Farinha-seca
Albizia polycephala
- até 25 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: coração-de-boi, fava-amarela, canzenze, monzê, amargoso, camunzé, faveira, manjolo, monjolo, canafístula, angico-branco, camondongo, monjolo-alho
Botânica
Pela classificação de Cronquist, a farinha-seca pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas) e ordem Fabales, dentro da família Mimosaceae (Leguminosae, subfamília Mimosoideae). A espécie é descrita como Albizia polycephala (Bentham) Killip ex Record, publicada em Trop. Woods 63: 6, em 1940. Entre seus sinônimos botânicos figuram Pithecollobium polycephalum Bentham, Feuilleea terminalis O. Kuntze e Samanea polycephala (Bentham) Pittier. O nome do gênero homenageia Filipe de Albizzi, nobre florentino do século 13, em cujo jardim foi descrita a primeira espécie do grupo, originária de bosques ao sul do Mar Cáspio, no Irã. Já o epíteto polycephala deriva do grego polys (muito) e kephalé (cabeça), referência aos racemos com muitas flores.
Árvore decídua que, na fase adulta, alcança cerca de 25 m de altura e 60 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo). O tronco é reto, com fuste de até 10 m de comprimento, e a ramificação é racemosa, com ramos terminais cilíndricos, de coloração ferrugínea-puberulenta a glabrescente e sem espinhos. A casca chega a 10 mm de espessura, sendo a parte externa cinza-clara e marcada por discretas cicatrizes transversais. As folhas são bipinadas e alternas, reunindo de 7 a 15 pares de pinas opostas, cada uma com 15 a 30 pares de folíolos. O pecíolo tem de 3 a 7 cm, é cilíndrico e canaliculado, com uma glândula ovalada perto do pulvínulo; a raque varia de 7 a 35 cm, também canaliculada, com glândulas ovaladas entre os pares de folíolos mais distais. Cada folíolo mede de 5 a 15 mm de comprimento por 2 a 5 mm de largura, é séssil, cartáceo, oposto e falcado, com ápice agudo e mucronulado, base obtusa, margens revolutas, face superior glabra e a inferior glabrescente. As inflorescências são capitadas, formando capítulos heteromórficos, isolados ou agrupados em racemos de 6 a 18 cm. As flores são sésseis, com cálice laciniado e ferrugíneo-puberulento e corola ferrugíneo-híspida. Os frutos são legumes lineares a oblongos, de 10 a 15 cm por 2 a 2,5 cm, comprimidos, sésseis, com valvas deiscentes glabras e ásperas, ápice e base obtusos, margens espessadas e muitas sementes. A semente é pequena, ovalada, de cor castanha, com cerca de 5 mm de comprimento.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,64 g/cm³), com cerne de tom branco-amarelado, pouco porosa, macia, de resistência mediana e baixa durabilidade natural. É indicada para obras internas, carpintaria, vigas, ripas, tabuado, assoalho e construção de canoas, tanto na forma serrada quanto roliça. A lenha tem boa qualidade para uso energético, e a espécie também se mostra adequada à produção de celulose e papel, com teor de lignina com cinza de 24,27%. No paisagismo, é bastante ornamental, com copa de forma delicada que oferece boa sombra, sendo excelente para arborização de ruas e praças. Também é recomendada para plantios heterogêneos voltados à recuperação de áreas degradadas de preservação permanente.
Trata-se de uma espécie pioneira, secundária inicial ou clímax exigente em luz. Aparece tanto no interior de florestas primárias quanto em formações secundárias, como capoeiras e capoeirões. Sua distribuição é descontínua e, em parte da área de ocorrência, pouco expressiva. Está presente na Floresta Estacional Semidecidual, nas formações submontana e montana de Minas Gerais e São Paulo, com 2 a 30 indivíduos adultos por hectare (ou até 1.900 indivíduos jovens com mais de 0,20 cm de altura); na Floresta Ombrófila Densa das terras baixas, submontana e montana de Alagoas, Ceará, Espírito Santo, Pernambuco e Rio de Janeiro, com 2 a 28 indivíduos por hectare; e na Floresta Ombrófila Mista (Floresta de Araucária), na formação montana do Paraná. Ocorre ainda em ambientes ripários do Distrito Federal e de Minas Gerais e em brejos de altitude do Ceará, da Paraíba e de Pernambuco.
A floração ocorre em outubro, no Paraná, e de dezembro a janeiro, em Santa Catarina. Os frutos amadurecem entre maio e junho, no Paraná.
A espécie é monóica, e a polinização é feita principalmente por abelhas, com destaque para a Apis mellifera. A dispersão das sementes é autocórica, do tipo barocórica, ou seja, por ação da gravidade.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começarem a abrir espontaneamente; em seguida, são levados ao sol para concluir a abertura e liberar as sementes. Cada quilo reúne de 25.600 a 27.000 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. O comportamento no armazenamento é ortodoxo: sementes com 59% de germinação inicial, depois de secas e guardadas a 5 ºC e a -18 ºC, mantiveram 58% e 57% de germinação, respectivamente.
A semeadura pode ser feita diretamente nos recipientes, colocando-se duas sementes por unidade. Para sacos de polietileno, recomenda-se dimensões mínimas de 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro. Quando necessária, a repicagem deve acontecer de 3 a 5 semanas após a germinação, ou quando a muda alcançar de 4 a 5 cm de altura. A germinação é epígea ou fanerocotiledonar, com emergência entre 10 e 30 dias após a semeadura e taxa de 59% a 94%. As mudas ficam aptas ao plantio em campo cerca de 5 meses depois da semeadura. A espécie forma associação simbiótica com bactérias do gênero Rhizobium, gerando nódulos abundantes.
A farinha-seca é uma espécie heliófila que suporta baixas temperaturas. Seu hábito é variável e em geral irregular, com perda de dominância apical, bifurcação desde a base ou formação de galhos grossos, embora a forma monopódica também apareça; há desrama natural. Pode ser cultivada a pleno sol, em plantios puros ou mistos, e rebrota da touça ou cepa. Em sistemas agroflorestais, é mantida no sistema de cabruca (mata atlântica raleada sob plantação de cacau) no sul da Bahia e bastante empregada no sombreamento de cafezais do agreste e das serras de Pernambuco.
Há poucos registros de crescimento da espécie em plantios. Ainda assim, sabe-se que o desenvolvimento é lento, podendo alcançar uma produção volumétrica estimada de até 0,62 m³ por hectare ao ano aos 8 anos de idade.
A precipitação média anual varia de 1.000 mm, no Ceará, a 2.200 mm, na Paraíba. As chuvas são uniformes na Região Sul (exceto no norte do Paraná) e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Sul (salvo no norte do Paraná), de pequena a moderada na faixa costeira de Paraíba e Pernambuco e no Acre, de pequena a moderada no inverno do sul de Minas Gerais, sul de Goiás e Distrito Federal, moderada no inverno do Espírito Santo e nordeste do Rio de Janeiro, e de moderada a forte no Ceará e no interior de Pernambuco. A temperatura média anual fica entre 16,6 ºC (Guarapuava, PR) e 26,1 ºC (João Pessoa, PB); a média do mês mais frio varia de 12,6 ºC (Guarapuava, PR) a 23,8 ºC (Barbalha, CE) e a do mês mais quente, de 20,3 ºC (Guarapuava, PR) a 28,2 ºC (João Pessoa, PB). A mínima absoluta registrada foi de -8,4 ºC em Guarapuava (PR), podendo chegar a -12 ºC na relva. O número de geadas vai de 0 a 13 em média, com máximo absoluto de 27 no Paraná. Pela classificação de Köppen, a espécie ocorre nos climas Af, Am, As, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
A farinha-seca se adapta a diferentes tipos de solo, mas não tolera terrenos mal drenados nem hidromórficos.