Foto: Bruno Luka de Souza Bambirra Silveira (CC BY) via GBIF
Erva-mate
Ilex paraguariensis
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: caá, caáguaçu, carvalho-branco, caúna, congoín, congonha, erva-congonha, erveira, pau-de-erva, congonha-grande, congonheira, congonhinha, erva, erva-piriquita, erva-mate-peluda, erva-mate-de-talo-branco, erva-mate-do-talo-roxo, erva-verdadeira, mate, orelha-de-burro
Botânica
Segundo o sistema de classificação de Cronquist, a erva-mate pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae) e ordem Celastrales, dentro da família Aquifoliaceae. A espécie foi descrita por Saint-Hilaire em 1822 (Mém. Mus. d'Hist. Nat. Paris). São registrados como sinônimos botânicos os nomes Ilex domestica Reissek e Ilex mate Saint-Hilaire. O termo Ilex era a designação antiga da azinheira (Quercus ilex), usada por autores clássicos como Horácio e Plínio. Já o epíteto paraguariensis remete a 'erva-do-paraguai', nome pelo qual a planta era conhecida quando Saint-Hilaire coletou o exemplar-tipo em Curitiba, em 1820. A palavra 'mate' deriva do quíchua mati, que designa a cuia usada para tomar a infusão.
A erva-mate é uma planta perenifólia que vai de arvoreta a árvore: cultivada, costuma medir de 3 a 5 m, mas em mata pode alcançar 30 m de altura e 100 cm de DAP na fase adulta. O tronco é cilíndrico, reto ou ligeiramente tortuoso, com fuste em geral curto que na floresta chega a 11 m. A ramificação é racemosa e quase horizontal, formando copa baixa e densa, de folhagem verde-escura bastante característica. A casca atinge até 20 mm de espessura; a externa é cinza-clara a acastanhada, persistente, áspera e com muitas lenticelas, enquanto a interna tem textura arenosa e cor branco-amarelada que escurece rápido ao ser cortada. As folhas são simples, alternas, subcoriáceas a coriáceas, glabras, verde-escuras na face superior e mais claras na inferior, com limbo obovado de 5 a 10 cm de comprimento por 3 a 4 cm de largura e margem irregularmente serrilhada; na submata de florestas naturais podem chegar a 18 cm. As flores são brancas e pequenas, reunidas em inflorescências do tipo tirso, em fascículos de até cinco flores nas axilas dos ramos antigos; ainda que apresentem estames e pistilos, nas femininas os estames não funcionam e nas masculinas o pistilo aborta, o que, somado à floração explosiva, dificulta a polinização natural. O fruto é um drupóide globoso de polpa mucilaginosa, com até cinco pirênios uniloculares de 4 a 6 mm; quando maduro fica lustroso e de cor roxa-escura. A semente é castanho-clara a escura, muito dura, pequena e de forma variável.
Uso e ecologia
O produto principal da erva-mate são as folhas, base do chimarrão, do tereré, do mate queimado e de extratos como o mate solúvel e os refrigerantes. As folhas concentram metilxantinas (cafeína, teobromina e teofilina), com teores de cafeína que chegam a 2,2% nas folhas novas, além de taninos (até 16%), ácido clorogênico (10% a 16%), óleos voláteis, flavonoides, ácido fólico, vitaminas e sais minerais. Na medicina popular, o chá das folhas é tido como estimulante, diurético, estomáquico e sudorífico, com efeitos sobre a circulação e o sistema urogenital. A planta ainda fornece cera para cosméticos, adubo a partir dos resíduos do beneficiamento e forragem (13% de proteína bruta). A madeira tem papel secundário: é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,60 g/cm³ a 15% de umidade e básica de 0,50 g/cm³), com alburno branco estriado e cerne bege de marcas alveolares, superfície lisa e lustrosa, textura fina e grã direita ou irregular; presta-se à produção de lâmina de excelente qualidade, mas rende lenha de péssima qualidade e é inadequada para celulose e papel.
Trata-se de espécie clímax tolerante à sombra, que se desenvolve nas associações mais maduras dos pinhais e se regenera com facilidade quando os estratos arbustivo e herbáceo são raleados. É característica da Floresta Ombrófila Mista Montana (Floresta com Araucária), em estreita associação com o pinheiro-do-paraná, penetrando na Floresta Estacional Semidecidual do noroeste do Paraná e do sul de Mato Grosso do Sul. Aparece de forma rara na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica) e, mais raramente ainda, no Cerradão paulista. Em inventários na Floresta Ombrófila Mista de Caçador (SC) e na Selva Misionera (Argentina), sua densidade variou de 3 a 55 indivíduos por hectare.
A floração ocorre de setembro a outubro no Rio Grande do Sul, de setembro a novembro no Paraná, de setembro a dezembro em Santa Catarina e em novembro no Estado de São Paulo. A frutificação se dá com os frutos amadurecendo de dezembro a abril no Rio Grande do Sul, de dezembro a março em Santa Catarina, de janeiro a abril no Paraná e em março em São Paulo. Plantas propagadas vegetativamente começam a se reproduzir cerca de 2 anos após o plantio, enquanto as oriundas de semente passam a produzir por volta dos 5 anos, em locais adequados.
A erva-mate é planta dióica e de fecundação cruzada (alógama). A polinização é entomófila, realizada por pequenos insetos como dípteros e himenópteros, tendo sido descartada a dispersão de pólen pelo vento. A dispersão de frutos e sementes é feita por animais, sobretudo por aves (ornitocoria), com destaque para os sabiás.
Plantio e silvicultura
A colheita pode ser feita no chão, logo após a queda dos frutos, ou diretamente da árvore, sacudindo os galhos com auxílio de linhada sobre uma lona; os frutos maduros têm cor violeta-escura. No beneficiamento imediato, os frutos são macerados em peneiras, lavados em água corrente e as sementes que boiam são descartadas; frutos colhidos há mais de 3 dias precisam de imersão em água por 24 horas. Cada quilo reúne de 110 mil a cerca de 155 mil sementes. O gênero Ilex apresenta embriões rudimentares mesmo nos frutos maduros, o que impõe dormência: as sementes levam de 6 a 8 meses para germinar, com taxa baixa e desuniforme, dificuldade ligada também à dureza do endocarpo do pirênio. Recomenda-se estratificação em areia média por 5 a 6 meses, intercalando uma camada de sementes de até 2 cm entre camadas de areia de 8 a 10 cm; o processo ajuda a abrandar o endocarpo pela ação de hifas fúngicas. Sementes de regiões mais quentes podem exigir menos tempo de estratificação. As sementes têm comportamento ortodoxo: conservam-se em temperatura ambiente por até 60 dias (germinação máxima aos 30 dias) e, a 5 ºC ± 1, mantêm viabilidade por até 150 dias. Para avaliação rápida da viabilidade, usa-se o teste de tetrazólio aplicado ao endosperma e ao embrião.
A baixa germinação das sementes (em geral 5% a 20%) torna inviável a semeadura direta nos recipientes, de modo que os viveiristas costumam estratificar as sementes antes do plantio, alternando camadas de areia com as sementes. A germinação é epígea, com fase hipógea inicial, e começa entre 31 e 180 dias após a semeadura; no Brasil costuma ser muito baixa (média de 5%, de 1% a 20%), mas com uso exclusivo de frutos bem maduros pode chegar a 50% a 60%. A repicagem é feita 4 a 5 meses após a semeadura, quando as plântulas atingem cerca de 5 cm. As mudas de estaquia ficam aptas ao plantio a partir de 6 meses, enquanto as de semente (viveiro tradicional) demandam de 12 a 24 meses. A propagação vegetativa por enraizamento de estacas é viável e rende mudas de qualidade quando baseada na seleção de genótipos superiores, com uso de hormônios como AIB (recomendado a 8.000 ppm) e ANA. As raízes formam micorrizas arbusculares (Acaulospora, Glomus e Scutellospora). As mudas se desenvolvem melhor sob estresse hídrico moderado e sombreamento de 60% a 80% nos 20 dias iniciais, sendo gradualmente expostas ao sol; após cerca de 3 meses, com 10 a 15 cm, vão a pleno sol. É possível aproveitar mudas de regeneração natural (plantadas com 30 a 60 cm, após adaptação de 3 meses em viveiro) e até pseudo-estacas (tocos), podadas a 5-10 cm e levadas ao campo.
Planta esciófila, a erva-mate tolera sombreamento de intensidade média em qualquer idade e suporta mais luz quando adulta, sendo também resistente a baixas temperaturas. Para produção de madeira, recomenda-se apenas a poda dos ramos; já como cultura voltada à folha, ela passa por podas específicas e contínuas. Os espaçamentos na linha variam conforme o objetivo do produtor: muitos ervais ultrapassam 3 m entre plantas, mas espaçamentos menores (2,5 x 1,5 m), como os usados na Argentina, têm elevado a produtividade. Nos primeiros meses recomenda-se anteparo lateral contra o sol poente; a espécie pode ser implantada em plantio misto com pioneiras que lhe deem sombra, em capoeiras e capoeirões, sob povoamentos de Pinus desbastados (a partir do terceiro desbaste) ou de Araucaria angustifolia, e também por adensamento de ervais nativos. A planta rebrota da touça após o corte e pode produzir folhas indefinidamente, havendo ervais com mais de cem anos de manejo no Paraná e em Mato Grosso do Sul. A cultura é de alta rentabilidade (TIR de 58,48%) e aceita sistemas agroflorestais, com consórcio comum com mandioca, milho e feijão nos três primeiros anos. A produção das próprias sementes, a partir de árvores selecionadas, é estratégica, já que o material de mercado costuma carecer de controle genético; em Santa Catarina a espécie consta da lista de plantas raras ou ameaçadas.
O crescimento voltado à produção de madeira é lento, embora a taxa anual inicial em altura possa chegar a 1 m em condições ótimas de solo e baixa competição, com boa forma quando há algum sombreamento. Plantada em Foz do Iguaçu (PR), em Latossolo Vermelho distroférrico e espaçamento 4 x 4 m, em consórcio com outras 23 espécies, apresentou aos 11 anos altura média de 6,67 m, DAP médio de 8,3 cm e 75% de sobrevivência. A produção volumétrica alcançou 2,30 m³/ha/ano aos 10 anos em Dois Vizinhos (PR). A rotação para madeira ocorre a partir de 50 anos; para a colheita de folhas, a condução prevê podas anuais ou a cada 1,5 ano, mantendo de 20% a 30% das folhas bem distribuídas e buscando a forma de taça.
A precipitação pluvial média anual em sua área varia de 1.200 mm (Rio de Janeiro) a 3.700 mm (São Paulo), com chuvas bem distribuídas em boa parte do Sul e mais concentradas no verão em outras regiões; pode haver deficiência hídrica leve no noroeste do Paraná e moderada (até 5 meses secos) no sul de Mato Grosso do Sul. A temperatura média anual fica entre 13,2 ºC (São Joaquim, SC) e 21,9 ºC (Dourados, MS), predominando de 15 ºC a 18 ºC; a média do mês mais frio vai de 8,2 ºC a 17,7 ºC e a do mês mais quente de 17,2 ºC a 25,9 ºC. A mínima absoluta registrada foi de -11,6 ºC (Xanxerê, SC), podendo chegar a -15 ºC na relva, com até 81 geadas por ano no Planalto Sul-Brasileiro. Pela classificação de Köppen, predominam os climas temperado úmido (Cfb) e subtropical úmido (Cfa), ocorrendo em menor escala em Cwa, Cwb e Aw.
A erva-mate ocorre naturalmente em solos de baixa fertilidade, em geral com poucos cátions trocáveis, alto teor de alumínio e pH baixo. É rara em areias quartzosas (com menos de 15% de argila) e não se estabelece em solos hidromórficos, sendo esparsa em solos rasos. Para o cultivo, devem-se evitar solos úmidos e pouco permeáveis, preferindo-se solos de profundidade média (acima de 30 cm) a profundos, com textura que vai de franca (15% a 35% de argila) a argilosa (acima de 35%).