voltar ao catálogo
Foto de Figueira-brava

Foto: Gelio Marques (CC0 1.0) via inaturalist

Figueira-brava

Ficus enormis

Moraceae Mata AtlânticaCerradoPantanal
  • até 30 mAltura
  • Grande portePorte
FrutíferasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: figueira, figueira-das-pedras, gameleira, figueira-branca, figueira-da-pedra, figueira-do-mato, figueira-miúda, figueira-mata-pau, figueira-preta, mata-pau

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema de classificação de Cronquist, Ficus enormis pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotyledoneae), ordem Urticales e família Moraceae, no gênero Ficus. A autoria da espécie é (Martius ex Miquel) Miquel, com publicação em 1867. São reconhecidos como sinônimos botânicos Urostigma enorme, Ficus erubescens e Ficus subaporuloides. O nome do gênero, Ficus, vem do latim clássico que designava o figo de consumo comercial; já o epíteto enormis foi atribuído por Carl Friedrich Philipp von Martius ao observar exemplares de porte excepcionalmente grande em floresta nas proximidades de Aparecida (SP).

Descrição botânica

Árvore perenifólia de formas extremamente variáveis: há indivíduos que vivem sobre rochas íngremes com apenas 1,5 m de altura, frutificando normalmente, enquanto outros chegam a quase 30 m de altura e 2 m de DAP (diâmetro à altura do peito, medido a 1,30 m do solo) na fase adulta. Seu ciclo de vida é peculiar, podendo viver como epífita ou como árvore. As aves comem os frutos e depositam as sementes nas forquilhas de outras árvores; ali elas germinam e se desenvolvem como epífitas, emitindo raízes aéreas que, com o tempo, envolvem e estrangulam lentamente a árvore hospedeira. Quando as raízes alcançam o solo, enterram-se e a planta passa a crescer normalmente, formando um tronco sólido. Também pode iniciar a vida sobre troncos caídos em decomposição ou sobre pedras. O tronco é largo, ereto e com grandes sapopemas na base, com fuste de até 12 m de comprimento. A ramificação é dicotômica e a copa é ampla, de galhos largos e grossos. A casca atinge até 8 mm de espessura, com superfície externa acinzentada, lisa, fina e provida de lenticelas horizontais, revelando coloração verde quando raspada; a casca interna varia de rósea-amarelada a esbranquiçada, com textura arenosa, e exsuda látex leitoso e branco em abundância quando cortada. As folhas são elípticas, lanceoladas a oblongas, com nervação broquidódroma e 6 a 8 pares de nervuras secundárias, glabras ou pubérulas na face superior e glabras ou frequentemente pubescentes na inferior; medem de 4 a 15 cm de comprimento por 2,5 a 9 cm de largura, com pecíolo sulcado de 1,5 a 9 cm e estípulas avermelhadas de 2 a 2,5 cm protegendo o ápice vegetativo. As inflorescências são sicônios globosos, sésseis ou com pedúnculo de até 3 mm, isolados ou agrupados no ápice e ao longo dos ramos, de 5 a 15 mm de diâmetro. As flores são minúsculas, numerosas, masculinas e femininas, quase imperceptíveis. Os frutos são sicônios globosos agrupados nas pontas dos galhos, de 7 a 20 mm de diâmetro, que adquirem cor bruno-avermelhada a bruno-violácea quando maduros e contêm numerosas sementes. A semente é diminuta, com cerca de 1 mm de diâmetro.

Uso e ecologia
paisagismorecuperação de áreasmedicinalalimentíciomadeireiro
Produtos e utilizações

A madeira é leve, com densidade aparente de 0,40 g/cm³; o cerne é branco-encardido, levemente acinzentado, e o alburno é indistinto. A textura é grosseira e a grã, direita, com superfície um pouco áspera ao tato, brilho discreto e gosto e cheiro indistintos. Por essas características, tem poucas aplicações, sendo empregada em desdobro, caixotaria e painéis. Como lenha é de qualidade muito ruim, mas presta-se à produção de polpa para papel. A casca e o lenho contêm cumarina, esteroides, triterpenoides e antra-derivados. Os frutos são comestíveis. O látex tem aplicação medicinal: usado contra parasitas intestinais (Ascaris), na remoção de calos e verrugas, na cicatrização de feridas (na forma de emplastro das folhas) e no alívio da dor de dente. Ingeridas em jejum, de 10 a 20 gotas do látex eliminam vermes intestinais. Indígenas do Paraná e de Santa Catarina empregam a casca do caule e o látex das folhas no tratamento de contusões e machucados.

Aspectos ecológicos

É uma espécie de estágio secundário inicial a secundário tardio, de ampla dispersão e grande longevidade. No começo da vida, desenvolve-se sobre outras árvores ou sobre matéria orgânica. Ocupa pequenas clareiras, com menos de 60 m². Na Mata Atlântica está presente na Floresta Estacional Decidual (formação Submontana, no Rio Grande do Sul), na Floresta Estacional Semidecidual (formações Aluvial e Submontana, em Minas Gerais e São Paulo, com até dois indivíduos por hectare), na Floresta Ombrófila Mista ou de Araucária (formação Montana, no Paraná), na Floresta Ombrófila Densa (formações das Terras Baixas, Submontana e Montana, com até 21 indivíduos por hectare) e na vegetação de restinga, no Rio Grande do Sul. No Cerrado aparece ocasionalmente na Savana Florestada (Cerradão), em São Paulo e Minas Gerais; no Pantanal, ocorre em Mato Grosso do Sul. Também é encontrada em florestas de brejo em São Paulo.

Floração e frutificação

A floração vai de janeiro a abril em São Paulo, de agosto a setembro em Minas Gerais e de outubro a dezembro no Paraná. Os frutos amadurecem de dezembro a janeiro em Minas Gerais e de fevereiro a julho no Paraná.

Fauna associada

A espécie é monóica e a polinização é feita essencialmente por vespas: uma pequena vespa poliniza ao depositar seus ovos no interior das flores. Boa parte dos figos, com suas sementes, é consumida pela avifauna (tucanos, sabiás, bem-te-vis, maritacas e periquitos), por morcegos (Artibeus lituratus), por símios (macacos-prego) e por outros mamíferos como tatus, gambás e ouriços; depois de excretadas, as sementes são espalhadas amplamente. Os galhos quase sempre horizontais, o tronco retorcido e as raízes tabulares servem de abrigo e local de nidificação para aves, répteis e mamíferos, o que reforça o papel da figueira nos ecossistemas florestais.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os figos devem ser colhidos diretamente da árvore quando começam a cair espontaneamente, ou recolhidos do chão sob a planta-mãe logo após a queda. Como as sementes são pequenas demais para serem separadas, recomenda-se acondicionar os frutos amontoados em saco plástico por alguns dias, até a decomposição parcial, e em seguida macerá-los manualmente com água até obter uma suspensão aquosa. Cada quilo reúne cerca de 5 milhões de sementes. Não há necessidade de tratamento pré-germinativo. Para conservação, recomenda-se guardar as sementes em saco plástico, em câmara fria (18 ºC e 60 % de umidade relativa), por até 12 meses.

Produção de mudas

A produção de mudas a partir de sementes costuma fracassar, seja pela falta de sementes viáveis nos frutos, seja pela dificuldade de manusear sementes tão pequenas. A germinação é epígea ou fanerocotiledonar, com emergência entre 10 e 35 dias após a semeadura e taxa de germinação geralmente baixa. Já a propagação vegetativa é promissora: as espécies de Ficus enraízam com facilidade por estacas de caule. Estudos indicam que, para a figueira-brava, o melhor enraizamento ocorre em substrato de vermiculita e areia (1:1), independentemente da concentração de AIB; sem AIB, o enraizamento médio foi de 73,75 %, caindo para 61,25 % com 5.000 ppm de AIB. As estacas permanecem cerca de 7 meses no viveiro.

Características silviculturais

Espécie esciófila, tolera moderadamente baixas temperaturas quando jovem. Apresenta grande plasticidade de forma, indo de touceiras a crescimento monopodial. É recomendada para plantio misto, a pleno sol. Eventualmente é cultivada pela sombra que oferece e, no Paraguai, empregada em cercas-vivas.

Crescimento e produção

Há poucos dados disponíveis sobre o crescimento da figueira-brava em plantios.

Clima

A precipitação média anual varia de 1.100 mm, em Mato Grosso do Sul e no sul do Rio Grande do Sul, a 3.380 mm, na Serra de Paranapiacaba (SP). As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul (exceto no norte do Paraná) e no litoral paulista, e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula na Região Sul (salvo norte do Paraná) e no litoral de São Paulo, pequena no verão do sul gaúcho, moderada no inverno do oeste paulista, norte do Paraná e sul de Mato Grosso do Sul, e de moderada a forte no inverno do oeste mineiro e noroeste sul-mato-grossense. A temperatura média anual fica entre 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) e 25 ºC (Corumbá, MS), com mínima absoluta de até -8,4 ºC (Castro, PR) e ocorrência de 0 a 30 geadas por ano em média, podendo chegar a 81 no Planalto Sul-Brasileiro e em Campos do Jordão. Segundo Köppen, abrange os tipos Am, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.

Solos

A figueira-brava ocorre naturalmente nos mais variados tipos de solo.