Foto: Tatters ✾ (CC0 1.0) via flickr
Cumaru
Dipteryx odorata
- até 40 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: cumaru-ferro, cumaru-do-amazonas, cumaru-da-folha-grande, cumaru-roxo, cumaru-verdadeiro, cumbari, sarrapia, cumari, baru, champanhe, cumaru-amarelo, cumaru-de-cheiro, cumarurana, cumaruzeiro, cumbaru, ipê-cumaru, muimapagé, umarurana
Botânica
Pertence à família Fabaceae (chamada de Leguminosae no sistema de Cronquist), subfamília Faboideae (Papilionoideae), e ao gênero Dipteryx. A espécie foi descrita como Dipteryx odorata (Aublet) Willd., tendo como sinônimo botânico Coumarouna odorata Aubl. Pelo sistema do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), está situada na ordem Fabales, dentro do clado das eurosídeas I. O nome do gênero, Dipteryx, faz referência às duas asas presentes na flor, enquanto o epíteto odorata remete ao forte aroma de cumarina que a planta exala. No mercado internacional, a madeira e as sementes são comercializadas sob o nome de tonka.
Árvore perenifólia que, na fase adulta, pode alcançar cerca de 40 m de altura e até 150 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo). O tronco é reto e cilíndrico, proporcionalmente mais curto que a copa, com algumas protuberâncias e sapopemas que chegam a 1 m de altura; o fuste atinge até 20 m de comprimento. A ramificação é dicotômica, com galhos ascendentes que formam uma copa frondosa e elegante. A casca, com até 3 cm de espessura, tem superfície externa áspera e de cor pardo-amarelada-escura, desprendendo-se em placas irregulares de uma única lâmina dura; a casca interna é amarelada e escurece quando exposta, sendo laminar a fibrosa, com veios roxos em fileiras irregulares e sabor adstringente, sem exsudações. As folhas são compostas, imparipinadas e alternas, medindo de 15 cm a 20 cm de comprimento (incluindo o pecíolo), com 3 a 4 pares de folíolos subopostos; cada folíolo tem lâmina ovada-lanceolada de 7 cm a 12 cm de comprimento por 4 cm a 6 cm de largura, com pontos translúcidos, margem inteira, ápice acuminado e base arredondada. As flores surgem em panículas terminais ferrugíneo-pubescentes de 15 cm a 30 cm, reunindo de 80 a 120 flores perfumadas; são hermafroditas, aromáticas, pequenas, zigomorfas, de perianto rosado e pedicelo curto. O fruto é um legume drupáceo ovalado e lenhoso, com endocarpo de deiscência tardia após a decomposição do mesocarpo, medindo de 5 cm a 6,5 cm de comprimento por 3,5 cm de largura e contendo uma única semente de cotilédones retos, cor marrom, com 3 cm de comprimento por 1 cm de largura. Na Amazônia, a produção de frutos começa por volta dos 4 a 5 anos de idade.
Uso e ecologia
A madeira do cumaru-ferro é densa a muito densa, com massa específica aparente entre 0,95 g/cm³ e 1,19 g/cm³ (a 12% a 15% de umidade) e densidade básica de 0,75 g/cm³ a 0,95 g/cm³; verde, chega a 1,28 g/cm³. O alburno é cinza-amarelado e bem diferenciado do cerne, que varia de castanho-avermelhado a amarelo-rosado conforme o solo, com transição abrupta entre as duas zonas. Apresenta anéis de crescimento distintos, grã revessa, textura média a fina, sem brilho e cheiro imperceptível. É bastante resistente a fungos, insetos e brocas marinhas; usada como dormente em solos bem drenados, dura de 10 a 22 anos. O cerne não aceita tratamento com creosoto nem com CCA-A, mesmo sob pressão. A secagem ao ar é lenta e a em estufa é rápida, com tendência média a torcer. O processamento mecânico é difícil, mas o acabamento no torno fica excelente, ao contrário da plaina e da lixa, que dão resultado ruim. Por sua alta densidade e boas propriedades físico-mecânicas, a madeira serve para construção civil (vigas, caibros, ripas, tacos e tábuas de assoalho), além de laminados decorativos, molduras, móveis, peças torneadas, carroçaria, carpintaria, marcenaria, tanoaria, estacas, esteios, mancais, cabos de ferramentas, batentes de portas, buchas de eixo de hélices, eixos de moinhos e outros usos; é considerada uma das melhores madeiras para dormentes, pois não racha ao sol. As castanhas (sementes) são comestíveis e contêm de 30% a 40% (peso seco) de um óleo amarelo-claro e perfumado que se oxida rápido no ar e é muito procurado pela indústria de perfumaria e cosméticos no mercado internacional. Quando fermentadas, as sementes produzem a cumarina (anidrido cumarínico), essência aromática usada como fixador de perfumes e também com efeito narcótico e estimulante. As sementes ainda são empregadas na confecção de bijuterias e artesanato, embora esse uso não seja recomendado por conta de suas ações anti-espasmódica, diaforética, cardíaca e emenagoga, ligadas à cumarina. Na medicina popular, as favas (como as sementes são chamadas comercialmente) são usadas como diaforéticas; do cozimento de frutos e sementes obtém-se um fortificante com propriedades anestésicas que auxilia em problemas respiratórios e cardíacos e combate vermes, inclusive amebíase. Da casca prepara-se um xarope contra tosse, gripe e problemas pulmonares, e o óleo da amêndoa é aplicado em úlceras bucais, otite e afecções do couro cabeludo. Pesquisas mais recentes mostraram que esse óleo, por inibir a coagulação do sangue, também pode entrar na formulação de raticidas, à semelhança da varfarina.
É considerada uma espécie de fase final de sucessão, classificada como clímax ou clímax exigente em luz. Costuma ser encontrada no interior da floresta primária, onde se destaca como árvore emergente, mas também aparece em floresta secundária a partir dos 6 anos de idade, no Pará. Trata-se de uma planta de vida longa. Ocorre no bioma Amazônia, em Floresta Ombrófila Densa (Floresta Tropical Pluvial Amazônica) de terra firme e de várzea alta, no Amazonas, no Pará e em Rondônia, e no bioma Mata Atlântica, em Floresta Ombrófila Densa (Floresta Tropical Pluvial Atlântica), em Pernambuco.
A floração ocorre de agosto a outubro no Pará, de setembro a outubro no Amazonas e em dezembro em Pernambuco. Os frutos amadurecem de abril a julho no Pará, e a espécie frutifica cedo, já aos 4 anos de idade.
A polinização é feita essencialmente por diversas espécies de abelhas. A dispersão das sementes é predominantemente barocórica, ou seja, por gravidade, em razão do peso dos frutos, mas roedores e morcegos também contribuem para espalhá-las.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser recolhidos no chão, logo abaixo da árvore-mãe, assim que caem espontaneamente, e já podem ser semeados diretamente como se fossem sementes. Cada quilo contém em torno de 137 a 500 sementes (há registros de 245 a 500 e de 428 sementes em lotes com 26% de umidade). Não é preciso aplicar tratamento pré-germinativo. A viabilidade sob armazenamento é baixa, mas as sementes podem ser guardadas por até 9 meses. São sensíveis à dessecação e não sobrevivem quando o teor de água cai para a faixa de 13% a 17%.
Recomenda-se semear duas sementes diretamente em cada recipiente. A germinação é criptocotiledonar e a emergência ocorre de 3 a 8 semanas após a semeadura, com taxa que costuma variar de 36% a 92%.
É uma espécie esciófila e sensível ao frio. Em plantios no Acre e no Amazonas, apresentou melhor desempenho a pleno sol, atingindo maiores alturas e diâmetros, mas também pode ser consorciada, funcionando como planta sombreadora.
Há poucos dados sobre seu desenvolvimento em plantios. O crescimento é lento, com produção volumétrica de até 4,25 m³/ha/ano aos 11 anos de idade. No norte de Mato Grosso, vem mostrando bom estado silvicultural. No Pará, entre 1976 e 1996, foi plantada por 9% das empresas em projetos de reposição florestal registrados no Ibama. Na Bolívia, estima-se uma rotação de cerca de 30 anos.
A precipitação média anual varia de 1.200 mm, no Maranhão, a 2.500 mm, no Amazonas e no Pará, chegando a até 7.000 mm no Chapare (Cochabamba, Bolívia), com regime de chuvas periódicas e deficiência hídrica de pequena a moderada no Amazonas, Acre, Pará, Rondônia e norte de Mato Grosso. A temperatura média anual fica entre 24,8 °C (Belterra, PA) e 26,7 °C (Manaus, AM); a média do mês mais frio vai de 23,2 °C (Rio Branco, AC) a 26 °C (Manaus, AM) e a do mês mais quente, de 25,7 °C (Rio Branco, AC) a 27,7 °C (Belterra, PA). A mínima absoluta registrada foi de 1,4 °C (Corumbá, MS). Entre o Acre, Rondônia e parte de Mato Grosso, o fenômeno da friagem, causado pelo avanço da Frente Polar, provoca quedas bruscas de temperatura por 3 a 8 dias. Não há ocorrência de geadas. Segundo a classificação de Koeppen, a espécie está em climas Af (tropical superúmido) no Pará, Am (tropical chuvoso, tipo monção, com estação seca curta) no Acre, Amazonas e Pará, e Aw (tropical quente com estação seca de inverno) no Acre, Maranhão, nordeste de Mato Grosso do Sul e Pará.
O cumaru-ferro é pouco exigente quanto ao solo, desenvolvendo-se bem desde substratos moderadamente arenosos até muito argilosos, contanto que sejam bem drenados, e tanto em solos pobres e ácidos quanto em solos ricos em nutrientes. No Pará, sua ocorrência natural restringe-se a áreas de solos argilosos de alta fertilidade química e sujeitos a compactação. Em Mato Grosso, vive em solos de baixa fertilidade química, com pH em água de 4,5 e baixos teores de potássio e fósforo. Na Bolívia, aparece naturalmente em solos jovens de origem aluvial, de baixa fertilidade natural, pouco matéria orgânica, pH entre 3,7 e 5,5, baixa capacidade de troca catiônica e saturação por alumínio de 70% a 80%.