Foto: E. Goossen (CC0 1.0) via inaturalist
Espinheira-santa
Maytenus ilicifolia
- até 12 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: bom-nome, limãozinho, cancorosa, cancrosa, erva-cancrosa, erva-santa, espinheira, sombra-de-touro, cancerosa, congorça, coromilho-do-campo, erva-cancerosa, espinheira-de-deus, espinheira-divina, espinho-de-deus, quebrachilho, salva-vidas
Botânica
Pertencente à família Celastraceae, a espinheira-santa foi descrita como Maytenus ilicifolia Martius ex Reissek, com publicação em Martius, Fl. Bras. 11(1): 8, de 1861. Pelo sistema de Cronquist, enquadra-se na divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Celastrales. Entre seus sinônimos botânicos figuram Maytenus ilicifolia f. angistior Briquet, Celastrus spinifolium Larrañaga e Maytenus muelleri Schwacke. O nome do gênero deriva de "maitén", palavra dos mapuches do Chile que designa uma celastrácea arbórea local (Maytenus boaria); o epíteto ilicifolia faz alusão à semelhança das folhas com as do gênero Ilex. Já o nome popular espinheira-santa une duas referências: os espinhos da margem serreada das folhas e a fama terapêutica da planta no tratamento de úlceras estomacais.
Espécie perenifólia que pode se apresentar como subarbusto, arvoreta ou árvore, alcançando, nos exemplares maiores e já adultos, cerca de 12 m de altura e 35 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). O tronco é liso e de fuste curto, com casca de até 5 mm de espessura cuja porção externa exibe estrias longitudinais. A ramificação é dicotômica, formando copa de galhos angulosos, estriados e glabros. As folhas são alternas, simples, glabras e coriáceas, com nervuras salientes na face inferior; medem de 22 a 89 mm de comprimento por 11 a 30 mm de largura, sustentadas por pecíolo de 2 a 5 mm. A lâmina varia de elíptica a estreitamente elíptica, com base aguda a obtusa e ápice agudo a obtuso, podendo ser mucronado ou aristado; a margem pode ser inteira ou apresentar espinhos em número variável, distribuídos de forma regular ou irregular e geralmente concentrados na metade apical de uma ou de ambas as bordas. As inflorescências formam fascículos axilares com 2 a 3 flores. As flores são pequenas, de pétalas oblongas verde-amareladas e pedicelos curtos e finos, de 1 a 2 mm. O fruto é uma cápsula loculicida bivalvar, orbicular e de cor vermelho-alaranjada, com 6 a 10 mm de comprimento, estilete no ápice e de 1 a 4 sementes. As sementes são eretas, suborbiculares, elipsoides ou obovais (às vezes angulosas), totalmente envoltas por um arilo carnoso branco; a testa é rígida, lisa e brilhante, em geral castanha ou negra.
Uso e ecologia
O principal valor da espinheira-santa está em suas folhas, de longa tradição medicinal. Em 1922, o professor Aluízio Franca, da Faculdade de Medicina do Paraná, divulgou no meio médico os bons resultados da planta no tratamento da úlcera gástrica, embora seu uso popular já fosse muito anterior. Indígenas de várias etnias do Paraná e de Santa Catarina empregavam folhas, casca do caule e raiz contra problemas do trato urinário, câncer de pele, distúrbios menstruais (amenorreia e dismenorreia) e diarreia, além de usá-las na lavagem de ferimentos e ulcerações, aproveitando suas propriedades cicatrizantes e anti-inflamatórias. No Paraguai a planta era usada como anticoncepcional, e na Argentina, como antiasmática e antisséptica. No Rio Grande do Sul costuma-se adicioná-la ao chimarrão para aliviar gastrite, azia e úlceras. A ação antiúlcera, ligada sobretudo aos taninos, foi comprovada por Carlini, que a comparou ao medicamento cimetidina. À planta atribuem-se ainda efeitos tonificante, cicatrizante, antisséptico, carminativo, levemente diurético e laxativo. Entre seus constituintes fitoquímicos destacam-se terpenos (como a maitansina), taninos, flavonoides, mucilagens, antocianos e açúcares. Para uso fitoterápico, recomenda-se a infusão de 20 g de folhas em 1 litro de água, de 3 a 4 xícaras ao dia, ou o pó (400 mg, de 1 a 2 vezes ao dia). A madeira é moderadamente densa (0,70 g/cm³ a 15% de umidade), de alburno e cerne pouco diferenciados e tom esbranquiçado, com resistência mecânica média, baixa durabilidade, textura média e grã revessa; pelas pequenas dimensões disponíveis tem pouco valor comercial e serve apenas a lenha e carvão, sendo inadequada para celulose e papel.
Classificada como espécie secundária inicial a secundária tardia, é característica e abundante nos capões do Planalto Sul-Brasileiro, onde cresce no interior da floresta, mas também aparece em capoeiras com incidência moderada de luz. No bioma Mata Atlântica ocorre na Floresta Estacional Decidual (formações submontana e montana, em Goiás e no Rio Grande do Sul, com até 13 indivíduos por hectare), na Floresta Estacional Semidecidual (Minas Gerais, Paraná e São Paulo, com cerca de 1 indivíduo por hectare), na Floresta Ombrófila Densa (Minas Gerais, Rio de Janeiro e Ilha de Santa Catarina, onde é rara) e na Floresta Ombrófila Mista ou de Araucária (Paraná e Rio Grande do Sul, com 2 a 7 indivíduos por hectare), além da restinga gaúcha. No bioma Pampa, surge em estepes e campos do Rio Grande do Sul. Aparece ainda em ambientes fluviais e ripários de Minas Gerais e do Paraná.
A floração vai de agosto a setembro no Rio Grande do Sul e de agosto a outubro em Mato Grosso do Sul e no Paraná. Os frutos amadurecem de setembro a março em São Paulo, de outubro a fevereiro no Rio Grande do Sul e de dezembro a março no Paraná.
As flores aparentam ser monóclinas, mas há fortes indícios de que muitas sejam funcionalmente diclínicas; a espécie é alógama. A polinização cabe a abelhas e a diversos insetos pequenos, tendo-se observado também pequenas vespas não identificadas e formigas, que tanto podem polinizar quanto apenas pilhar néctar. A dispersão de frutos e sementes é zoocórica, feita principalmente por aves.
Plantio e silvicultura
Os frutos são colhidos da árvore quando maduros, fase reconhecida pelas valvas abertas, pericarpo vermelho-escuro e arilo exposto. Em seguida devem ficar à sombra até completarem a abertura e liberarem as sementes, das quais o arilo é então removido manualmente. Cada quilo reúne de 10.090 sementes (a 44% de umidade) a 36.496 (a 6% de umidade). Não é preciso tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento ortodoxo, mas perdem a viabilidade rapidamente fora da câmara fria: após 120 dias, o poder germinativo foi de 85% em câmara fria (5 ºC e 85% de UR), 66% em câmara seca (15 ºC e 45% de UR) e apenas 28% em ambiente de laboratório.
A semeadura é recomendada em sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de 120 cm³, com repicagem, quando necessária, ao surgirem 4 a 5 folhas nas plântulas. A germinação é epígea ou fanerocotiledonar: as sementes escuras germinam a 82% e as enrugadas a 63%, enquanto as claras não germinam; semeadas logo após a coleta e a retirada do arilo, atingem 70% a 80% de germinação. As mudas chegam a 25 cm de altura cerca de 9 meses após a semeadura. Também é possível a propagação vegetativa por segmentos nodais e apicais de plantas jovens, com bons resultados no enraizamento e na cultura de tecidos a partir de folhas e caules. Quanto à adubação, recomenda-se adubo orgânico (25% do volume de solo) ou químico (4 kg/m³ de NPK 4:14:8); em tubete, aplicam-se 150 g de adubo de liberação lenta por saco de 25 kg de substrato.
Espécie que se desenvolve tanto a pleno sol quanto sob cobertura, ocupando a terceira e a quarta fases da sucessão e tolerando baixas temperaturas. Não possui dominância apical definida e ramifica desde a base, com desrama natural fraca, o que exige podas frequentes de condução e de galhos. Recomenda-se o plantio consorciado, como o caso bem-sucedido em São Paulo com embaúba (Cecropia glaziovii), em que as plantas, mesmo intercaladas com embaúbas jovens, recebem radiação próxima à de pleno sol; há também recomendação de plantio em linha em floresta secundária no estágio de capoeirão. A forte demanda por suas folhas tem levado a colheitas drásticas e empíricas que, somadas à recuperação lenta da planta, ameaçam a espécie. Ela é considerada vulnerável no Rio Grande do Sul, pressionada pelo extrativismo descontrolado, e consta como rara na lista vermelha de plantas ameaçadas do Paraná, o que torna necessários programas de manejo e conservação. Estudos de populações naturais indicam que a maior parte da variação genética se concentra dentro das próprias populações.
O crescimento é lento, mas o objetivo central do cultivo é a produção de folhas. Em Campinas (SP), no espaçamento de 3 x 1 m, árvores de 4 anos renderam o equivalente a 670 kg de folhas secas por hectare por ano, com a colheita de cerca de um terço das folhas no início da primavera.
A precipitação anual média varia de 1.100 mm (Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro) a 2.300 mm (Paraná). As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul, com exceção do norte do Paraná, e periódicas nas demais áreas; a deficiência hídrica é nula no Sul (salvo no norte do Paraná) e de pequena a moderada em outras regiões. A temperatura média anual fica entre 13,2 ºC (São Joaquim, SC) e 25 ºC (Corumbá, MS), com mínima absoluta de -10,4 ºC em Caçador (SC), podendo chegar a -17 ºC na relva. As geadas vão de 0 a 30 por ano em média, com máximo absoluto de 57 no Sul, região onde também pode nevar — em São Joaquim (SC), quase todos os anos. Na classificação de Köppen, ocorre nos tipos Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
Na natureza, predomina em várzeas aluviais e margens de córregos, sobre solos argilosos profundos de drenagem lenta. Em plantios, cresce melhor em solos férteis, bem drenados e de textura argilosa. Em Colombo (PR), apresentou crescimento lento em Cambissolo Húmico Álico de textura argilosa e baixa fertilidade química.