Foto: Tiago Lubiana (CC0) via GBIF
Cedro-rosa
Cedrela fissilis
- 10 a 25 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: cedro, cedro-branco, cedro-amarelo, cedro-batata, cedro-vermelho, cedro-roxo, cedro-verdadeiro, cedro-rosado, cedro-fofo, cedro-cetim, cedrinho, cedro-da-bahia, cedro-do-campo, cedro-da-várzea, acaiacá, acaju, capiúva, iacaiacá
Botânica
Pertencente à família Meliaceae e à ordem Sapindales, a espécie foi descrita por Vellozo em 1825. É conhecida cientificamente como Cedrela fissilis e já recebeu diversos sinônimos botânicos ao longo do tempo, como Cedrela brasiliensis, Cedrela huberi, Cedrela macrocarpa e Cedrela tubiflora, entre outros. O nome do gênero remete a Cedrus, o cedro verdadeiro, em razão do aroma que a planta exala — a raiz grega kedros liga-se ao ato de queimar e perfumar, já que sua madeira era empregada para aromatizar ambientes. Já o epíteto fissilis tem origem latina e indica algo que se fende com facilidade, em referência à madeira de fácil rachadura.
Árvore caducifólia que costuma medir de 10 a 25 m de altura e ter de 40 a 80 cm de diâmetro à altura do peito (DAP), podendo chegar a 40 m e até 300 cm de DAP quando adulta. Um traço marcante é o cheiro de alho liberado por qualquer parte da planta ao ser amassada. O tronco é cilíndrico, reto ou levemente tortuoso, com fuste de até 15 m e sapopemas ausentes ou pouco evidentes. A copa é alta, densa e múltipla, de formato corimbiforme, com ramificação dicotômica. A casca chega a 40 mm de espessura; por fora é marrom a pardo-acinzentada, marcada por fissuras longitudinais profundas e largas bastante características, e por dentro é avermelhada a amarelada, com odor agradável. As folhas são compostas e paripinadas, geralmente de 25 a 45 cm (podendo alcançar 140 cm), polimorfas, com 8 a 30 pares de folíolos oblongo a ovado-lanceolados que medem de 6,5 a 24 cm de comprimento por 2 a 6,5 cm de largura; quando destacadas, exalam um odor desagradável que lembra cebola. A espécie tem a maior densidade estomática entre os táxons da família Meliaceae. As flores são unissexuais por aborto — as masculinas mais alongadas e com maturação em momento distinto das femininas —, têm cerca de 12 mm, pétalas branco-esverdeadas às vezes rosadas no ápice, e se agrupam em tirsos axilares que em média alcançam 30 cm, chegando a 60 cm. O fruto é uma cápsula piriforme, deiscente e lenhosa, de cor marrom-escura com lenticelas claras, que se abre por cinco valvas; mede de 3 a 10 cm de comprimento por cerca de 3 a 3,5 cm de largura, pesa por volta de 13 g e abriga em média 45 sementes distribuídas em cinco lóculos (variando de 30 a 100 sementes viáveis). As sementes são aladas em uma das pontas, comprimidas lateralmente, de tom bege a castanho-avermelhado, com até 35 mm por 15 mm.
Uso e ecologia
A madeira do cedro varia de leve a moderadamente densa (0,47 a 0,61 g/cm³ a 15% de umidade, com massa específica básica de 0,44 g/cm³), tem superfície lustrosa de reflexos dourados, textura grosseira e grã direita ou levemente ondulada, além de cheiro agradável característico e leve gosto amargo. O alburno é branco a rosado e o cerne vai do bege rosado-escuro ao castanho-avermelhado. Apresenta resistência moderada a organismos xilófagos e boa durabilidade ao ar livre, exceto quando enterrada ou submersa. Seca com facilidade, sem empenar ou rachar, e é fácil de trabalhar com ferramentas manuais ou mecânicas, com boa retenção de pregos e parafusos e excelente acabamento. Entre as madeiras leves, é uma das de uso mais versátil, perdendo apenas para o pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifolia); assemelha-se à do mogno (Swietenia macrophylla), porém é mais mole, e é considerada de qualidade inferior à do cedro-rosa (Cedrela odorata). Tem aplicação na construção civil (venezianas, rodapés, forros, caixilhos, janelas, lambris), na construção naval (acabamentos internos e cascos de embarcações leves), em partes internas de móveis finos, folhas faqueadas, contraplacados, molduras, instrumentos musicais, obras de entalhe e cabos de vassoura. Serve como lenha de boa qualidade, mas é inadequada para celulose e papel. A destilação da madeira gera óleo essencial que, mesmo em baixo teor, ajuda a repelir cupins e outros insetos, e tanto a casca quanto o lenho contêm substâncias tanantes. A forragem, com 14,5% de proteína bruta e 20% de tanino, é imprópria para alimentação animal.
Classifica-se como espécie secundária inicial a tardia, podendo chegar a clímax exigente de luz. É uma árvore rara no interior da floresta primária, onde se regenera sobretudo em clareiras menores que 60 m² e nas bordas de mata, mas mostra grande agressividade na vegetação secundária, em capoeirões e florestas em regeneração. Aparece com frequência na Floresta Ombrófila Densa (formações Montana e Submontana), na Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária, onde é comum em várias formações) e nas florestas estacionais semidecidual e decidual; na Amazônia é restrita às matas de terra firme do Pará, e é rara nos encraves vegetacionais do Nordeste, nos campos da Mantiqueira e no cerradão. Sua densidade é baixa nas florestas do Sul do Brasil, em torno de 1 a 7 árvores por hectare — reflexo tanto da pressão da broca-do-cedro (Hypsipyla grandella) quanto do comportamento oportunista da espécie, que depende de clareiras para se desenvolver plenamente. No Parque Nacional do Iguaçu chegou a representar 6,05% das essências de maior valor econômico, enquanto na Selva Misionera (Misiones, Argentina) foram registrados de 11 a 43 exemplares por hectare.
A floração varia conforme a região: ocorre de agosto a setembro em Goiás; de agosto a dezembro em Minas Gerais; de setembro a novembro no Rio Grande do Sul; de setembro a dezembro em Santa Catarina; de setembro a janeiro no Paraná e em São Paulo; de outubro a fevereiro na Bahia; em janeiro no Pará; e de janeiro a março no Espírito Santo. Na região de Viçosa (MG), o pico se dá em outubro. A frutificação também é escalonada: os frutos amadurecem de abril a agosto no Rio Grande do Sul; de maio a julho em Minas Gerais; de junho a julho no Espírito Santo; de junho a setembro em São Paulo; de julho a agosto no Paraná e em Santa Catarina; de agosto a setembro no Rio de Janeiro; e de novembro a fevereiro em Goiás. Em Viçosa, o ciclo de frutificação dura cerca de 10 meses, e boa parte dos frutos já abertos permanece na árvore até a estação seguinte. A reprodução começa entre 10 e 15 anos de idade em plantios.
Planta hermafrodita ou monoica, com flores unissexuais por aborto e reprodução alógama. A polinização provavelmente é feita por mariposas e abelhas. As sementes se dispersam pela queda ao solo, dentro do próprio fruto, ou pela ação do vento. As folhas novas servem de alimento ao macaco-bugio (Alouatta fusca).
Plantio e silvicultura
A maturidade fisiológica das sementes acontece entre 29 e 31 semanas após a antese, com umidade de 50% a 60%, e o melhor momento de colheita fica entre 30 e 32 semanas, quando os frutos perdem umidade e liberam mais facilmente as sementes. Nesse estágio, os frutos mudam do verde para tons marrom-esverdeados a marrom-claros, cerca de 2 a 3 semanas antes da abertura natural. Depois de colhidos, devem completar a deiscência em local seco e ventilado, soltando as sementes ao serem agitados. Cada quilo contém de 14.700 a 56.818 sementes, que não apresentam dormência e dispensam tratamento prévio. A viabilidade cai gradualmente em ambiente com baixa umidade: em sala, perdem 20% da capacidade germinativa em 60 dias, mas em câmara fria e baixa umidade mantêm a viabilidade integral por até 3 anos. Sementes liofilizadas a 4% de umidade, em frascos vedados e guardadas em sala, ainda germinaram 65% após 520 dias, enquanto as não liofilizadas perderam a viabilidade. Estudos em Pelotas (RS) indicaram que sementes com cerca de 10% de umidade mantidas dentro dos frutos preservam a qualidade por 6 meses, e que câmara fria e câmara seca foram ineficientes para conservá-las nessas condições. Em laboratório, germinam mais rápido a 30 ºC e são favorecidas por luz constante; o substrato sobre vermiculita rendeu a maior porcentagem de plântulas normais (48%).
Recomenda-se semear em sementeiras para posterior repicagem, ou colocar duas sementes em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou ainda em tubetes de polipropileno de 200 cm³ com substrato de composto orgânico (80%) e moinha de carvão moída (20%); antes da semeadura, convém retirar as asas das sementes. A repicagem é feita de 4 a 6 semanas após a germinação. A germinação é epígea e tem início entre 5 e 75 dias após a semeadura, com poder germinativo bastante variável (35% a 95%, média de 60%). As mudas ficam aptas ao plantio cerca de 4 meses depois, e exemplares maiores (40 a 80 cm de altura) pegam bem no campo. A espécie responde bem ao transplante com raiz nua. A propagação vegetativa também é viável: as estacas enraízam com relativa facilidade — é comum mourões de cerca rebrotarem e virarem árvores —, e estacas de raízes de 30 cm x 10 cm em areia lavada úmida tiveram mais de 80% de pegamento. O cedro ainda se propaga por rebentos de raízes, e técnicas como cultura in vitro, micropropagação a partir de ápices de plântulas e miniestaquia a partir de material seminal mostraram bom potencial, sendo esta última uma alternativa quando a semente é insumo limitante.
No estágio juvenil o cedro é parcialmente esciófilo e, quando adulto, heliófilo. Tolera baixas temperaturas de modo variável (de mediano a tolerante), e em florestas naturais árvores adultas suportam até -10,4 ºC. O hábito torna-se irregular quando há ataque da broca-do-cedro (Hypsipyla grandella); livre da praga, apresenta boa forma e ramificação leve. Como tem desrama natural deficiente, exige podas de condução e de galhos periódicas, e os exemplares atacados devem receber podas corretivas anuais nos três primeiros anos. O plantio puro a pleno sol é desaconselhado pela alta vulnerabilidade à broca — tentativas desse tipo no Brasil resultaram em fracasso. Por produzir mais sob luz menos intensa, a espécie é indicada para plantios mistos: sugere-se consorciá-la com Syzygium cumini no Nordeste ou com cinamomo (Melia azedarach) para reduzir a incidência da praga. Em vegetação arbórea matricial, planta-se em faixas abertas nas capoeiras e em linhas nas florestas exploradas, com densidade nunca superior a cem árvores por hectare; a árvore rebrota após o corte, sobretudo quando jovem. Em sistemas agroflorestais, é mantida em pastagens em Minas Gerais e usada na Bolívia como quebra-vento, em cortinas de três ou mais fileiras de espécies mistas, plantada de 15 a 20 m entre árvores. Estudos de melhoramento genético em mudas de 2 anos indicam que a seleção por procedências traz ganhos maiores que a seleção por progênies, e identificaram procedências mais resistentes ao ataque da broca.
O ritmo de crescimento é muito variável e depende da intensidade do ataque da broca-do-cedro. Em Cascavel (PR), o incremento médio anual em volume de 3,25 m³/ha aos 10 anos torna a espécie inviável para plantios comerciais na região.
A precipitação anual média associada à espécie vai de 750 mm, em Morro do Chapéu (BA), a 3.700 mm, na Serra de Paranapiacaba (SP). O regime de chuvas varia de precipitações de inverno no extremo Sul e distribuição uniforme na Região Sul e nos arredores de Belém, a chuvas concentradas no verão do norte do Paraná para cima. A deficiência hídrica vai de nula, sem estação seca definida no Sul, a moderada (até 3 meses de seca) no Centro-Oeste e Sudeste e forte (até 6 meses) no norte de Minas Gerais. A temperatura média anual fica entre 13,3 ºC (São Joaquim, SC) e 26,4 ºC (Monte Alegre, PA), com mínimas absolutas de -11,6 ºC em Xanxerê (SC) — podendo chegar a -15 ºC na relva — e ocorrência de 0 a 30 geadas por ano, com máximo de 81 no Sul e em Campos do Jordão (SP). Os tipos climáticos de Köppen abrangem temperado úmido (Cfb), subtropical úmido (Cfa), subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e tropical (Af e Aw).
Desenvolve-se melhor em solos profundos, úmidos e bem drenados, de textura argilosa a areno-argilosa. Solos rasos, com camadas de pedras ou lençol freático superficial não favorecem seu desenvolvimento.