Foto: João Medeiros (CC BY 2.0) via Wikimedia
Craibeira
Tabebuia aurea
- até 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: caraíba, caraíba-do-cerrado, carobeira, claraíba, caraúba, craíba, ipê-do-cerrado, ipê, paratudo, piúva, piúva-amarela, ipê-caraíba, caraibeira, ipê-amarelo, para-tudo-do-campo, ipê-do-campo, pau-d'arco-do-campo, ipê-amarelo-do-cerrado, caroba-do-campo, carobinha, para-tudo-do-cerrado, pau-d'arco
Botânica
Pertencente à família Bignoniaceae e ao gênero Tabebuia, a espécie é classificada como Tabebuia aurea (Silva Manso) Benth. & Hook. f. ex S. Moore, dentro da ordem Lamiales. Sua descrição foi publicada pela primeira vez em 1895. Ao longo da literatura, recebeu diversos sinônimos botânicos, entre os mais citados Tabebuia caraiba (Mart.) Bureau, Tabebuia argentea, Tabebuia suberosa e Tecoma caraiba Mart. — embora o conjunto completo de sinônimos seja bem mais extenso. O nome do gênero, Tabebuia, tem origem tupi-guarani e remete à ideia de "pau que flutua" ou "pau-de-formiga". Já o epíteto aurea faz referência às flores douradas da planta, enquanto o nome popular caraúba deriva de carahyba, que significa "forte e duro", em alusão à rigidez de sua madeira.
Trata-se de uma planta de hábito que varia de arbustivo a arbóreo e que perde as folhas na estação seca. Os exemplares de maior porte podem chegar a cerca de 20 m de altura e 40 cm de diâmetro à altura do peito quando adultos, mas o tamanho varia muito conforme o ambiente: no Cerrado não costuma passar de 6 m, no Pantanal Mato-Grossense alcança até 8 m de altura por 35 cm de DAP, e no chaco paraguaio foram registrados indivíduos de apenas 4 m. O tronco é tortuoso e o fuste, em geral curto, raramente ultrapassa 5 m. A ramificação é cimosa, formando copa globosa de ramos cilíndricos, glabros, esfoliantes e sem lenticelas. A casca chega a 20 mm de espessura, com superfície externa acinzentada a amarelada marcada por fissuras verticais e cristas sinuosas, e a casca interna marrom-clara. As folhas são digitadas, compostas por seis folíolos coriáceos, elípticos a oblongo-elípticos, de 9 a 12,6 cm de comprimento por 4 a 7,5 cm de largura, com pecíolo de cerca de 8 cm. A inflorescência é uma panícula terminal corimbosa e congesta, reunindo aproximadamente 70 flores odoríferas e vistosas; o cálice é castanho-esverdeado (1,2 a 1,4 cm) e a corola, amarelo-ouro, mede de 5 a 8 cm de comprimento. O fruto é uma cápsula cilíndrica e linear, de coloração cinza-escura ou bege, com 8,5 a 15 cm de comprimento e numerosas sementes brancas-rosadas, oblongas e providas de duas alas.
Uso e ecologia
A madeira da caraúba é moderadamente densa a densa (0,66 a 0,80 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno amarelado e cerne que varia entre bege-amarelado, rosado e pardo-claro. Tem superfície irregularmente lustrosa, textura média e grã irregular a ondulada, além de notável flexibilidade — qualidade explorada em cabos de ferramentas, peças curvadas, réguas flexíveis e artigos esportivos. É também aproveitada em móveis, carpintaria, vigamentos, esquadrias, cangalhas e moendas, embora apresente baixa resistência ao apodrecimento e seja suscetível ao cupim em contato com o solo. Não serve para celulose e papel, mas presta-se bem à produção de álcool, coque metalúrgico, lenha e carvão. Na medicina caseira, sobretudo no Nordeste e em Mato Grosso, a casca e as folhas são tradicionalmente usadas: a infusão ou o xarope da entrecasca trata gripes e resfriados, o decocto combate inflamações em geral e, na forma de garrafada, atua como diurético e contra úlceras; na Bolívia, a casca raspada em infusão é empregada contra picadas de cobra. Das folhas isolou-se o alcaloide carobina. A espécie também tem valor na alimentação animal — caprinos consomem voluntariamente plântulas, folhas, flores e frutos — e potencial apícola no Cerrado mineiro.
Espécie pioneira, a caraúba ocorre tanto isolada quanto em agrupamentos homogêneos. Sua casca grossa e corticosa parece conferir adaptação ao fogo, como sugerem as numerosas cicatrizes de queimadas observadas na base de árvores no chaco paraguaio. Está presente em diversos biomas: na Amazônia, em Floresta Ombrófila Densa submontana; na Mata Atlântica, em Floresta Estacional Semidecidual e Ombrófila Densa; no Cerrado, em cerrado stricto sensu e cerradão, onde pode atingir até 25 indivíduos adultos por hectare; na Caatinga, na Savana-Estépica do sertão árido; e no Pantanal Mato-Grossense, onde chega a 16 indivíduos por hectare. No Pantanal forma os característicos "paratudais" ou "peuvais", agrupamentos quase puros em áreas inundáveis, atingindo densidades médias de até 363 árvores por hectare nos campos de murundus. Esses murundus — pequenas elevações de até 50 cm que protegem as árvores das cheias — têm substrato formado por formigas do gênero Camponotus, que constroem ninhos (as "casas-de-formiga") nos ramos da planta. Ocorre ainda em matas ciliares, babaçuais, campos rupestres, florestas inundáveis e zonas de contato entre Floresta Amazônica e Cerrado.
A floração varia conforme a região: de maio a julho na Bahia, de junho a novembro em Minas Gerais, de julho a setembro no Distrito Federal, de agosto a setembro em Mato Grosso do Sul e São Paulo, em setembro no Paraná, em outubro no Amapá, de setembro a novembro em Pernambuco e de outubro a janeiro no Ceará. Os frutos amadurecem em setembro em Mato Grosso, de setembro a outubro no Distrito Federal, de outubro a novembro em Mato Grosso do Sul e São Paulo, em novembro no Amazonas e de janeiro a fevereiro em Pernambuco.
A espécie é monoica e autoincompatível, com autoincompatibilidade de ação tardia, o que sugere um sistema reprodutivo misto com tendência à alogamia. Entre as 14 espécies de abelhas observadas visitando suas flores, apenas Centris spp. e Bombus morio foram apontadas como polinizadores potenciais, graças à alta frequência de visitas e à eficiência no transporte de pólen. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, feita pelo vento.
Plantio e silvicultura
Recomenda-se extrair as sementes de frutos ainda fechados, secando-os naturalmente até que adquiram tonalidade roxa e o replo fique esbranquiçado, o que reduz a contaminação por fungos; sementes recolhidas do chão logo após a queda também mantêm boa qualidade fisiológica e podem ser semeadas de imediato. Cada quilo contém de 6.000 a 11.300 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. De comportamento fisiológico ortodoxo, mantêm a viabilidade por até 120 dias em câmara fria e seca (15 ºC e 40% de UR), com índices de 88% a 97% em embalagens de papel kraft, algodão ou plástico permeável. Em laboratório, a espécie é fotoblástica neutra, com germinação média de 88% a 98% em até 10 dias; a temperatura ótima de germinação fica em torno de 35 ºC (mínima de 20 ºC e máxima de 40 ºC, no escuro), e os substratos papel-toalha e areia mostraram-se os mais adequados.
A semeadura deve ser feita em recipientes individuais com substrato organo-arenoso. Convém evitar a repicagem, já que as mudas formam um tubérculo semelhante ao xilopódio dos subarbustos, e não se recomenda sombreamento na produção. A germinação é epígea e fanerocotiledonar, com emergência iniciando entre 5 e 20 dias após a semeadura e taxa de 50% a 94%. A espécie apresenta alta incidência de micorriza arbuscular.
Heliófila e sensível a baixas temperaturas, a caraúba tem forma irregular, com fuste curto, bifurcações e ramificações laterais. Não realiza derrama natural, exigindo podas frequentes de condução e dos galhos, e rebrota da touça. O plantio puro a pleno sol deve ser evitado; o ideal é o plantio misto, associado a espécies pioneiras ou em meio à vegetação arbórea matricial, em faixas abertas na capoeira, dispondo as mudas em linhas ou grupos.
O crescimento da espécie é lento, como verificado em parcelas plantadas em Maceió. Seu fator de forma é de 0,79.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 450 mm, na Paraíba, a 2.600 mm, no Amapá, sob regime de chuvas periódicas e deficiência hídrica que varia de pequena a forte conforme a região. A temperatura média anual oscila entre 20,9 ºC (Sete Lagoas, MG) e 29,4 ºC (Picos, PI), com mínima absoluta registrada de -3,7 ºC em Coxim, MS. As geadas são ausentes na maior parte da distribuição e apenas raras no sul de Mato Grosso do Sul e em São Paulo. Pela classificação de Köppen, ocorre nos climas Am, As, Aw, BSwh, Cwa e Cwb.
A espécie prefere terras de aluvião profundas, úmidas e bem drenadas, sendo considerada indicadora de solo bom para pastagem. Tolera a salinidade do solo e da atmosfera, ocorrendo também em solo sílico-argiloso profundo sobre subsolo calcário, na Chapada do Apodi, e em manchas de Terra Roxa Estruturada, em Altamira (PA). No Pantanal, demonstra mecanismos fisiológicos que lhe permitem sobreviver a altos níveis de cálcio e magnésio, ao estresse hídrico de inundações e secas e às variações de pH do solo.