Foto: Marcio Santos Ferreira (CC BY) via GBIF
Cerejeira-da-Amazônia
Amburana acreana
- até 40 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: amburana, amburana-de-cheiro, cerejeira, cerejeira-amarela, cumaru-de-cheiro, imburana, emburana
Botânica
Pertencente à família Fabaceae (Leguminosae, subfamília Papilionoideae), a espécie foi descrita como Amburana acreana (Ducke) A. C. Smith, publicada em Tropical Woods, em 1940. Tem como sinônimo botânico Torresea acreana Ducke. O nome do gênero, Amburana, deriva da designação popular da planta no Ceará, formada por ambu (vegetal semelhante ao ambu) e rana (que significa parecido ou falso); já o epíteto acreana faz referência ao Acre, estado onde foi coletado o exemplar usado como material-tipo.
Trata-se de uma árvore decídua que, na fase adulta, pode alcançar cerca de 40 m de altura e 150 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). O tronco varia de reto a ligeiramente tortuoso, com fuste que chega a 25 m. A casca externa possui um ritidoma muito fino, de até 5 mm de espessura, que se desprende em grandes placas de tonalidade vermelho-ferrugínea; após a renovação, a superfície fica rósea e lisa. Os ramos também apresentam ritidoma delgado e descamante, com muitas lenticelas. As folhas são compostas, reunindo de 17 a 25 folíolos membranáceos e glabros, de formato ovado a ovado-lanceolado, com cerca de 6 cm de comprimento por 3 cm de largura; a nervura central é pubérula na face inferior, o ápice é subagudo, a base arredondada e os peciólulos pilosos medem 2 mm. As inflorescências são amplas e frouxas, com flores brancas. O fruto é uma vagem deiscente que abriga 1 ou 2 sementes aladas e aromáticas, ricas em cumarina (cerca de 4%).
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,60 a 0,62 g/cm³), com cerne pardo-amarelado mesclado de manchas rosadas e alburno esbranquiçado. Tem textura grosseira, grã irregular a reversa, superfície áspera e pouco lustrosa; é macia ao corte, sem sabor, e exala um cheiro agradável e marcante, com forte odor de cumarina. Comparada à do carvalho-europeu (Quercus spp.), é muito valorizada e procurada pelas indústrias nacionais de móveis de luxo, sendo empregada na forma serrada e em lâminas faqueadas decorativas (compensado). Na construção civil, presta-se a acabamentos internos como rodapés, molduras, cordões, esquadrias, portas, batentes, peças torneadas e folhas decorativas. Também é aproveitada na produção de carvão e na fabricação de celulose e papel. As sementes concentram cerca de 4% de cumarina e, no Acre, são consumidas assadas. Cascas e sementes têm uso na medicina caseira regional: são utilizadas contra dores de cabeça e como peitoral, no combate à anemia e à gripe, e no preparo de bebidas alcoólicas. As sementes servem ainda para fazer rapé, empregado para aliviar congestão nasal, dores de cabeça e dor de dente; cascas e sementes também perfumam o rapé e as roupas, e realçam o sabor da cachaça.
É uma espécie clímax e tolerante à sombra. De origem andino-amazônica, possui ampla e diversificada dispersão na América do Sul e habita áreas de floresta de terra firme. Ocorre no bioma Amazônia, na Floresta Ombrófila Aberta submontana com cipó (em Mato Grosso, Rondônia e Acre) e na Floresta Ombrófila Densa de terra firme (no Acre).
A floração acontece em maio, com a árvore já desfolhada. Os frutos amadurecem em julho no Acre, de agosto a setembro em Mato Grosso e de agosto a outubro em Rondônia.
A polinização é realizada sobretudo por abelhas. A dispersão é anemocórica: as sementes aladas são levadas pelo vento e depositadas longe da árvore-mãe.
Plantio e silvicultura
A colheita pode começar com os frutos já enegrecidos, recolhidos do chão. Cada quilo reúne cerca de 800 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. Sementes provenientes de frutos pretos, guardadas por 10 meses, mantêm boa parte do poder germinativo, e sua viabilidade pode ser avaliada pelo teste de tetrazólio. Em laboratório, a temperatura de 30 ºC e o substrato de areia são considerados ideais para a germinação. As sementes são fotoblásticas neutras, característica que evidencia a plasticidade da espécie.
Recomenda-se semear uma única semente por saco de polietileno ou tubete, ou ainda em sementeiras com posterior repicagem, feita logo após a emissão da parte aérea ou quando a muda atingir até 10 cm de altura; a espécie suporta poda radicial. A germinação é hipógea ou criptocotiledonar, com emergência iniciando entre 15 e 33 dias após a semeadura e índices altos (76% a 81%). Dois meses depois da semeadura, as mudas alcançam em média 20 cm de altura.
A espécie prefere luz indireta e abundante, sendo medianamente tolerante a baixas temperaturas. Na fase juvenil costuma apresentar fustes curvados, comportamento comum entre leguminosas arbóreas. Tem bom potencial para plantios mistos a pleno sol e em capoeira. Em plantio puro a pleno sol, no Acre, bifurcou-se e adquiriu forma pouco comercial; em capoeira, desenvolveu-se melhor onde a vegetação era mais alta e aberta. Por isso, o ideal é plantá-la à sombra, recebendo luminosidade indireta. Em capoeira pode haver competição por espaço, situação em que se recomendam podas de liberação; a pleno sol, o consórcio com espécies de crescimento rápido pode favorecer o desenvolvimento em altura e a luz adequada. É usada em sistemas agroflorestais com café, em Rondônia, e tem potencial para esse tipo de sistema no Acre. Está fortemente ameaçada pela exploração madeireira: figura na lista oficial brasileira na categoria vulnerável e entre as espécies madeireiras prioritárias para conservação de recursos genéticos na Amazônia, sendo uma das mais consumidas e pressionadas no mercado do Acre e classificada como vulnerável em Mato Grosso.
O crescimento é moderado, com incremento médio anual em volume de até 5,10 m³/ha/ano. Aos 3 anos, registrou alturas de 3,00 m a 4,50 m e DAP de 8,15 cm.
A precipitação média anual varia de 1.600 mm, em Mato Grosso, a 2.400 mm, em Rondônia, em regime de chuvas periódicas: a estação chuvosa vai de outubro a abril, com médias acima de 110 mm mensais e pico em janeiro (313,3 mm), enquanto a estação seca tem médias inferiores a 93,3 mm, com mínimo em junho (18,3 mm). A deficiência hídrica é de pequena a moderada no Acre, em Rondônia e no norte de Mato Grosso, e moderada no sul de Rondônia. A temperatura média anual fica entre 24,8 ºC (Tarauacá, AC) e 25,2 ºC (Porto Velho, RO), com média no mês mais frio de 23,2 ºC a 23,7 ºC e no mais quente de 25,7 ºC a 25,8 ºC. A mínima absoluta registrada foi de 6 ºC em Rio Branco (AC), mas em plantio em Rolândia, no norte do Paraná, pode chegar a -2 ºC. Na região entre Acre e Rondônia ocorre a friagem, queda brusca da temperatura provocada pelo avanço da Frente Polar vinda da Patagônia, mantendo médias em torno de 10 ºC e podendo atingir 4 ºC por 3 a 8 dias. Geadas estão ausentes na área natural; em plantio misto em Rolândia, a espécie tolerou mínimas de até -2 ºC sem danos evidentes. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Am (tropical chuvoso de monção, com estação seca curta), no Acre, e Aw (tropical de savana, com inverno seco), no Acre, em Mato Grosso e em Rondônia.
Em condições naturais, desenvolve-se em Argissolo Vermelho-Amarelo eutroférrico, um solo ácido e de baixa fertilidade química.