Foto: Sinaloa Silvestre (CC0) via GBIF
Cedro-rosa
Cedrela odorata
- até 40 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: cedro-vermelho, cedro, cedrinho, cedro-aromático, cedro-cheiroso, cedro-fêmea, cedro-verdadeiro, cedro-de-mato-grosso, acaju, cedro-do-brejo, cedro-branco, cedrilho, cedro-amargo
Botânica
Pelo sistema de classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado Eurosídeas II, ordem Sapindales, família Meliaceae, subfamília Swietenioideae e gênero Cedrela. O binômio é Cedrela odorata, descrito por Linnaeu e publicado pela primeira vez em 1759 (Syst. Pl. ed. 10. 940). A espécie possui sinonímia extensa, sendo os nomes mais citados na literatura Cedrela mexicana Benth., Cedrela glaziovii, Cedrela occidentalis C. de Candolle & Rose, Cedrela yucatana S. F. Blake, Cedrela palustris e Cedrela cubensis. No comércio internacional é conhecida como spanish cedar. Quanto à etimologia, o nome do gênero deriva de Cedrus, em alusão ao aroma da madeira, semelhante ao do verdadeiro cedro (Cedrus libani); a raiz grega kedros remete a keein/kaiein (queimar, perfumar, purificar), pois o lenho era usado para aromatizar ambientes. Já o epíteto odorata vem do latim e significa perfumada, em referência ao cheiro agradável de sua madeira.
Árvore decídua que, na fase adulta, costuma alcançar cerca de 40 m de altura e 170 cm de DAP, havendo registros excepcionais de exemplares com 60 m e 300 cm de DAP. É uma planta longeva. Observou-se que indivíduos crescendo diretamente sobre afloramentos calcários perdem as folhas e rebrotam mais cedo do que os do entorno, sinal de uma estratégia eficiente de economia de água. O tronco é reto e cilíndrico, por vezes com sapopemas de 1 m a 3 m, e o fuste pode chegar a 20 m. A ramificação é dicotômica e a copa, densa, arredondada ou levemente achatada, de tamanho variável, com ramos eretos ou tortuosos e folhagem que se destaca pela beleza. A casca atinge até 30 mm de espessura; a externa (ritidoma) é tipicamente acinzentada a parda, podendo chegar a cinzento-escura, rugosa e fissurada longitudinalmente, e ao se fazer incisões na casca interna libera-se um cheiro característico que facilita a identificação. As folhas são compostas, em geral paripinadas (raramente imparipinadas, com folíolo terminal abortivo), agrupadas no fim dos raminhos, com 5 a 11 pares de folíolos e comprimento de 20 cm a 1 m; o pecíolo é glabro ou levemente puberulento. Os folíolos medem de 5 cm a 16 cm de comprimento por até 7 cm de largura, são sésseis, sub-opostos ou alternos, ovado-lanceolados e muitas vezes falcados, com base obliquamente truncada, aguda ou arredondada, ápice curtamente acuminado ou agudo e assimétrico, coriáceos, verde-brilhantes na face superior e mais pálidos por baixo, geralmente glabros ou com poucos pelos curtos junto às nervuras. Quando esmagadas entre as mãos, as folhas exalam odor de alho, mais intenso no auge da floração. A inflorescência é uma panícula cimosa aberta, terminal ou subterminal, larga, ramificada, pendente e lenticelada, de 15 cm a 50 cm de comprimento. As flores são pequenas, curto-pediceladas, de coloração branco-esverdeada ou esbranquiçada, com odor desagradável e pétalas cobertas de pelos amarelados. O fruto é uma cápsula lenhosa deiscente, oblonga a obovoide, pendente, com 4 a 5 valvas, de cor pardacenta a parda-acinzentada, com lenticelas pequenas e brancas, contendo de 30 a 40 sementes e inserida em infrutescências pêndulas de até 30 cm. A semente é brilhante, parda, leve, plana e ovoide, medindo de 5 mm a 6 mm (ou de 18 mm a 20 mm com a asa).
Uso e ecologia
A madeira do cedro-vermelho é considerada uma das melhores do Brasil. Apresenta densidade aparente de 0,33 a 0,70 g/cm³ (leve a moderadamente densa) e densidade básica de 0,38 g/cm³; o cerne varia do castanho-claro ao bege-rosado-escuro e ao castanho-avermelhado, distinto do alburno róseo-pálido. Tem grã direita ou levemente ondulada, textura grosseira, cheiro aromático e sabor um pouco amargo, é muito durável, de lustre mediano a elevado com reflexos dourados e fácil de trabalhar tanto com máquinas quanto com ferramentas manuais, recebendo bom acabamento. É amplamente empregada em marcenaria, carpintaria, compensados e laminados, móveis de luxo, decoração de interiores, molduras, instrumentos musicais, esquadrias, construção civil e naval, indústria aeronáutica, caixas de charuto e esculturas religiosas; no Acre é usada para fabricar telhas e cochos. A espécie também fornece lenha de boa qualidade, mas é inadequada para celulose e papel. As sementes são procuradas por artesãos amazônicos para bijuterias e enfeites, as folhas servem de forragem em algumas regiões do Equador e do óleo comercial extraem-se constituintes como α-copaeno, β-elemeno, α-muuroleno, calameneno, guaiazuleno e torreiol. Na medicina tradicional do Brasil e de outros países sul-americanos, folhas e cascas são usadas em cozimentos para banhos, para baixar a febre e aliviar dores e cólicas; atribuem-se a elas propriedades adstringentes, antirreumáticas e antimaláricas, sendo as sementes vermífugas e a casca febrífuga e abortiva. As propriedades antimaláricas foram confirmadas em estudo in vitro contra Plasmodium falciparum.
É uma espécie secundária tardia, embora alguns autores a apontem como pioneira de rápido crescimento em florestas secundárias. Apesar da vasta área de distribuição, não é abundante, ocorrendo de forma dispersa na mata. Em florestas primárias, ocupa o dossel superior ou a posição emergente. A regeneração natural é baixa (cerca de 30%), em razão da reduzida germinação das sementes; regenera-se em grandes clareiras, áreas desmatadas e pastagens, mas com poucas chances de sobrevivência por causa do ataque da broca-do-broto-terminal (Hypsipyla grandella). Por ser uma madeira valiosa, vem sendo ameaçada pela exploração predatória e pela fragmentação florestal, sendo considerada vulnerável no Mato Grosso e no Pará; de uma área de ocorrência de 9.096,74 km², cerca de 39,79% já desapareceu. Estudos genéticos mostram maior diversidade nas populações de floresta do que nas de pastagem, com perda de alelos nestas últimas. Ocorre em diversas formações: na Amazônia, em Floresta Ombrófila Aberta e Densa (terra firme e várzea); na Mata Atlântica, em Florestas Estacionais Decidual e Semidecidual e na Floresta Ombrófila Densa; na Caatinga, em Vegetação Caducifólia Espinhosa Arbórea; além de matas ciliares, brejos de altitude nordestinos, florestas de brejo e vegetação sobre afloramentos calcários.
A floração varia conforme a região: outubro a janeiro em Minas Gerais, outubro a maio na Bahia, dezembro a fevereiro em Pernambuco, março a junho no Pará e maio a setembro em São Paulo. Árvores isoladas florescem com abundância. A frutificação ocorre de fevereiro a junho em Pernambuco, março a agosto em São Paulo, março a setembro no Acre, outubro a dezembro no Pará e dezembro a julho em Minas Gerais. A reprodução tem início por volta dos 15 anos em plantios; o fruto leva de 9 a 10 meses para se desenvolver, amadurecendo na estação chuvosa do ano seguinte.
A espécie é monoica e predominantemente alógama, pois é protogínica (as flores femininas abrem antes das masculinas); a estimativa de taxa de fecundação cruzada (0,969) sugere que seja autoincompatível. A polinização é feita por mariposas (esfingofilia) e por pequenos insetos. A dispersão é principalmente anemocórica: a asa lateral da semente permite o movimento de autogiro pelo vento. As sementes também são procuradas por psitacídeos (papagaios).
Plantio e silvicultura
A colheita deve ocorrer na maturidade fisiológica, de 2 a 3 semanas antes da deiscência natural, quando os frutos mudam do verde para o marrom-esverdeado ou marrom-claro. Depois de colhidos, devem secar em local ventilado para completar a abertura; para liberar todas as sementes, agitam-se os frutos, evitando exposição ao sol. Cada quilo contém de 18.500 a 55.000 sementes (em lotes com 11,05% de umidade chegaram a 56.338 com asa e 64.020 sem asa). Não há necessidade de tratamento pré-germinativo, mas a imersão em água por 24 horas antes da semeadura torna a germinação mais uniforme. A semente é ortodoxa: perde rapidamente a viabilidade em ambiente comum, porém, armazenada a 5 ºC, em recipiente hermético e com baixa umidade, mantém-se viável por anos, atingindo 90% de germinação após 4 anos; no Haiti, com 6% a 7% de umidade e a 40 ºC, conservou a viabilidade por mais de 10 anos. Em laboratório, a germinação é adequada a 25–30 ºC sobre papel ou vermiculita, com contagens inicial e final aos 11 e 16 dias.
Recomenda-se semear em sementeiras para posterior repicagem, ou colocar duas sementes em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura e 7 cm de diâmetro, ou ainda em tubetes de 200 cm³. A repicagem é feita quando as plântulas atingem 5 cm a 8 cm e surgem as primeiras folhas verdadeiras. Na Costa Rica, semeiam-se cerca de 2 mil sementes (40 g) por m², a 0,5–1,5 cm de profundidade, deixando a asa para fora. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 5 e 75 dias e poder germinativo bastante variável (de 13,1% a 95%; na Amazônia Oriental, 82% com 11,05% de umidade). As mudas ficam aptas ao plantio cerca de 4 meses após a semeadura em recipientes, ou de 6 a 7 meses como pseudoestacas, e mudas maiores (40 cm a 80 cm) apresentam bom pegamento no campo. A espécie forma associações simbióticas com fungos micorrízicos (Glomus, Gigaspora, Sclerocystis, Entrophospora colombiana), que beneficiam o desenvolvimento das raízes. Pode também ser propagada por estacas de 6 cm tratadas com 0,2% de AIB, mantendo-se algumas folhas e usando areia como substrato, para multiplicar genótipos superiores.
É uma espécie heliófila e medianamente tolerante a baixas temperaturas. Quando atacada pela broca-do-cedro (Hypsipyla grandella), o crescimento torna-se irregular; livre do ataque, apresenta boa forma e ramificação leve. Tem derrama natural deficiente, exigindo podas de condução frequentes, e os exemplares atacados pela broca devem receber podas corretivas anuais nos três primeiros anos. Por sua alta suscetibilidade à praga, deve ser cultivada em plantios mistos, com 10 a 15 árvores por hectare, de preferência junto a espécies de outras famílias e de crescimento mais rápido. No Acre, teve melhor desempenho a pleno sol; em linhas de enriquecimento na capoeira, são necessárias podas de liberação para corrigir o entortamento do fuste em busca de luz. É bastante usada em sistemas agroflorestais: no Brasil, é mantida em cabrucas de cacau no sul da Bahia e atua como sombreadora de SAFs no Acre; no exterior, sombreia cafezais na Costa Rica, no Haiti e na Nicarágua. Espaçamentos maiores (6 m x 6 m a 9 m x 9 m) favorecem maior incremento diamétrico (2 cm a 3 cm por ano). Fora de sua área natural, é cultivada na África (Gana, Nigéria, Serra Leoa, Tanzânia) e em países asiáticos como a Malásia. Para a conservação genética, recomenda-se manter bancos de germoplasma sob abrigo seletivo e controle da praga, além de redes de minibancos in situ que preservem a variabilidade da espécie.
O crescimento é variável, indo de lento a rápido, podendo alcançar até 22 m³/ha/ano. Sem danos da broca e em boas condições de sítio e luz, o incremento médio anual nos primeiros anos fica entre 1,30 m e 1,60 m em altura e entre 1,3 cm e 1,6 cm em DAP, conforme plantios na Nicarágua e em Honduras. Recomenda-se o corte quando as árvores atingem 45 cm de DAP, equivalente a 1,8 m³ e a um fuste comercial de 15 m, dimensões alcançadas por volta dos 40 anos; rotações mais curtas (18 a 25 anos) rendem maior volume total (11 a 22 m³/ha/ano), porém com toras menores. No Brasil, o crescimento é lento, com produção de até 4,15 m³/ha/ano aos 15 anos no Pará e até 9,80 m³/ha/ano aos 11 anos no Amazonas.
A precipitação anual no Brasil vai de 650 mm, em Pernambuco, a 2.500 mm, no Amazonas (fora do país, de 830 mm no Haiti a 10.000 mm na Colômbia), com chuvas bem distribuídas em Campos do Jordão (SP) e periódicas nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula no Amazonas, de pequena a moderada no Amapá e no Pará, moderada no inverno do oeste paulista e de moderada a forte no norte do Maranhão. A temperatura média anual varia de 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) a 26,5 ºC (Macapá, AP), podendo a mínima absoluta chegar a -2,6 ºC em Santa Maria (RS) e -7,3 ºC em Campos do Jordão. Na maior parte da área de ocorrência não há geadas, que são raras em Santa Maria e frequentes em Campos do Jordão. Pela classificação de Köppen, a espécie ocorre em climas Af, Am, As, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb, abrangendo desde o tropical úmido até o subtropical e o temperado de altitude.
Para se desenvolver bem, o cedro-vermelho exige solos férteis, profundos, úmidos e bem drenados, com bons teores de fósforo, potássio e cálcio. Na Amazônia, também ocorre em solos argilosos e arenosos de baixo pH e baixa CTC. A matéria orgânica e a calagem parecem influenciar o desempenho das árvores. Os melhores exemplares costumam aparecer em solos profundos, de relevo ondulado, cuja textura favorece a aeração e a movimentação do lençol freático.