Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Falsa-pelada
Alseis floribunda
- até 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: goiabeira, goiabeira-branca, guabiraba-preta, branquinho, quina, alma-de-serra, armação-de-serra, quina-de-são-paulo, tarumã, canela-de-veado
Botânica
Pertencente à família Rubiaceae (subfamília Cinchonoideae) e à ordem Gentianales segundo o sistema APG II (classificada como Rubiales em Cronquist), a espécie foi descrita por Schott e publicada em 1827. São reconhecidas como sinônimos as variedades burchelliana, selloana e tomentosa, todas atribuídas a K. Schumann. Quanto à etimologia, o nome do gênero Alseis deriva do grego álsos, que remete a "bosquezinho" ou "arvoredo" em referência ao seu ambiente natural, ou ainda às ninfas Alsonides da floresta sagrada; já o epíteto floribunda, do latim, alude à abundância de suas flores.
Trata-se de uma árvore perenifólia (sempre-verde), com troca gradual de folhas, cujos exemplares adultos de maior porte chegam a cerca de 20 m de altura e 60 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). O tronco é reto, praticamente cilíndrico e poucas vezes tortuoso, com fuste em geral curto, de no máximo 5 m. A ramificação é cimosa e forma uma copa ovalada, densa e bastante característica; os ramos jovens são cilíndrico-subtetragonais nos nós, comprimidos na região infraestipular e cobertos de pelos ferrugíneos. A casca atinge até 5 mm de espessura, sendo a externa (ritidoma) cinza-clara, lisa, marcada por rugas finas e longitudinais e descamando em placas delgadas. As folhas são simples, opostas, de consistência cartácea e formato variável (estreito-elíptico, ovado-oblongo ou arredondado-rômbico), simétricas, com 7 a 12 cm de comprimento por 3 a 5 cm de largura, ápice acuminado e base atenuada; o pecíolo, verde-amarelado e piloso nas duas faces, mede de 4 a 12 mm. As inflorescências surgem em racemos terminais ou axilares, densos, espigados e cobertos de pelos ferrugíneos, com 7 a 15 cm de comprimento sobre pedúnculo de 3 a 5 cm. As flores são sésseis, esverdeadas e perfumadas, com corola largamente infundibuliforme a subcampanulada de cerca de 2 mm. O fruto é uma cápsula deiscente, glabra ou pilosa, que abriga numerosas sementes alongadas e diminutas.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa a densa (0,64 a 0,85 g/cm³), com alburno branco, textura fina e uniforme e grã direita; é macia, fácil de trabalhar e medianamente resistente, embora apodreça quando exposta ao tempo. Por ser de uso local, presta-se a marcenaria, fabricação de armações de serra, cabos de ferramentas, picaretas, pás, caixotaria e obras internas, além de gerar lenha de qualidade razoável. A espécie também é recomendada para a produção de papel, com fibras longas (0,94 mm) e teor de lignina com cinza de 29,26%. Tem ainda valor apícola, pois oferece néctar e pólen, e ornamental, graças à beleza de sua copa, sendo apropriada para paisagismo e para a composição de plantios mistos voltados à recuperação de áreas degradadas.
Classificada como espécie pioneira, a falsa-pelada é típica e exclusiva da Floresta Pluvial Atlântica e de sua transição rumo ao Planalto Sul-Brasileiro, onde aparece de forma ocasional e com dispersão ampla, porém descontínua. Desenvolve-se de preferência no interior das matas primárias, sendo rara em capoeiras, capoeirões ou florestas já alteradas. É registrada em diferentes formações: matas de cipó da Amazônia (Maranhão); vegetação caducifólia espinhosa arbórea da Caatinga (Pernambuco, com até três indivíduos por hectare); Floresta Estacional Semidecidual da Mata Atlântica, nas formações de terras baixas (Pernambuco, com até 29 indivíduos por hectare) e montana (Minas Gerais, Paraná e São Paulo); e Floresta Ombrófila Densa, nas formações de terras baixas (Sergipe), submontana (Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina, onde é rara) e montana (Rio de Janeiro e São Paulo). Também ocorre em ambientes ripários, como matas ciliares do Paraná, onde chega a 37 indivíduos por hectare, e em áreas alagáveis em Londrina (PR).
A floração varia conforme a região: de julho a agosto na Bahia, de julho a fevereiro em Santa Catarina, em outubro no Paraná e em São Paulo, e de outubro a dezembro no Maranhão. Os frutos amadurecem em março em São Paulo, de março a setembro no Paraná e em julho no Maranhão.
Espécie hermafrodita, é polinizada por abelhas (melitofilia) e borboletas (psicofilia). A dispersão dos frutos e sementes ocorre tanto pelo vento (anemocoria) quanto por animais (zoocoria).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que ganharem tom de palha e começarem a se abrir naturalmente; em seguida, são levados ao sol para completar a abertura e liberar as sementes. Cada quilo reúne cerca de 3 milhões de sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. Por terem comportamento fisiológico recalcitrante, perdem rapidamente a capacidade de germinar.
Recomenda-se semear em sementeiras e, depois, repicar as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou para tubetes pequenos de polipropileno, operação que pode ser feita de 3 a 5 semanas após a germinação. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 25 e 45 dias após a semeadura e poder germinativo bastante variável e irregular (até 50%). As mudas ficam aptas ao plantio cerca de 5 meses após a semeadura.
A espécie é heliófila a esciófila e tolera moderadamente o frio. Seu hábito é variável e em geral irregular, com perda da dominância apical, bifurcação desde a base ou formação de galhos grossos, ainda que a forma monopódica também ocorra; por isso, recomenda-se poda corretiva e desramas periódicas para elevar a altura comercial. Rebrota com facilidade da touça ou cepa após corte ou queima. É indicada para plantio misto ou em capoeira, com abertura de faixas na vegetação existente e plantio em linhas. No sul da Bahia, integra o sistema de cabruca em sistemas agroflorestais.
Existem poucas informações sobre o desempenho da espécie em plantios.
A precipitação anual média vai de 600 mm, em Pernambuco, a 2.700 mm, em São Paulo, com chuvas bem distribuídas do leste de Santa Catarina ao litoral sul do Rio de Janeiro e regime periódico nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula nessa faixa litorânea, pequena a moderada no inverno em parte do Paraná e de Minas Gerais, e forte a muito forte no Planalto de Conquista (BA). A temperatura média anual oscila entre 18,3 ºC (Telêmaco Borba, PR) e 24,3 ºC (Ilhéus, BA), com mínima absoluta registrada de -5,5 ºC, em Rio do Sul (SC). As geadas vão de ausentes a um máximo absoluto de 18 ocorrências no Paraná, predominando porém condições sem geada ou com geadas raras. Pela classificação de Köppen, abrange os tipos Af, Am, As, Aw, BSh, Cfa e Cwa.
Cresce naturalmente em solos úmidos de várzeas, planícies e encostas pouco íngremes, de textura argilosa e boa drenagem.