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Foto de Cereja-do-rio-grande

Foto: Cecilia Fer Díaz (CC BY) via GBIF

Cereja-do-rio-grande

Eugenia involucrata

Myrtaceae Mata Atlântica
  • até 15 mAltura
  • Médio portePorte
FrutíferasMadeireirasOrnamentaisMelíferasRecuperação de áreas

Também conhecida como: cerejeira, cerejeira-do-mato, pitanga-preta, cereja, cereja-do-mato, cerejeira-da-terra, cerejeira-do-rio-grande, araçazeiro

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pertencente à família Myrtaceae, a cerejeira é classificada cientificamente como Eugenia involucrata DC., dentro do gênero Eugenia, ordem Myrtales e clado das rosídeas. A espécie foi publicada por De Candolle em 1828 (Prodr. III: 264). São reconhecidos como sinônimos botânicos os nomes Phyllocalyx involucratus (DC.) Berg e Phyllocalyx laevigatus Berg. O nome do gênero homenageia Francisco Eugênio de Saboia-Carignan, o Príncipe de Saboia, militar de destaque e incentivador das artes; já o epíteto involucrata faz alusão à coroa de sépalas e aos restos de bractéolas presentes na base do fruto, que lembram um invólucro. Os nomes populares variam conforme a região: em Minas Gerais é chamada de cerejeira-do-mato e pitanga-preta; no Paraná, de cereja e cerejeira; no Rio Grande do Sul, de cereja, cereja-do-mato, cereja-do-rio-grande, cerejeira, cerejeira-da-terra, cerejeira-do-mato e cerejeira-do-rio-grande; em Santa Catarina, de araçazeiro, cereja, cerejeira e cerejeira-do-mato; e em São Paulo, de araçazeiro, cereja, cereja-do-rio-grande e cerejeira-do-rio-grande.

Descrição botânica

Trata-se de uma planta perenifólia que pode se apresentar como arbusto, arvoreta ou árvore. Os exemplares de maior porte chegam a cerca de 15 m de altura e 40 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo) quando adultos. O tronco é reto, com fuste que alcança até 7 m de comprimento, e a casca, de até 5 mm de espessura, é lisa e de tom acinzentado claro, desprendendo-se em placas conforme a planta engrossa. A ramificação é cimosa, formando uma copa estreita, alongada e de ramificação mediana, com galhos firmes e folhagem densa de cor verde-brilhante; os raminhos novos podem ser levemente pubérulos. As folhas são simples, opostas e de consistência cartácea, com nervuras salientes e coloração verde-escura, medindo de 5 a 10 cm de comprimento por 2 a 3 cm de largura — as mais jovens são submembranáceas, verde-claras, e recobrem os ramos floríferos. As flores, brancas, são hermafroditas, grandes, vistosas, pentâmeras e dotadas de numerosos estames, surgindo na primavera, geralmente nos galhos do ano anterior. Os frutos são bagas piriformes, lisas e glabras, de formato obovado a obovado-oblongo, que passam do verde (imaturos) ao vermelho e cor-de-vinho ao amadurecer; medem de 1,3 a 2,3 cm de comprimento, pesam em média 5 g e trazem em seu interior de 1 a, raramente, 5 sementes, coroados pelas sépalas e, às vezes, por restos de bractéolas na base. As sementes têm coloração cinéreo-amarelada, formato irregular e dimensões que variam de 5 mm x 6 mm a 10 mm x 8 mm.

Uso e ecologia
alimentíciopaisagismorecuperação de áreasmadeireiroapícola
Produtos e utilizações

Os frutos são saborosos e próprios para o consumo humano, com polpa suculenta e agridoce, apreciados tanto in natura quanto na forma de doces, geleias e licores. No Sul do Brasil, a cerejeira é amplamente cultivada em pomares domésticos, especialmente entre colonos teuto-brasileiros; em São Leopoldo (RS), um exemplar tido como produtivo por cerca de dois séculos foi declarado por lei monumento municipal e patrimônio público. Os frutos também servem de alimento abundante para animais domésticos, sobretudo suínos. A madeira é densa (0,90 a 0,98 g/cm³), de cor branco-pardacenta, compacta, elástica, muito resistente e durável; na Região Metropolitana de Curitiba (PR), é empregada na confecção de cabos de ferramentas e utensílios domésticos. Embora não sirva para celulose e papel, fornece lenha e carvão de ótima qualidade. As flores são melíferas, com potencial apícola. Ensaios de crescimento em plantios no Paraná registraram, em Latossolo Vermelho distroférrico, sobrevivência de 100% e alturas médias de 1,52 m (4 anos, 2 x 2 m), 2,03 m (4 anos, 5 x 5 m) e 3,22 m (7 anos, 5 x 5 m).

Aspectos ecológicos

Classificada como espécie secundária tardia, a cerejeira não é muito frequente em florestas primárias, mas raramente é vista fora de ambientes florestais, ocorrendo sempre associada a outras árvores. Prefere os sub-bosques mais desenvolvidos da Floresta Ombrófila Mista, em solos úmidos e relevo plano ou pouco acidentado. No bioma Mata Atlântica, é registrada na Floresta Estacional Decidual (formação das Terras Baixas, no Rio Grande do Sul), na Floresta Estacional Semidecidual (formações Submontana e Alto-Montana, em Minas Gerais), na Floresta Ombrófila Densa (formação Montana, no Planalto de Ibiúna, SP, e Alto-Montana, no Maciço do Itatiaia, MG) e na Floresta Ombrófila Mista, ou floresta com araucária (formações Montana e Alto-Montana, em Minas Gerais, Paraná, no Maciço do Itatiaia, no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, com frequência de até quatro indivíduos por hectare). Também aparece em ambientes fluviais ou ripários de Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e São Paulo. Na Ilha de Santa Catarina é considerada muito rara.

Floração e frutificação

A floração ocorre de julho a outubro no Paraná, de setembro a outubro em Minas Gerais e São Paulo e de setembro a novembro no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina; em áreas fragmentadas de Floresta Ombrófila Mista em Colombo (PR), observou-se que cada evento de floração dura cerca de 60 dias e acontece no período mais frio e menos chuvoso, entre julho e agosto. Os frutos amadurecem de setembro a novembro no Paraná, de outubro a dezembro no Rio Grande do Sul, de novembro a dezembro em Santa Catarina e São Paulo e de dezembro a janeiro em Minas Gerais, com pico de frutificação em setembro e outubro, no início das chuvas. Em solo fértil, as plantas cultivadas começam a frutificar do 6º ao 7º ano, e uma única árvore pode render mais de mil frutos por safra ao longo de até 200 anos.

Fauna associada

A espécie é hermafrodita e autógama. Durante a antese, suas flores são visitadas por abelhas (Apis mellifera), mais ativas no começo da manhã e no fim da tarde — esses insetos são apontados como os principais polinizadores da cerejeira-do-mato, dado o comportamento e a frequência de visitas. A dispersão de frutos e sementes é predominantemente zoocórica, com destaque para as aves, como o sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris); a árvore também atrai sanhaços, gaturamos, saíras e bem-te-vis, entre outros, e seus frutos são bastante procurados pela fauna silvestre.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começarem a cair espontaneamente, ou recolhidos do chão logo após a queda. Em seguida, são despolpados manualmente em água corrente, com auxílio de uma peneira, e as sementes postas para secar à sombra. Cada quilo reúne cerca de 7 mil sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. Por serem recalcitrantes, têm viabilidade muito curta em armazenamento — não passa de duas semanas —, motivo pelo qual não se recomenda guardá-las. Em laboratório, os melhores índices de germinação e vigor foram obtidos com semeadura sobre areia e entre vermiculita.

Produção de mudas

A semeadura rende mais quando feita diretamente em embalagens individuais, o que também facilita o transplante para o local definitivo, já que o pegamento de raiz nua nem sempre é satisfatório. A germinação é hipógea ou criptocotiledonar, com emergência iniciando de 30 a 40 dias após a semeadura, em geral com desempenho germinativo baixo. A propagação vegetativa por mergulhia é possível, mas desaconselhada, pois os ramos eretos da planta dificultam dobrá-los até o solo; quando enterrados, levam cerca de 6 meses para enraizar, podendo então ser gradualmente separados da planta-mãe. Em ensaios com estacas de ramos do ano e de brotação basal, o tratamento com ácido indolbutírico (AIB) a 3.000 mg/kg e com um enraizante natural comercial resultou em taxas de enraizamento de 27,3% e 25,2%, respectivamente, contra 21,2% nas testemunhas sem regulador vegetal.

Características silviculturais

Espécie esciófila e tolerante a baixas temperaturas, a cerejeira tem ramificação simpodial, irregular e variável, tronco curto sem dominância apical definida e copa bastante ramificada. Como sua desrama natural é deficiente, exige podas periódicas de condução e de galhos. Recomenda-se plantá-la a pleno sol, em sistema puro ou misto. No Sul do Brasil, é tradicionalmente integrada ao sistema de faxinal, um modelo agroflorestal.

Crescimento e produção

Há poucos registros sobre o crescimento da cerejeira em plantios.

Clima

A precipitação média anual em sua área de ocorrência varia de 1.000 mm, em São Paulo, a 2.500 mm, no Rio de Janeiro, com chuvas bem distribuídas na Região Sul (exceto no norte do Paraná) e periódicas nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula no Sul (salvo no norte do Paraná), pequena no verão do sul gaúcho e de pequena a moderada no inverno do centro e leste paulista. A temperatura média anual fica entre 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) e 21,9 ºC (Uberaba, MG); a média do mês mais frio varia de 8,2 ºC a 18,5 ºC e a do mês mais quente de 19,7 ºC (Resende, RJ) a 24,7 ºC (Porto Alegre, RS). A mínima absoluta registrada foi de -11,6 ºC (Xanxerê, SC), podendo chegar a -17 ºC na relva em pontos do Planalto Sul-Brasileiro. O número de geadas vai de 0 a 30 por ano em média, com máximo absoluto de 81 na Região Sul e em Campos do Jordão. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Af (litoral do Paraná), Aw (oeste de Minas Gerais), Cfa, Cfb, Cwa e Cwb, conforme a região.

Solos

A cerejeira-do-mato exige solos de fertilidade química alta, bem drenados e de textura areno-argilosa, não se desenvolvendo em terrenos encharcados. Adapta-se bem a solos de origem granítica, eruptiva, sedimentar e aluvial.