Foto: rafa perazzolo (CC BY) via GBIF
Cebolão
Phytolacca dioica
- até 25 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: ceboleiro, embu, maria-mole, umbu, umbuzeiro, figueira, peúdo
Botânica
Pelo sistema de classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à divisão Angiospermae, ao clado das eudicotiledôneas core e à ordem Caryophyllales, dentro da família Phytolaccaceae. A espécie é Phytolacca dioica L., publicada em Sp. Pl. ed. 2. 632. 1762. Entre seus sinônimos botânicos estão Phytolacca populifolia Salisb., Sarcoca dioica Rafin., Phytolacca arborea Hort., Pircunia dioica Moq.-Tand. e Phytolacca dioica L. var. ovalifolia Chod. O nome do gênero combina o grego phytón (planta) com o italiano lacca (verniz ou goma-laca), uma referência ao poder corante dos frutos de algumas espécies do gênero; já o epíteto dioica vem do grego dis (dois) e óikos (casa). No Brasil, recebe nomes diferentes conforme a região: no Paraná é chamada de cebolão, ceboleiro, embu, maria-mole e umbu; no Rio Grande do Sul, de umbu e umbuzeiro; em Santa Catarina, de ceboleiro, figueira, maria-mole, peúdo e umbu; e em São Paulo, de ceboleiro. No exterior é conhecida como ombú (Argentina e Uruguai), bellasombra (Espanha) e yvyra yvypy guasu (Paraguai).
Decídua, vai de erva gigante a árvore, com os exemplares de maior porte chegando perto de 25 m de altura e 150 cm de DAP (diâmetro medido a 1,30 m do solo) quando adultos. O traço mais marcante é a base do tronco, que se alarga muito nos indivíduos adultos e assume um formato irregular de pedestal, do qual partem troncos secundários de espessuras variadas que se prolongam até a parte superior das raízes principais, contornando a superfície do solo de maneira sinuosa. A ramificação é cimosa ou racemosa e a copa, arredondada e levemente alargada, exibe galhos grossos e ascendentes. A casca atinge até 11 mm de espessura: externamente (ritidoma) é semi-áspera, de cor cinza-clara e bem fissurada no sentido longitudinal, com tom marrom-amarelado no fundo dos sulcos e coloração ocrácea quando raspada, enquanto a casca interna é pastosa e amarelada. As folhas são simples, alternas, elípticas e coriáceas, medindo de 8 cm a 30 cm de comprimento por 5 cm a 8 cm de largura, sustentadas por pecíolo longo que se mostra avermelhado quando jovem. As inflorescências são racemosas e terminais, em geral mais longas que as folhas, pendentes ou quase eretas, cilíndricas, de 5,5 cm a 17,5 cm de comprimento, levemente pubescentes e reunindo de 10 a 50 flores. As flores são pequenas, esbranquiçadas, com 5 mm de comprimento, cinco sépalas e nenhuma pétala; as masculinas são brancas e as femininas, verdes ou verde-esbranquiçadas. O fruto é uma baga arredondada, amarela e suculenta, de 1 cm de diâmetro, com 7 a 12 carpelos unidos na base e livres no ápice, a princípio globoso e depois comprimido, contendo uma semente por carpelo. As sementes têm uma carena amarelada circundando a margem.
Uso e ecologia
Os frutos são bastante nutritivos e servem de alimento para porcos, enquanto a polpa pode ser aproveitada no preparo de sucos e doces. A madeira é leve (densidade aparente de 0,44 g/cm³), de cor branca, extremamente macia e sem qualquer resistência ao apodrecimento; por conter pouquíssima lignina, não forma madeira verdadeira, apresentando fibra amarelada, muito branda e fofa. Sinais de deterioração já aparecem durante a secagem, dado o teor altíssimo de água. Ainda assim, pode ser usada na fabricação de caixas. Recém-cortada, a madeira é boa matéria-prima para celulose e papel, com fibras de 0,72 mm de comprimento e teor de lignina e cinza de 16,86%. Como lenha tem péssima qualidade, mas, ao ser reduzida a cinzas, fornece grande quantidade de potassa. Na medicina popular, muito difundida no Sul do Brasil, aproveitam-se casca, raízes, folhas e frutos: o cozimento da casca é usado para lavar os olhos em afecções da córnea; o chá das folhas provoca vômitos e tem efeito purgativo e, em doses pequenas, combate o reumatismo; na Campanha gaúcha, uma mistura de cinza do cebolão com sal é dada ao gado contra bernes e carrapatos. No paisagismo, presta-se à arborização de praças e avenidas, mas, por ter raízes vigorosas e muitas vezes superficiais, não deve ser plantada perto de edificações. Pela beleza do porte é cultivada no exterior, sobretudo nos países do Mediterrâneo, onde se aclimatou tão bem que chegou a sugerir uma origem espanhola.
Trata-se de uma espécie pioneira. É rara dentro da floresta primária e desenvolve-se melhor em sítios abertos; quando ocorre na floresta primária, ocupa o estrato superior, com ramificações vigorosas que dificilmente são quebradas pelo vento. No bioma Mata Atlântica, aparece na Floresta Estacional Decidual, na formação das Terras Baixas do Rio Grande do Sul, com até seis indivíduos por hectare; na Floresta Estacional Semidecidual, nas formações Submontana e Montana do Paraná e de São Paulo, com até quatro indivíduos por hectare; na Floresta Ombrófila Densa, na formação das Terras Baixas do Rio de Janeiro e de Santa Catarina, sendo muito rara na Ilha de Florianópolis; e na Floresta Ombrófila Mista (com araucária), na formação Submontana do Rio Grande do Sul e Montana do centro-sul do Paraná, com até três indivíduos por hectare. Também é encontrada em ambientes fluviais ou ripários do Paraná e de Santa Catarina e em matas de pau-ferro (Myracrodruon balansae) no Rio Grande do Sul, com um indivíduo por hectare.
A floração acontece de agosto a janeiro no Paraná e de setembro a novembro no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem entre janeiro e fevereiro, tanto no Paraná quanto no Rio Grande do Sul.
Espécie dióica, é polinizada principalmente por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão dos frutos e sementes é claramente zoocórica; o cebolão atrai pombas e juritis, entre outras aves.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando começam a cair espontaneamente, ou recolhidos do chão depois da queda. Em seguida, deixam-se em repouso por alguns dias, até começar a decomposição, o que facilita o despolpamento e a extração das sementes; esse processo pode ser feito sob água corrente, em peneira fina. Após secagem rápida, as sementes já estão prontas para a semeadura. Cada quilo reúne cerca de 285.700 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. Em armazenamento, a viabilidade ultrapassa um ano.
A semeadura pode ser feita em sementeiras ou com duas sementes por saco de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou ainda em tubetes de polipropileno de tamanho médio. Quando necessária, a repicagem deve ocorrer de 1 a 2 semanas após a germinação, que é epígea (fanerocotiledonar). A emergência começa de 8 a 16 dias depois da semeadura, com taxa de germinação em geral superior a 90%, e em menos de três meses as mudas atingem porte adequado para o plantio.
Heliófila, a espécie tolera baixas temperaturas, embora em invernos rigorosos as plantas jovens sofram danos, o que reduz sua presença no Planalto Nordeste do Rio Grande do Sul. Tem hábito de formato irregular. É recomendada para plantios mistos e rebrota da touça. Em sistemas agroflorestais, é cultivada como árvore de sombra, sobretudo nos Pampas argentinos, e serve para abrigar o gado nos meses quentes no Rio Grande do Sul.
O crescimento é rápido: em Rolândia, no Paraná, chegou a uma produção volumétrica de até 25 m³/ha/ano aos 7 anos de idade.
A precipitação média anual nas áreas de ocorrência varia de 750 mm, na Bahia, a 1.900 mm, no Paraná. As chuvas são bem distribuídas no sul do Brasil (exceto no norte do Paraná) e periódicas nos demais locais. A deficiência hídrica é nula na Região Sul (com exceção do norte do Paraná), de pequena a moderada no norte do Paraná e também, no inverno, no sul de Minas Gerais e no leste de São Paulo, chegando de moderada a forte na Bahia. A temperatura média anual fica entre 16,6 ºC (Guarapuava, PR) e 24,6 ºC (Itaberaba, BA); a do mês mais frio, entre 12,6 ºC e 21,9 ºC; e a do mês mais quente, entre 20,3 ºC e 26,1 ºC. A temperatura mínima absoluta registrada foi de -8,4 ºC em Guarapuava. As geadas variam de 0 a 13,4 por ano, com máximo absoluto de 27 no Paraná. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Af (litoral do Paraná), Aw (Bahia), Cfa (Senhor do Bonfim na BA, norte do Paraná, Rio Grande do Sul, leste de Santa Catarina e de São Paulo) e Cfb (centro-sul do Paraná).
Cresce naturalmente em solos pedregosos, em várzeas, no início das encostas e, de modo geral, em qualquer solo que não seja muito raso. É tida como excelente indicadora de solos com fertilidade química alta para a agricultura.