Foto: Andrés González (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia
Congonha-miúda
Ilex dumosa
- até 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: caúna, caúna-do-brejo, caúna-miúda, congonha, caáuna, caúna-dos-capões, erva-mate, erva-piriquita, catarina, cauninha, erva-mate-falsa, orelha-de-mico, mate
Botânica
Pelo sistema de classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), Ilex dumosa pertence à divisão Angiospermae, clado Euasterídeas II, ordem Aquifoliales (em Cronquist, situada em Celastrales), família Aquifoliaceae e gênero Ilex. A espécie foi descrita por Reissek e teve sua primeira publicação em Mart. Fl. Bras., em 1861. Entre seus sinônimos botânicos estão Ilex dumosa var. montevidensis, var. mosenii e var. gomezii. Quanto à etimologia, Ilex era a antiga designação da azinheira (Quercus ilex), usada por autores como Horácio e Plínio; já o epíteto dumosa deriva do latim e significa coberto de mata arbustiva, em referência à vegetação dos capões.
A congonha-miúda varia de arbusto a árvore, com folhagem sempre-verde (perenifólia). Em associação com o pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifolia) e a imbuia (Ocotea porosa), chega a porte elevado: os indivíduos maiores atingem cerca de 20 m de altura e 80 cm de DAP na fase adulta. Em contraste, na Restinga catarinense não passa de 2 m. O tronco é quase cilíndrico e praticamente liso, com fuste de até 10 m. A ramificação é dicotômica, e os ramos jovens são glabros ou levemente pubérulos. A casca chega a 10 mm de espessura: a externa (ritidoma) é acastanhada, verrucosa, com lenticelas salientes e se fende ao se decompor; a interna também é acastanhada, de textura curto-fibrosa e granulada. As folhas são simples, com lâmina de 2 a 8 cm de comprimento por 0,7 a 4 cm de largura, elíptica a estreitamente oboval, glabra e coriácea, com glândulas escuras e punctiformes na face inferior; o ápice é acuminado, agudo ou arredondado, a base aguda e a margem revoluta e serreada, com as serras encerrando em apículo enegrecido. O pecíolo mede de 1 a 10 mm, glabro ou pubérulo, por vezes com tricomas brancos. As inflorescências são axilares, solitárias ou em fascículos, reunindo cerca de 15 flores em brotos floríferos: as masculinas em tirsos curtos (até 2 cm) com dicásios de três flores, e as femininas em fascículos (2 a 7 flores por axila) com racemos curtos (até 1,5 cm). As flores são muito perfumadas, de 3 a 8 mm de diâmetro, com cálice de lobos arredondados e ciliados e pedicelos de 1 a 3 mm. O fruto é do tipo drupoide (subtipo nuculânio), com até 4 pirênios uniloculares, globoso e levemente achatado nas extremidades, de superfície lisa e brilhante, roxo-escura a quase preta (atropurpúrea), medindo de 2,5 a 6 mm de diâmetro; o mesocarpo é carnoso e abriga de 2 a 5 sementes. Em Colombo, no Paraná, Kuniyoshi registrou variações de cor e tamanho dos frutos entre as árvores observadas, com o endocarpo indo do bege-esverdeado ao vinoso e rosado. A semente apresenta pirênio largamente trígono quando fértil e achatado no dorso.
Uso e ecologia
As folhas têm sido empregadas para adulterar a erva-mate (Ilex paraguariensis), prática malvista pelos consumidores e, sobretudo, pelos importadores. A espécie não serve para produção de celulose e papel, mas é aproveitada como lenha. A madeira é leve, com alburno e cerne pouco distintos que se oxidam rápido após o corte; tem baixa resistência mecânica e é bastante suscetível ao apodrecimento, motivo pelo qual seu uso serrado se restringe à caixotaria. Por suas qualidades ornamentais, presta-se à arborização urbana e ao paisagismo.
Trata-se de uma espécie secundária tardia, comum na vegetação litorânea e nas capoeiras, em especial sobre solos úmidos, sendo característica da orla dos capões no Planalto Sul-Brasileiro. Aparece na Floresta Estacional Semidecidual (formação Submontana no Rio Grande do Sul e Montana no Paraná, com até seis indivíduos por hectare), na Floresta Ombrófila Densa (Submontana em São Paulo e Montana em Minas Gerais) e na Floresta Ombrófila Mista, com araucária (Montana no Paraná e em Santa Catarina, com até oito indivíduos por hectare). Também ocorre em ambientes fluviais e ripários (mata ciliar) no Paraná e em Santa Catarina, em campo higrófilo às margens do rio Tibagi (PR), em floresta turfosa no Rio Grande do Sul e na vegetação de Restinga do Paraná, de Santa Catarina e de São Paulo. Num levantamento de 43 estudos florísticos e fitossociológicos de mata ciliar do Brasil extra-amazônico, Rodrigues e Nave a registraram em apenas um deles, ou seja, em 2,2% dos trabalhos.
A floração ocorre de setembro a dezembro em São Paulo, de setembro a janeiro no Paraná e de outubro a abril no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Entre agosto de 1992 e junho de 1994, Talora e Morellato não constataram floração na planície litorânea de Ubatuba (SP). Os frutos amadurecem de maio a junho em São Paulo, de setembro a outubro no Rio Grande do Sul e de novembro a abril no Paraná.
A espécie é dioica e tem polinização entomófila, realizada por insetos. A dispersão de frutos e sementes é principalmente ornitocórica, ou seja, feita por aves.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que assumem coloração vermelho-escura ou preta. Em seguida, ficam submersos em água por 2 a 3 dias e são lavados em peneira fina sob água corrente para liberar as sementes. Cada quilo reúne de 480.000 a 566.567 sementes. Quanto à dormência, estudos no gênero Ilex indicam que os embriões permanecem rudimentares mesmo com o fruto maduro, e a dureza do endocarpo dificulta a protrusão da radícula. Por isso recomenda-se a estratificação em areia média por 5 a 6 meses, alternando uma camada de sementes (no máximo 2 cm) entre duas camadas de areia de 8 a 10 cm cada; esse processo amolece o endocarpo pela ação de hifas de fungos. As sementes apresentam comportamento fisiológico ortodoxo e podem ser guardadas à temperatura ambiente por até 90 dias, com poder germinativo máximo aos 40 dias.
Como a germinação é baixa (geralmente entre 5% e 20%), a semeadura direta nos recipientes não é viável, e os viveiristas costumam estratificar as sementes antes do plantio. A repicagem é indicada quando as plântulas têm de 4 a 6 folhas definitivas. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência iniciando de 90 a 150 dias após a semeadura e percentual de germinação habitualmente baixo.
A congonha-miúda é uma espécie esciófila e tolerante a temperaturas baixas. Sua forma é tortuosa, sem dominância apical definida, com bifurcações e ramificações abundantes; a derrama natural é fraca, exigindo podas frequentes de condução e dos galhos. Quando adulta, tolera luz direta, mas pode ser implantada em plantios mistos com espécies pioneiras que lhe ofereçam sombra na fase juvenil. Adapta-se ainda à introdução em vegetação matricial arbórea, em florestas secundárias, capoeirões e capoeiras, com abertura de faixas e plantio em linha.
As informações sobre o desenvolvimento da espécie em plantios são escassas, mas sabe-se que seu crescimento é lento.
A precipitação média anual varia de 1.100 mm no Rio Grande do Sul a 3.200 mm no litoral paulista, com chuvas bem distribuídas no Planalto Sul-Brasileiro e na faixa litorânea entre o Rio Grande do Sul e São Paulo, e chuvas periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Sul (exceto no norte do Paraná) e no litoral de São Paulo, e pequena no Sudeste. A temperatura média anual oscila de 13,2 ºC (São Joaquim, SC) a 20,3 ºC (Florianópolis, SC), com mínima absoluta de -10,4 ºC registrada em Caçador (SC). As geadas são frequentes no inverno do Planalto Sul-Brasileiro e raras no litoral do Paraná e de Santa Catarina, variando em média de 0 a 30 por ano, com máximo de 81; pode haver neve onde a espécie ocorre, sendo que em São Joaquim (SC) neva quase todo ano. Pela classificação de Köppen, a espécie abrange os tipos Af no litoral do Paraná e de São Paulo, Cfa no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo, Cfb no Paraná, Santa Catarina e São Paulo, e Cwb no sudeste de Minas Gerais.
A congonha-miúda cresce naturalmente em diversos tipos de solo, prosperando tanto em terrenos úmidos quanto em bem drenados, inclusive na vegetação próxima a afloramentos de arenito.