Foto: Mateusbotanica2020 (CC BY-SA 4.0) via wikimedia
Chichá
Sterculia curiosa
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: samuma-branca, embira-quiabo, arichichá, ararixá, castanha, coaxixa, amendoim, arixão, boia, boia-unha, danta, mendobi-de-pau, pau-de-boia, pau-de-cortiça, unha-d'anta
Botânica
Pela classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG III), o chichá pertence à divisão Angiospermae, clado das Eurosídeas II, ordem Malvales e família Malvaceae (no sistema de Cronquist era enquadrada em Sterculiaceae), dentro do gênero Sterculia. O binômio aceito é Sterculia curiosa (Vell.) Taroba, publicado pela primeira vez em 1984. Já foi tratada sob os sinônimos Mateatia curiosa Vell. (1825) e Sterculia chicha (segundo Schumann). O nome do gênero, Sterculia, faz referência a Stercus, divindade pagã associada às imundícies, alusão ao odor intenso das flores das plantas desse grupo; o epíteto curiosa tem origem incerta. Já a designação popular chichá deriva do tupi (chi e uá), com o sentido de 'fruto repulsivo'.
Árvore de folhas caducas que pode chegar a cerca de 30 m de altura e 100 cm de diâmetro do tronco (DAP, medido a 1,30 m do solo) quando adulta, embora também existam exemplares de apenas 8 m. O tronco é reto e cilíndrico, sustentado por raízes tabulares (sapopemas) que dão maior firmeza à planta. A ramificação é dicotômica, com copa pequena e ramos grossos, recobertos por indumento ferrugíneo de tricomas estrelados que se tornam glabros com o tempo e guardam as marcas das folhas antigas. A casca chega a 10 mm de espessura, sendo a externa (ritidoma) acinzentada, fina e praticamente lisa. As folhas têm lâmina de coloração quase uniforme a levemente discolor, com 8,5 a 26,5 cm de comprimento por 16,5 a 27 cm de largura, 3 a 5 lobos, ápice apiculado ou arredondado, margem inteira e base profundamente cordada; a face superior é verde-clara, com poucos tricomas estrelados, e a inferior, também verde-clara, mas com tricomas mais densos. As estípulas medem de 5 a 6 mm e o pecíolo, quase glabro, de 5 a 26 cm. As flores reúnem-se em panículas terminais tomentosas de 15 a 20 cm, com pedúnculo de cerca de 12 cm; são apétalas, de cálice avermelhado por dentro e divisões alaranjadas nas margens e no ápice. Os frutos são folículos lenhosos ovoides e achatados, em forma de cápsula vermelho-alaranjada, de 5,5 a 13 cm de comprimento por 3 a 6 cm de largura, cobertos por tricomas estrelados ferrugíneos e contendo de 3 a 9 sementes. Dispostas em verticilos na ponta dos ramos da inflorescência, as cápsulas se abrem ao amadurecer e deixam as amêndoas penduradas por algum tempo. As sementes, elipsoides e de 3 a 3,5 cm de comprimento, são protegidas por três tegumentos e acabam caindo no solo.
Uso e ecologia
A madeira é leve, com densidade aparente de 0,50 g/cm³ e densidade básica entre 0,39 e 0,50 g/cm³, de cor branca, grã revessa e textura fina. É considerada de qualidade inferior, indicada para obras internas como forros, molduras, caixas e fósforos, além de servir como isolante térmico e acústico; presta-se também à produção de pasta de papel, mas rende lenha de péssima qualidade. O grande destaque está nas sementes (amêndoas), comestíveis e muito apreciadas cozidas ou torradas, com sabor que lembra o amendoim e chega a ser confundido com o da castanha-da-amazônia (Bertholletia excelsa). Essas amêndoas contêm de 40% a 65% de um óleo alimentício fino e doce, usado na cozinha, na fabricação de sabões, como combustível para iluminação no interior e para lubrificar peças delicadas. A casca é rica em taninos, os verticilos dos frutos são aproveitados em arranjos secos e as folhas amassadas têm uso popular em cataplasmas com propriedades resolutivas. Vale lembrar que esse registro de uso medicinal é apenas factual e não substitui orientação médica.
Trata-se de uma espécie clímax. As árvores aparecem isoladas na floresta, mas é comum encontrar vários indivíduos concentrados em uma mesma área. Está presente na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Tropical Pluvial Atlântica) das Terras Baixas e Baixo-Montana, no Rio de Janeiro; em mata ciliar (ambiente ripário), no Espírito Santo; e em mosaico de Floresta Tropical Supermontana, em Minas Gerais, com densidade de cerca de um indivíduo por hectare.
A floração vai de dezembro a março em São Paulo e ocorre em janeiro em Minas Gerais. Os frutos amadurecem de julho a agosto em Minas Gerais e de julho a outubro em São Paulo. Em plantio, estima-se que a espécie passe a frutificar entre o oitavo e o décimo ano.
Espécie hermafrodita, tem suas flores polinizadas por moscas e visitadas por abelhas e vespas. A dispersão é autocórica (por gravidade), mas as sementes germinam com dificuldade, pois costumam fermentar dentro dos próprios frutos ou ser consumidas por aves e outros animais silvestres.
Plantio e silvicultura
Obter sementes em boas condições de germinação não é simples: dificilmente se encontram sementes germinadas sob as árvores, e é frequente achar os frutos cheios delas já fermentados no solo, sinal de que caíram estragados. As sementes precisam ser retiradas dos frutos maduros logo após a colheita, pois em poucos dias fermentam e perdem a capacidade de germinar; depois de extraídas, devem ser postas para secar imediatamente. Cada árvore produz de 9 a 57 kg de frutos, e a colheita pode ser agilizada cortando-se os cachos pelo pedúnculo, com podão de cabo longo, conforme começam a abrir. Há de 120 a 150 sementes por quilo. Não é necessário tratamento pré-germinativo. O comportamento fisiológico é recalcitrante: as sementes perdem rapidamente a viabilidade no armazenamento.
Recomenda-se semear diretamente em sacos de polietileno ou em tubetes de tamanho médio. A germinação é epígea, com plântulas fanerocotiledonares; a emergência começa por volta de 21 dias e a repicagem pode ser feita 7 dias após a germinação. As mudas ficam prontas para o plantio em cerca de 5 meses. A espécie também enraíza com facilidade por estaquia.
Espécie heliófila, que não suporta baixas temperaturas. Sua arquitetura segue o modelo de Aubréville, com tronco monopodial e galhos plagiotrópicos por aposição. Como não há desrama natural e os galhos são grossos, é preciso fazer desrama a partir do quarto ano de plantio; a planta rebrota da touça ou da cepa. Pode ser cultivada a pleno sol, em plantios puros ou mistos, no espaçamento de 4 m x 3 m, e recomenda-se o consórcio em sistemas agroflorestais, inclusive com leguminosas. Em São Paulo, a única coleta da espécie em ambiente natural data de 1885, no município de Cruzeiro (Serra da Mantiqueira), sendo os demais registros de exemplares cultivados; pela ausência de registros nos últimos 50 anos, deverá ser incluída na categoria 'presumivelmente extinta' na lista estadual de espécies ameaçadas.
Há poucos dados sobre o desenvolvimento do chichá em plantios, mas seu crescimento é considerado moderado.
A precipitação média anual varia de 1.100 mm, no Rio de Janeiro, a 2.100 mm, na Bahia, com chuvas periódicas e deficiência hídrica de pequena a moderada no litoral sul baiano. A temperatura média anual fica entre 17,7 °C (Poços de Caldas, MG) e 24,5 °C (Tombos, MG); a média do mês mais frio vai de 16,9 °C (Coronel Pacheco, MG) a 22,1 °C (Ilhéus, BA) e a do mês mais quente, de 24,1 °C (Coronel Pacheco, MG) a 26,5 °C (Rio de Janeiro, RJ). A mínima absoluta registrada foi de -2 °C, em Poços de Caldas (MG). As geadas são raras no sul de Minas Gerais e ausentes no restante da área de ocorrência. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Af, Am, Aw, Cwa e Cwb.
Cresce em solos diversos, dos terrenos muito úmidos e várzeas alagadas até o topo dos morros, mas seu melhor desenvolvimento se dá em solo permeável, profundo, bem drenado, rico em matéria orgânica e de alta fertilidade.