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Foto de Chal-chal

Foto: Laura Montanía (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia

Chal-chal

Allophylus edulis

Sapindaceae Mata AtlânticaCerradoCaatingaPampa
  • até 20 mAltura
  • Grande portePorte
FrutíferasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: vacum, vela-branca, leiteira, pau-pombo, três-folhas, balãozinho, visgueiro, cuncum, vacunzeiro, cumichá-branco, baga-de-morcego, fruto-de-pomba, olho-de-pombo, baga-de-pombo, amarelinho, beira-campo, fruta-de-faraó, fruta-de-pavão, fruta-do-pombo

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

A espécie é classificada como Allophylus edulis (St. Hil.) Radlk., pertencente à família Sapindaceae, ordem Sapindales. Foi publicada em Warming, Symb., 37-995, no ano de 1890. Já recebeu a denominação de Schmidelia edulis Saint-Hilaire, hoje tratada como sinônimo. O nome do gênero, Allophylus, deriva dos termos gregos állos (de outro) e phyllon (nação), com o sentido de "estrangeiro", uma vez que a planta tem ocorrência marcante no Sri Lanka, o antigo Ceilão. Já o epíteto edulis vem do latim e significa "comestível", referência direta aos frutos que podem ser consumidos.

Descrição botânica

Sua forma varia bastante, indo de subarbusto e arbusto a arvoreta ou mesmo árvore decídua. Os exemplares de maior porte chegam a cerca de 20 m de altura e 30 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, aferido a 1,30 m do solo) na fase adulta. O tronco tem seção irregular, perfil que vai de reto a tortuoso, leve acanalamento, base discretamente reforçada e fuste curto. A ramificação varia de dicotômica a irregular e simpódica, com ramos finos; a copa é baixa, densa em folhagem, arredondada, de tom verde-escuro e visual bastante atraente, com galhos primários largos e retos. A casca chega a 7 mm de espessura. Externamente, é escura, de coloração pardo-grisácea ou pardo-ocrácea, áspera e com leves fissuras no sentido do comprimento, recoberta por numerosas escamas finas que se soltam com facilidade de baixo para cima, comportamento semelhante ao do angico-gurucaia (Parapiptadenia rigida); quando raspada, revela tom marrom-claro. Nas árvores jovens, essa casca externa é lisa. A casca interna varia de marfim a creme, tem textura curto-fibrosa, estrutura trançada e aroma suave. As folhas são compostas, pecioladas e trifolioladas, de coloração escura, com domácias, medindo de 3,5 a 12 cm de comprimento por 1 a 4 cm de largura; são lanceoladas, acuminadas, simétricas, serreadas, de consistência membranácea a cartácea, glabras, com pubescência nas nervuras e curto-pecioluladas. As inflorescências reúnem-se em tirsos dispostos na base dos ramos terminais e laterais novos, longamente pedunculados, raramente ramificados na base, laxifloros, glabros ou levemente puberulentos, formados por cincinos sésseis ou estipitados; o pedúnculo mede de 2 a 12 cm de comprimento e de 0,5 a 3 cm de diâmetro, abrigando de 3 a 15 flores. As flores são brancas, branco-amareladas ou branco-esverdeadas, levemente perfumadas, com 3 a 6 mm de comprimento, pediceladas, dotadas de corola com quatro pétalas espatuladas, oito estames de filetes longos e pilosos na base e anteras elípticas; o ovário é obovóide, de glabro a puberulento, com estilete filiforme. O fruto é esquizocarpáceo, do tipo dicoca, com cocas globosas, indeiscentes e monospermas; o epicarpo é glabro, de consistência carnácea, medindo de 6,35 a 9,63 mm de comprimento, 5,88 a 9,66 mm de largura e 5,49 a 9,36 mm de espessura, de superfície lisa e brilhante na maturidade. A cor muda conforme amadurece, passando do verde-escuro ao amarelo-laranja e depois ao vermelho-vivo; o epicarpo e o mesocarpo são as porções comestíveis, de polpa pouco suculenta. A semente é ovóide, recoberta por tegumento fino e papiráceo de tom laranja-escuro, medindo de 5,57 a 8,65 mm de comprimento, 4,27 a 7,06 mm de largura e 3,09 a 7,74 mm de espessura, sem endosperma, com hilo e micrópila visíveis na região basal.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalalimentícioapícola
Produtos e utilizações

A madeira é moderadamente densa (densidade aparente de 0,67 g/cm³), de cor amarelo-ocrácea e textura fina; é pouco elástica, bastante resistente e compacta, porém tem baixa durabilidade quando exposta ao ambiente externo. Seu valor comercial é reduzido, mas serve para marcenaria, fabricação de cabos de ferramentas, esteios, mourões e usos internos. Da espécie também se obtêm lenha e carvão de boa qualidade, ainda que pouco aproveitados, enquanto para celulose e papel ela é considerada inadequada. Como forrageira, é razoável, apresentando de 13,25% a 13,69% de proteína bruta e de 5,63% a 5,83% de tanino. Os frutos, embora de pouca polpa, são comestíveis, doces e saborosos, consumidos como fruta de mesa; fermentados, originam uma bebida vinosa conhecida como aloja de chalchal, apreciada em países vizinhos e associada à chicha, fermentado tradicionalmente feito de milho pelos povos do Peru, cujo consumo se espalhou até Buenos Aires e ao sul do Brasil. Na medicina popular, o suco das folhas é usado contra a icterícia, o chá das folhas trata inflamações de garganta e problemas digestivos e intestinais, o cozimento das folhas serve para lavar feridas e, por via interna, é indicado no controle da pressão alta.

Aspectos ecológicos

Quanto ao grupo sucessional, comporta-se como pioneira, secundária inicial, clímax ou clímax exigente em luz. Sua distribuição é irregular: ora aparece como espécie muito comum e abundante, ora se torna rara. Costuma ocupar os estratos médio e inferior da floresta alta, sendo ainda mais expressiva na floresta baixa. Ocorre na Floresta Estacional Decidual (formações das Terras Baixas, Submontana e Montana, no Rio Grande do Norte e no Rio Grande do Sul, com cerca de um indivíduo por hectare), na Floresta Estacional Semidecidual (formações Aluvial, Submontana e Montana, em Minas Gerais, no Paraná e em São Paulo, com 1 a 14 indivíduos adultos por hectare ou até 300 jovens por hectare), na Floresta Ombrófila Densa (formações Submontana e Montana, no Rio de Janeiro e em São Paulo, com até 42 indivíduos por hectare) e na Floresta Ombrófila Mista ou Floresta de Araucária (formações Aluvial e Montana, no Paraná, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, com 5 a 65 indivíduos por hectare), além da zona de contato entre essas duas últimas no Paraná e da restinga gaúcha. No Cerrado, aparece ocasionalmente no Cerradão de São Paulo; na Caatinga, na Savana-Estépica da Serra da Capivara (PI); e no Pampa, nos campos do Rio Grande do Sul. Também é encontrada em ambientes ripários do Paraná, do Rio Grande do Sul e de São Paulo (até dois indivíduos por hectare), em brejos de altitude de Pernambuco (até 95 indivíduos por hectare) e em campos antrópicos de Minas Gerais.

Floração e frutificação

A floração varia conforme a região: ocorre de julho a setembro em São Paulo, de julho a dezembro no Paraná, de julho a novembro em Santa Catarina, de setembro a novembro no Rio Grande do Sul e de dezembro a fevereiro em Goiás. Os frutos amadurecem de outubro a novembro em Santa Catarina, de outubro a dezembro em São Paulo, de novembro a fevereiro no Rio Grande do Sul, de novembro a março no Paraná e em dezembro em Goiás.

Fauna associada

A espécie é monóica e tem a polinização feita principalmente por abelhas, com destaque para a abelha-doméstica (Apis mellifera); suas flores são melíferas. A dispersão dos frutos e sementes é autocórica, do tipo barocórica (por gravidade), e também zoocórica, contando com o bugio ou guariba (Alouatta guariba) e diversas aves. Os frutos são muito procurados pela avifauna.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos são colhidos diretamente da árvore quando ficam vermelhos; em seguida são macerados e despolpados em água corrente para liberar as sementes. Cada quilo reúne em torno de 18.436 sementes a 30,81% de umidade, podendo variar de 29.850 a 80 mil unidades. Não é preciso tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento recalcitrante e perdem a capacidade de germinar cerca de 15 dias após a colheita. Em laboratório, germinam numa ampla faixa de temperatura (17 ºC a 30 ºC), revelando boa adaptação climática, mas os melhores índices e a maior velocidade de germinação foram obtidos a 25 ºC e 30 ºC constantes, com os substratos ágar e areia se mostrando os mais favoráveis. São sementes fotoblásticas neutras.

Produção de mudas

A semeadura pode ser feita em sementeira, com cobertura leve, ou colocando-se duas sementes em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou ainda em tubetes de polipropileno de tamanho médio. Quando necessária, a repicagem para embalagens individuais deve ocorrer quando as mudas alcançam de 3 a 5 cm de altura. A germinação é epígea ou fanerocotiledonar, com a emergência começando entre 8 e 45 dias após a semeadura e taxas que vão de 44,5% a 96%.

Características silviculturais

Trata-se de uma espécie esciófila, capaz de tolerar baixas temperaturas. Apresenta forma tortuosa, sem dominância apical bem definida e com bifurcações, além de desrama natural fraca, o que exige podas de condução e de galhos. É recomendada para plantios mistos a pleno sol.

Crescimento e produção

Há poucos registros de crescimento da espécie em plantios, mas os dados disponíveis indicam que seu desenvolvimento é lento.

Clima

A precipitação média anual vai de 700 mm, na Serra da Capivara (PI), a 2.400 mm no Maranhão. As chuvas distribuem-se de forma uniforme no Sul do Brasil, exceto no norte do Paraná, sendo periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Sul (com exceção do norte paranaense), pequena no verão do sul gaúcho, de pequena a moderada na faixa costeira da Paraíba, no Acre e no Pará, de pequena a moderada no inverno do sul de Goiás, moderada no inverno em parte de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro, moderada em Pernambuco e Sergipe, e de moderada a forte no norte do Maranhão, no sudeste do Piauí e no inverno do centro de Mato Grosso. A temperatura média anual oscila entre 15,5 ºC (Caçador, SC) e 26,7 ºC (Itaituba, PA); a mínima absoluta registrada é de -10,4 ºC em Caçador, podendo chegar a -15 ºC na relva. O número de geadas vai de 0 a 30 por ano, com máximo absoluto de 57 na Região Sul. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Am, As, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb, conforme a região.

Solos

Prefere solos bastante úmidos de planícies aluviais e início de encostas, desenvolvendo-se também em terreno rochoso e à margem de rios.