Foto: (c) Florencia Grattarola, some rights reserved (CC BY) (CC BY 4.0) via Wikimedia
Coração-de-negro
Poecilanthe parviflora
- 4 a 10 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: canela-do-brejo, coração, coração-negro, ipê-coração, jacarandá-de-mato-grosso, pau-ferro, pau-jantar
Botânica
Pela classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas) e ordem Fabales, dentro da família Fabaceae (Leguminosae Papilionoideae). Seu nome científico é Poecilanthe parviflora Bentham. O gênero Poecilanthe tem origem nos termos gregos poikilos, que significa variegado, e anthus, flor; já o epíteto parviflora remete às flores pequenas que a planta produz.
Árvore perenifólia que normalmente mede de 4 a 10 m de altura, com diâmetro de tronco entre 20 e 50 cm, mas que pode chegar a 25 m de altura e 90 cm de diâmetro — excepcionalmente até 150 cm — na fase adulta. O tronco é reto ou um pouco tortuoso, com fuste em geral curto, de no máximo 10 m. A ramificação vai de dicotômica a irregular, formando copa larga e bastante esgalhada. A casca chega a 15 mm de espessura: a parte externa é marrom-escura, escamosa, solta-se com facilidade e exibe manchas brancas de liquens, enquanto a interna tem tom vermelho-escuro. As folhas são compostas, com 3 a 7 pares de folíolos que medem até 7 cm de comprimento por 3 cm de largura. As flores, amarelas ou amareladas e marcadas por manchas ou linhas roxas, reúnem-se em racemos densos axilares ou terminais de 2 a 4 cm. O fruto é um legume castanho-pardo de formato arredondado, com 2,2 a 4,7 cm de comprimento e 1,5 a 2,3 cm de largura, contendo em geral uma ou duas sementes. As sementes são pretas com tonalidade alaranjada, achatadas, medindo de 10 a 15 mm de comprimento.
Uso e ecologia
Por ser muito pesada, ter contrações médias e visual agradável, a madeira presta-se à fabricação de móveis, peças torneadas e painéis decorativos. É empregada também em carpintaria (balcões e vigamentos de pontes), na construção civil (esquadrias, tacos e tábuas de assoalho, vigas, caibros e ripas) e em estruturas externas, como postes, dormentes, cruzetas, mourões e cercas. Trata-se de uma madeira densa (0,99 a 1,00 g/cm³ a 15% de umidade) e de alta durabilidade natural. O alburno é amarelo-pardacento e o cerne, pardo-claro-amarelado, em geral bege amarelado-pardacento, por vezes com nuances rosadas e veios escuros pouco salientes. A superfície é lisa, de pouco brilho, com textura fina e desigual e grã irregular e revessa, sobretudo nas faces radiais; tem cheiro característico, levemente acentuado, e gosto imperceptível. Os veios conferem aspecto bonito e a madeira lembra o ipê-roxo (Tabebuia heptaphylla), do qual difere pelo cerne mais claro, embora compartilhe as mesmas propriedades físico-mecânicas; as toras costumam ser ventadas e partem-se com facilidade. A lenha é de ótima qualidade e queima mesmo verde. A celulose serve para papel de baixa qualidade (teor de celulose de 48,1%, lignina de 26,4% e fibra de 0,85 mm). O tronco fornece o óleo essencial norolisol e da casca extrai-se uma resina esbranquiçada semelhante a breu. A espécie é ainda recomendada para a recuperação de ecossistemas degradados.
Classifica-se como secundária tardia ou clímax exigente em luz. Tem comportamento de invasora de pastagens, multiplicando-se pela brotação das raízes e podendo se tornar praga; quando não roçada, forma capoeiras junto a outras espécies. Habita sobretudo a Floresta Estacional Semidecidual e a Floresta Estacional Decidual, sendo menos comum na Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária), nas formações aluvial e montana.
A floração ocorre de outubro a novembro no Rio Grande do Sul e de outubro a janeiro no Paraná. Os frutos amadurecem de abril a agosto no Paraná, de junho a julho no Rio Grande do Sul e de junho a setembro em São Paulo. Em plantios sobre solos férteis, a espécie começa a se reproduzir por volta dos 4 anos de idade.
Planta hermafrodita, polinizada principalmente por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão das sementes é autocórica, predominantemente barocórica, ou seja, pela ação da gravidade.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando começam a cair sozinhos, ou recolhidos no chão, e as sementes são extraídas à mão. Cada quilo reúne de 1.700 a 3.000 sementes, que não apresentam dormência, dispensando tratamentos para superá-la. Em armazenamento, a viabilidade ultrapassa quatro meses.
Recomenda-se semear em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio; quando preciso, a repicagem é feita de 3 a 5 semanas após a germinação. A germinação é hipógea e começa entre 15 e 60 dias após a semeadura, com poder germinativo elevado (até 90%, em média 75%). As mudas ficam prontas para o plantio cerca de seis meses depois da semeadura. As mudas de raiz nua pegam bem, recomendando-se areia como substrato em sua produção. As raízes associam-se simbioticamente a Rhizobium, formando nódulos do tipo astragalóide com atividade de nitrogenase; no viveiro da Embrapa Florestas, em Colombo (PR), houve nodulação espontânea em solo de bracatingais, e a presença de fungos micorrízicos arbusculares ainda merece investigação. A espécie também se propaga com facilidade por brotação de raízes.
Espécie heliófila e tolerante a baixas temperaturas, tem hábito irregular, sem dominância apical definida, com bifurcações, muita ramificação e fuste curto. A desrama natural só é satisfatória em plantios com espaçamento apertado; já a desrama artificial cicatriza com dificuldade, o que acaba gerando árvores ocas. Pode ser cultivada a pleno sol, em pequenos plantios puros ou mistos com pioneiras e secundárias, ou em faixas abertas na vegetação secundária. O espaçamento recomendado é de 2,50 x 2,50 m, que apresenta menos bifurcações do que 3,00 x 3,00 m; espaçamentos menores reduzem ainda mais as bifurcações, mas resultam em árvores de pequeno diâmetro e menor volume de madeira, motivo pelo qual não são indicados. Após a morte do tronco, brota intensamente das raízes, formando moitas difíceis de eliminar, mesmo com herbicidas.
O crescimento varia de lento a moderado, podendo alcançar até 9,15 m³ por hectare ao ano.
A precipitação média anual vai de 1.100 mm em São Paulo a 1.700 mm no Paraná. As chuvas distribuem-se de forma uniforme na Região Sul (exceto no norte do Paraná) e concentram-se no verão ou no inverno nas demais áreas. A deficiência hídrica é moderada no inverno, com estação seca de até 3 meses no oeste paulista, e de moderada a forte, com seca de até 5 meses, no centro de Mato Grosso. A temperatura média anual fica entre 18,5 ºC (Tibagi, PR) e 25,6 ºC (Chapada dos Guimarães, MT); a média do mês mais frio varia de 14,7 ºC a 22,8 ºC e a do mês mais quente de 22 ºC (Marília, SP) a 27,2 ºC, com mínima absoluta de -3,5 ºC (Londrina, PR). Ocorrem em média de 0 a 4 geadas por ano, com máximo de 10 na Região Sul, mas o predomínio é de ausência ou baixa frequência de geadas. Os tipos climáticos de Köppen abrangem Cfb (temperado úmido), Cfa (subtropical úmido), Cwa e Cwb (subtropical de altitude) e Aw (tropical).
Na natureza, cresce tanto em espigões secos e solos rasos quanto em solos úmidos e de boa fertilidade química. Em plantios experimentais, desenvolve-se melhor em solos com boas propriedades físicas, bem drenados, de textura franca a argilosa e fertilidade química elevada.