Foto: Pedro Teixeira 1806 (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia
Corticeira
Erythrina falcata
- 10 a 20 m, chegando a 35 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: bico-de-arara, feijão-bravo, machoco, sananduva, sapatinho-de-judeu, suinã-da-mata, suinã-mulambo, suinã-da-serra, vermelheira, bico-de-papagaio, bico-de-pato, canivete, suinã-do-brejo, pau-cebola, sananduba, sapato-de-judeu, bituqueira, mituqueiro, mutuqueira, sinhanduva, bituqueiro, butuqueiro, camarão-assado, corticeira-do-mato, corticeira-da-serra, corticeiro-de-mato, marrequeira, mochoco, mochoqueiro, muchoco, mulungu, mulungu-coral, mutuqueiro, sanandu, sananduí, sinandu, suinã
Botânica
Pelo sistema de classificação de Cronquist, a corticeira pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae) e ordem Fabales, dentro da família Fabaceae (subfamília Papilionoideae). Foi descrita como Erythrina falcata por Bentham (Mart. Fl. Bras., 1859), tendo como sinônimos botânicos Corallodendrum falcatum Kuntze e Erythrina crista-galli L. var. inermis Speg. O nome do gênero deriva do grego erythros, vermelho, referência direta à cor das flores; o epíteto falcata vem do latim falx (foice), por causa da forma curva, semelhante a uma foice.
Trata-se de uma árvore caducifólia que normalmente mede de 10 a 20 m de altura e tem DAP entre 30 e 70 cm, podendo alcançar 35 m e mais de 100 cm de DAP quando adulta. O tronco é reto, de seção cilíndrica, em geral provido de nódulos e acúleos; o fuste costuma ser curto, com até 7 m, podendo chegar a 15 m dentro da floresta. A ramificação é racemosa, grossa e ascendente, formando copa larga, arredondada e densa, de folhagem verde-escura bem marcante, com galhos grossos e aculeados. A casca pode atingir 20 mm de espessura: por fora é castanho-amarelada, com ritidoma finamente fissurado e descamação pulverulenta e, às vezes, com acúleos; por dentro é amarelo-ferrugem, quase alaranjada, com estrias róseas a avermelhadas, textura fibrosa e estrutura trançada. As folhas são compostas, trifoliadas e alternas, medindo até 15 cm de comprimento por 8 cm de largura, com pecíolo de 5 a 10 cm. As flores, vermelhas a alaranjadas e com 3 a 5 cm de comprimento, surgem em numerosos cachos pendentes nas pontas dos ramos, em inflorescência racemosa de 10 a 30 cm; reunidas geralmente em grupos de três e nunca completamente abertas, tornam a árvore inconfundível na primavera. O fruto é um legume indeiscente, achatado, estipitado e não-septado por dentro, de cor pardo-escura, com 10 a 20 cm de comprimento por 2 a 3 cm de largura, abrigando de 3 a 15 sementes. As sementes são reniformes e achatadas, castanho-escuras e com estrias rajadas, hilo curto e oblongo, medindo de 1 a 1,5 cm.
Uso e ecologia
A madeira da corticeira é muito leve (massa específica aparente de 0,20 a 0,39 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno e cerne indistintos, de cor branco-amarelada a amarelo-pardacenta, textura grossa, grã direita e baixa durabilidade natural. Por ter pouca resistência mecânica, é pouco aproveitada no Brasil, sendo destinada sobretudo a móveis rústicos, obras internas, pranchões, tacos, fôrmas de calçado, caixas, janelas, gavetas, estojos para instrumentos de precisão, armações de montaria, peças ortopédicas, mourões em terrenos alagados e esculturas. Há quem sugira reflorestá-la por motivos econômicos junto ao tapiá (Alchornea triplinervia), para produzir tábuas de urnas funerárias. Como lenha tem qualidade péssima, mas serve bem para celulose e papel (fibra de 1,36 mm de comprimento e teor de lignina com cinzas de 28,68). Da casca extraem-se rolhas com boas propriedades elétricas e caloríficas, além do alcaloide hiporifina, do grupo curare, que indígenas empregavam como sedativo para atordoar peixes. Na medicina popular, o chá da casca e da semente é tomado para acalmar tosses nervosas e em bochechos contra afecções da boca; o chá da casca também é usado em problemas do fígado, na hepatite, em dores musculares, contra insônia e hipertensão, enquanto compressas da casca são aplicadas em feridas e o chá da flor é tido como rejuvenescedor da pele. Diversos povos indígenas do Paraná e de Santa Catarina utilizam a casca do caule para dor de dente, no primeiro banho do bebê (prevenção de hipertermia), em dores na bexiga e hemorroidas; folhas e casca também entram em infusões para a menopausa.
É uma espécie secundária inicial ou clímax exigente de luz, comum em vegetação secundária como capoeiras e capoeirões. Sua ocorrência é desigual, ora abundante ora escassa conforme o sítio, aparecendo às margens de cursos d'água, no sopé das encostas de grandes serras com neblina e nas grotas. Habita a Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), onde é rara; a Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária) na formação Montana; a Floresta Estacional Semidecidual; a Floresta Estacional Decidual nas formações Montana e Baixo-Montana; e, esporadicamente, o Cerradão. Fora do Brasil, está presente na Selva Misionera e na Selva Tucumano-Boliviana. Em levantamento na Floresta Estacional Decidual do noroeste gaúcho, foram contados 4 indivíduos por hectare.
A floração ocorre de julho a setembro em Minas Gerais; de julho a outubro em São Paulo; de agosto a setembro no Rio de Janeiro; de agosto a novembro no Paraná e em Santa Catarina; e de outubro a novembro no Rio Grande do Sul. No Paraguai, a espécie floresce duas vezes por ano, em fevereiro-março e em agosto-setembro. Os frutos amadurecem de outubro a janeiro em Minas Gerais, de novembro a dezembro no Rio de Janeiro, de novembro a fevereiro no Rio Grande do Sul, de dezembro a janeiro no Paraná e de dezembro a abril em São Paulo. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 10 anos de idade.
A planta é hermafrodita e tem no beija-flor seu principal polinizador. A dispersão das sementes é anemocórica, feita pelo vento. Por serem ricas em néctar, suas flores atraem aves, em especial periquitos ou tirivas (Pyrrhura spp.), e também servem de alimento aos macacos-pregos (Cebus apella nigritus); diz-se ainda que são comestíveis. Por isso a corticeira é valiosa na recuperação de ecossistemas degradados e na manutenção da fauna silvestre.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando passam do verde para o marrom-escuro, e as sementes são retiradas à mão depois que as vagens se abrem. Cada quilo contém de 1.550 a 6.400 sementes. A espécie não tem dormência, mas recomenda-se imergir as sementes em água fria por 48 horas para embebição. A viabilidade cai rapidamente: em ambiente não controlado, dois meses após a coleta a germinação despencou de 70% para 30%.
Recomenda-se semear duas sementes por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes de polipropileno médios; havendo necessidade, a repicagem é feita 1 a 2 semanas após a germinação. A germinação é hipógea e tem início entre 7 e 130 dias após a semeadura, com poder germinativo alto (até 90%, em média 70%); as mudas ficam prontas para o plantio por volta de 6 meses. A propagação vegetativa pode ser feita por estacas caulinares jovens de ramos finos. As raízes associam-se simbioticamente a Rhizobium, formando nódulos grandes e ativos concentrados na região do colo da muda.
A corticeira é esciófila e suporta sombreamento de baixa a moderada intensidade, mas não tolera frio nos dois primeiros anos; já adultas, em florestas naturais, aguentam mínimas de até -8 ºC. Seu hábito é irregular, sem dominância apical, com tronco curto e muito ramificado, bifurcações e brotações basais, exigindo desrama e poda de condução e de galhos. Pode ser plantada em consórcio com pioneiras e secundárias iniciais, sobretudo para corrigir a forma, ou em vegetação matricial arbórea, em faixas abertas na vegetação secundária. É indicada para sistemas agroflorestais, na arborização de culturas perenes e de pastagens, aceitando o transplante com mudas grandes, de cerca de 2 m, e rebrotando com vigor da touça após o corte. Consta da lista de espécies ameaçadas de extinção no Rio Grande do Sul.
O crescimento da espécie é lento e bastante irregular.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência varia de 1.100 mm, no Rio de Janeiro, a 2.100 mm, em Minas Gerais, com chuvas bem distribuídas na Região Sul e concentradas no verão nas demais regiões. A deficiência hídrica é moderada no inverno, com estação seca pouco pronunciada no Sudeste, e de moderada a forte no centro de Mato Grosso. A temperatura média anual fica entre 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) e 25,2 ºC (Cáceres, MT); a média do mês mais frio vai de 8,2 ºC (Campos do Jordão) a 21,6 ºC (Cáceres) e a do mês mais quente, de 19,9 ºC (Curitiba) a 26,8 ºC (Cáceres), com mínima absoluta de -8,2 ºC em Campos do Jordão. O número de geadas por ano varia de 0 a 10, podendo chegar a 33 no Sul. Os tipos climáticos de Köppen são tropical (Af), subtropical úmido (Cfa), subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e temperado úmido (Cfb).
Prefere solos úmidos com boas propriedades físicas, de textura franco-argilosa a argilosa, drenagem boa a regular e boa fertilidade química. É recomendada para restaurar matas ciliares em locais sujeitos a inundações periódicas de curta duração e adapta-se a áreas de solo permanentemente encharcado.