interior da floresta. A espécie ocorre em diversas formações da Mata Atlântica (Floresta Estacional Decidual, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Ombrófila Densa e Floresta Ombrófila Mista com araucária), no Cerrado stricto sensu em São Paulo e nos Campos do Pampa, no Rio Grande do Sul, além de matas ciliares, campos antrópicos e ecótonos savânico-florestais.
A floração vai de outubro a março em Santa Catarina e de outubro a fevereiro no Paraná. Os frutos amadurecem de agosto a outubro em Minas Gerais e de dezembro a abril no Paraná.
A polinização é feita por moscas (melitofilia). A dispersão dos frutos e sementes é zoocórica, realizada por diversos animais silvestres, com destaque para o sanhaço-cinza (Thraupis sayaca).
Plantio e silvicultura
Os frutos podem ser recolhidos do chão logo após a queda ou retirados diretamente da árvore com auxílio de linhada, agitando-se os galhos para que caiam sobre uma lona plástica. No beneficiamento imediato (no mesmo dia ou no seguinte), separam-se as sementes por maceração em peneira: a massa de sementes e restos de polpa é imersa em água limpa, depois despejada na peneira para escoar a água e, por fim, lavada em água corrente até a remoção das impurezas. Cada quilograma reúne cerca de 435.000 sementes. Não é preciso aplicar tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento ortodoxo no armazenamento.
Indica-se semear em sementeiras e, de 3 a 5 semanas após a germinação, repicar as plântulas para sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio. A germinação é epígea, com plântulas fanerocotiledonares, e a emergência começa entre 20 e 50 dias após a semeadura. O poder germinativo é elevado, em média 80%. As mudas alcançam tamanho adequado para o plantio em campo cerca de 6 meses após a semeadura. A espécie mostrou incidência média de micorriza arbuscular em viveiro e em casa de vegetação.
É uma espécie heliófila que suporta temperaturas baixas. Na regeneração natural o tronco se mostra reto e sem ramificação lateral; já na regeneração artificial tende a ficar irregular e com ramificação intensa. Sob plantio denso ocorre derrama natural, ao passo que, em espaçamentos mais largos, a planta se apresenta bifurcada e com ramos laterais vigorosos. Sua autoecologia a recomenda para plantios puros.
Há poucos dados sobre o desenvolvimento da espécie em plantios. Sob regeneração natural, porém, o crescimento é muito rápido.
A precipitação média anual varia de 1.100 mm, em São Paulo, a 2.500 mm, no Rio Grande do Sul, com chuvas uniformes ao longo do ano. A deficiência hídrica vai de nula, no Planalto Sul-Brasileiro, a moderada nas demais regiões. A temperatura média anual situa-se entre 13,2 °C (São Joaquim, SC) e 21,2 °C (Caratinga, MG); a média do mês mais frio fica entre 9,4 °C (São Joaquim, SC) e 19,1 °C (Brasília, DF), e a do mês mais quente entre 17,2 °C (São Joaquim, SC) e 24,9 °C (São Paulo, SP). A mínima absoluta registrada foi de -10 °C, em Palmas (PR). As geadas variam de frequentes, no Planalto Sul-Brasileiro, a ausentes, no Distrito Federal, com média de 0 a 15 por ano e máximo absoluto de até 33. Quanto à classificação de Köppen, a espécie ocorre em clima Cfa (subtropical com verão quente), Cfb (temperado com verão ameno), Cwa (subtropical com inverno seco e verão quente) e Cwb (subtropical de altitude com inverno seco e verão ameno).
A cuvitinga cresce espontaneamente em terrenos de profundidade e fertilidade variadas, predominando solos pobres e ácidos, com pH entre 3,5 e 5,5, textura de franca a argilosa e boa drenagem. Tolera terrenos pedregosos e terraplanados. Já os solos orgânicos mal drenados, como o Gleissolo Melânico Alumínico (Glei Húmico) e o Gleissolo Háplico Tb distrófico (Glei pouco Húmico), são pouco favoráveis ao seu desenvolvimento.