Fava-barriguda
Parkia gigantocarpa
- até 40 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: japacanim, fava-atanã, fava-bolota-fruto-gigante, fava-rabo-de-arara, faveira-atanã, fava-arara-tucupi, fava-bolota, fava-grande, faveira-grande, visgueiro, paricá
Botânica
Pertencente à família Fabaceae (antigamente Leguminosae) e à subfamília Mimosoideae, a fava-barriguda integra o gênero Parkia, seção Polyphosphaera, e foi descrita por Ducke. O nome do gênero é uma homenagem ao explorador escocês Mungo Park, enquanto o epíteto gigantocarpa faz referência ao tamanho excepcional do fruto, que chega a medir de 50 cm a 80 cm. Já a denominação popular fava-barriguda alude ao tronco que se alarga acima das sapopemas, lembrando uma barriga.
Espécie arbórea perenifólia (sempre-verde), de troca foliar gradual, considerada a maior representante do gênero: os exemplares de maior porte alcançam cerca de 40 m de altura e 150 cm de diâmetro à altura do peito quando adultos. O tronco é reto, mais avantajado na porção central — com formato que lembra um foguete — e na base apresenta sapopemas baixas e tabulares que, nas árvores mais altas, podem chegar a 4 m. A casca externa, com até 10 mm de espessura, é marrom-avermelhada e de aspecto rugoso por causa das lenticelas grandes e salientes; nos indivíduos mais velhos ela se desprende em fragmentos circulares de aproximadamente 2 cm. A casca interna varia do laranja-avermelhado ao vermelho ao oxidar, e a seiva, inicialmente transparente e cor de mel, escurece com o tempo. A copa é arredondada, com folhagem esbranquiçada visível à distância, e a ramificação é dicotômica. As folhas são compostas e bipinadas, as maiores do gênero, medindo de 27 cm a 100 cm de comprimento por 67 cm a 72 cm de largura, com 4 a 6 pares de pinas (cada uma de 33 cm a 35 cm por 8 cm a 10 cm); a ráquis e o ápice das pinas possuem glândulas que atraem formigas protetoras contra herbívoros. Nos adultos, os folíolos são bicolores — branco-acinzentados por baixo e verdes por cima —, membranáceos e assimétricos; nos jovens, são verdes nas duas faces. As inflorescências surgem em capítulos oblongos sustentados por longos pendões que, com o peso (podem passar de 70 cm), tornam-se pendentes; cada capítulo floresce em uma única noite, abrindo ao entardecer e liberando néctar durante a madrugada. As flores são hermafroditas, fétidas, com cálice gamossépalo carnoso de cerca de 14 mm e corola gamopétala de cerca de 20 mm. O fruto é uma vagem larga, lenhosa, achatada e levemente recurvada, com abertura difícil — só libera as sementes quando o exocarpo apodrece —, medindo de 21 cm a 90 cm de comprimento por 4,5 cm a 6 cm de largura e contendo de 9 a 19 sementes. As sementes são negras, de 18 mm a 25 mm por 10 mm a 13 mm, revestidas por uma goma alaranjada e pegajosa.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,65 g/cm³ a 0,75 g/cm³ a 12% de umidade; massa específica básica de 0,26 g/cm³). O cerne é avermelhado e o alburno creme-brilhante com manchas acinzentadas características, embora em árvores plantadas aos 11 anos cerne e alburno fiquem indistintos e amarelados. A grã é reversa com leve tendência à direita, a textura é média a grosseira, o brilho moderado e o cheiro imperceptível; é uma madeira macia ao corte e de boa trabalhabilidade. É indicada sobretudo para caixotaria, brinquedos, construção em geral, assoalhos, marcenaria, tabuados, laminados, compensados e móveis populares, além de apresentar boas qualidades para produção de celulose. Como lenha, porém, tem péssimo desempenho energético. As flores fornecem néctar, com interesse apícola. Quanto às sementes, contêm 9,8% de óleo, 15,7% de proteínas, 10,8% de fibras e 74,1% de carboidratos totais; a proteína tem alto teor de triptofano e merece estudos mais aprofundados, mas o baixo teor de óleo não classifica a espécie como oleaginosa.
Trata-se de uma espécie intolerante à sombra (heliófila). Em geral é rara, ocupando o dossel superior ou a posição de emergente tanto em florestas primárias quanto secundárias. No bioma Amazônia, está presente na Floresta Ombrófila Densa (Floresta de Terra Firme) das Terras Baixas, no Amapá e no Pará, com frequência de cerca de um indivíduo por hectare, e também em mata de várzea alta. Aparece ainda em ambientes fluviais ou ripários (mata ciliar) no Amazonas e no Pará.
No Pará, a floração vai de outubro a dezembro. Os frutos amadurecem em junho no Pará e entre julho e agosto no Mato Grosso.
A polinização é feita por morcegos, principalmente das espécies Phyllostomus discolor e P. hastatus, como ocorre na maioria das Parkia. Em visitas rápidas, o morcego pousa de cabeça para baixo no capítulo, agarra-se às flores estéreis (a 'franja') e lambe o néctar das flores nectaríferas; nesse movimento, asas e ventre tocam anteras e estigmas, transportando pólen entre árvores e promovendo a polinização cruzada. A dispersão das sementes provavelmente é feita por macacos ou grandes psitacídeos, que rompem a parede do fruto. Há ainda dispersão autocórica e barocórica e, durante as cheias, hidrocórica, quando os frutos são levados pela água.
Plantio e silvicultura
As vagens devem ser colhidas diretamente da árvore assim que começam a cair naturalmente, ou recolhidas do chão após a queda; em seguida são expostas ao sol para secar, facilitando a abertura manual e a retirada das sementes. Há cerca de 4 mil sementes por quilo. A germinação é naturalmente difícil, sendo indispensável escarificar as sementes e, depois, imergi-las em água por 24 a 72 horas, o que faz formar uma espessa camada de mucilagem na superfície que protege o embrião e garante o suprimento inicial de água. As sementes têm comportamento fisiológico ortodoxo e, armazenadas em condições de sala, mantêm a viabilidade por mais de um ano.
Recomenda-se semear em sementeiras e, de 2 a 3 semanas após a germinação, repicar as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio. A germinação é fanerocotiledonar e epígea: ao germinar, a plântula forma uma curvatura acentuada e, ao se libertar dos cotilédones (medindo então de 10 cm a 15 cm), já exibe a primeira folha embrionária com a estrutura das folhas definitivas. A emergência começa de 3 a 10 dias após a semeadura e, em viveiro, o poder germinativo costuma ser alto, em torno de 80%. A espécie não estabelece associação simbiótica com Rhizobium.
As árvores têm dominância apical bem definida e fuste quase reto, com leve tendência à sinuosidade. A espécie é indicada para plantios puros ou mistos, a pleno sol ou sob sombra seletiva. Apresenta boa derrama natural e crescimento relativamente uniforme, com quase todos os indivíduos alcançando o topo do maciço; o fechamento do maciço é lento no início, mas aos 3 anos já se encontra praticamente completo.
No norte do Mato Grosso, a espécie mostra excelente desempenho silvicultural, com crescimento rápido e produção volumétrica que pode chegar a 25 m³/ha/ano aos 11 anos de idade.
A precipitação média anual varia de 1.900 mm a 2.900 mm no Pará, com chuvas uniformes nos arredores de Belém e periódicas no restante da área. A deficiência hídrica é nula em Belém e de pequena a moderada no Pará, Amapá, Amazonas e Rondônia. A temperatura média anual fica entre 25,2 ºC (Porto Velho, RO) e 26,6 ºC (Óbidos, PA); a do mês mais frio entre 23,5 ºC e 25,8 ºC, e a do mês mais quente entre 25,8 ºC e 27,9 ºC. A mínima absoluta registrada foi de 10 ºC, em Porto Velho, em junho de 1985. Não há ocorrência de geadas em toda a área de distribuição natural. Pela classificação de Köppen, o clima é Af (tropical úmido a superúmido) em torno de Belém e Am (tropical úmido a subúmido) no Amapá, Amazonas, parte do Pará e Rondônia.
Cresce naturalmente em terrenos de fertilidade média, com solos de textura variando de arenosa a argilosa.