Fumo-bravo
Solanum bullatum
- até 13 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: capoeira-branca, joá-açu, juá-açu, capoeirão-da-terra-seca, cuvitinga, cuvitinga-amarela, fumeiro-alho, pau-de-fumo, juá, cinzeiro
Botânica
Pertencente à família Solanaceae, o fumo-bravo tem como nome científico aceito Solanum bullatum Vell., publicado na Flora Fluminensis em 1825. Solanum macropus Dunal é tratado como sinônimo. Pelo sistema do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie integra o clado das euasterídeas I, na ordem Solanales — que no sistema de Cronquist correspondia às Polemoniales. Quanto à origem dos nomes, o gênero Solanum remete a uma antiga denominação de planta dessa família, possivelmente ligada ao latim solamen (consolo, alívio), em referência ao efeito calmante de algumas espécies; já o epíteto bullatum, do latim bullatus, faz alusão ao aspecto ondulado das folhas.
É uma planta perenifólia que se apresenta como arbusto, arvoreta ou árvore, alcançando, quando adulta, cerca de 13 m de altura e 30 cm de diâmetro à altura do peito. O tronco, reto e de base normal, varia de cilíndrico a irregular em seção, com fuste de até 8 m. A ramificação pode ser dicotômica, tricotômica ou simpódica, formando copa alta, densa e de contorno irregular; os ramos novos são sulcados, de tom acinzentado a marrom-avermelhado e revestidos por tricomas esbranquiçado-amarelados. A casca, de até 5 mm de espessura, tem a parte externa cinzenta com manchas escuras, finamente reticulada e que se solta em pequenas escamas retangulares, enquanto a interna é creme-esverdeada, fibrosa, de estrutura trançada e sabor bastante amargo. As folhas são simples, de disposição alterna e textura coriácea, tornando-se bicolores ao secar; o pecíolo mede de 1 a 4 cm e o limbo, ovado-elíptico e ondulado, varia de 7 a 25 cm de comprimento por 4,5 a 10,5 cm de largura, com ápice agudo, base assimétrica e margem inteira — a face superior é glabra ou quase, e a inferior é densamente coberta de pelos. A inflorescência é cimosa, de aspecto corimbiforme, sustentada por pedúnculo de 5 a 14 cm. As flores são bissexuais, de corola rotada e branca com cerca de 2 cm de diâmetro e anteras amarelas. Os frutos são globosos, amarronzados, com aproximadamente 1,2 cm, envolvidos até a metade pelo cálice e cobertos de pelos. A semente é reniforme, com testa reticulada.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa, com densidade aparente de 0,60 g/cm³, cerne e alburno indistintos de cor branco-palha-clara, textura média, grã irregular e superfície lisa, lustrosa e de brilho acentuado, sem gosto nem cheiro marcantes. A espécie serve à fabricação de papel: as fibras têm 0,80 mm de comprimento e o teor de lignina com cinza é de 25,89%. Como combustível, contudo, fornece lenha de péssima qualidade, e a madeira não tem aplicação como serrada ou roliça, sendo desprovida de valor econômico para esses fins. Seu principal valor está no campo ambiental, com utilidade na restauração de matas ciliares e na recuperação de ecossistemas degradados.
Trata-se de uma espécie pioneira, característica de formações secundárias como os capoeirões, ocorrendo com menos frequência em florestas primárias. Aparece com frequência nas bordas de mata, em indivíduos espalhados, e ganha destaque nos pinhais parcialmente devastados. No bioma Mata Atlântica, está presente na Floresta Estacional Semidecidual (formações submontana e montana de Minas Gerais, Paraná e São Paulo, com até 19 indivíduos por hectare), na Floresta Ombrófila Densa (formações submontana, montana e alto-montana do Espírito Santo, Minas Gerais, Santa Catarina e Planalto de Ibiúna, com até 144 indivíduos por hectare) e na Floresta Ombrófila Mista com araucária (formações montana e alto-montana de Minas Gerais e Paraná, com até oito indivíduos por hectare), além das zonas de contato entre Floresta Estacional Semidecidual e Floresta Ombrófila Densa em São Paulo. No bioma Cerrado, ocorre no cerradão e em ambientes ripários de Minas Gerais, bem como no contato entre Floresta Estacional Semidecidual e cerrado stricto sensu.
A floração varia conforme a região: de setembro a março em Santa Catarina, de setembro a maio no Paraná, de outubro a junho em São Paulo e em janeiro em Minas Gerais. No Paraná, os frutos amadurecem entre janeiro e março.
Espécie monóica, é polinizada sobretudo por abelhas e por diversos pequenos insetos. A dispersão das sementes é feita por animais (zoocoria), com destaque para o bugio ou guariba (Alouatta fusca) e várias espécies de morcegos.
Plantio e silvicultura
Os frutos podem ser apanhados do chão logo após a queda ou colhidos diretamente da árvore com auxílio de linhada, sacudindo-se os galhos sobre uma lona estendida no solo. Para o beneficiamento, feito no mesmo dia ou no seguinte, separam-se as sementes da polpa por maceração em peneiras, seguindo-se a imersão da massa em água corrente e a lavagem até reduzir as impurezas ao mínimo. Cada quilo reúne cerca de 240 mil sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. Vale lembrar que as sementes do fumo-bravo perdem a viabilidade com rapidez.
Recomenda-se a semeadura em sementeiras, com posterior repicagem para sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio, de 3 a 5 semanas após a germinação. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência começa de 20 a 50 dias após a semeadura, com alto poder germinativo, em torno de 80%. As mudas ficam prontas para o plantio definitivo cerca de seis meses após a semeadura.
O fumo-bravo é uma espécie heliófila, indicada para plantio a pleno sol, e tolera temperaturas baixas. Em regeneração natural, o tronco cresce reto e sem ramos laterais. Sob plantio adensado (1,5 m x 1,5 m), apresenta desrama natural; já em espaçamentos mais amplos (acima de 3 m x 3 m), tende a bifurcar-se e a desenvolver ramificação lateral pesada.
Em regeneração natural, a espécie cresce rapidamente. Há, porém, poucos registros de crescimento em plantios.
A precipitação média anual nos locais de ocorrência vai de 1.100 mm, em Minas Gerais, a 2.700 mm, em São Paulo, com chuvas bem distribuídas no Sul e no litoral paulista e regime periódico nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula no Sul, no litoral de São Paulo e na região serrana do Espírito Santo; de pequena a moderada no inverno do sul de Minas e do centro-leste paulista; e de moderada a forte no inverno do oeste mineiro. A temperatura média anual oscila entre 16,5 ºC (Curitiba) e 22,8 ºC, com média do mês mais frio de 12,2 a 18,5 ºC e do mês mais quente de 19,9 a 25,0 ºC; a mínima absoluta registrada foi de -7 ºC em Irati (PR). As geadas variam de 0 a 12 por ano em média, chegando ao máximo de 33 no Sul. Pela classificação de Köppen, a espécie abrange os tipos Af, Am, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
Ocorre espontaneamente tanto em terrenos rasos quanto profundos, sempre bem drenados e de fertilidade química variável — em geral solos pobres e ácidos, com altos teores de alumínio e pH entre 3,5 e 5,5, de textura que vai de franca a argilosa.