Foto: Mateusbotanica2020 (CC BY-SA 4.0) via wikimedia
Caviúna
Machaerium scleroxylon
- 10 a 20 m, podendo chegar a 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: cabiúna, bico-de-pato, caviúna-vermelha, caviúna-rajada, caviúna-paulista, jacarandá-bico-de-pato, jacarandá-cabiúna, jacarandá-verdadeiro, jacarandá-da-caatinga, jacarandá-caviúna, jacarandá-ferro, jacarandá-rosa, jacarandá-tã, jacarandá-violeta, pau-ferro, pau-ferro-do-cerrado, pau-sangue, pau-rosa, pau-violeta, candeia, candeia-do-sertão, violeta, violeta-do-sertão, penanguba, paneguba, sabiúna, suca, coentro
Botânica
A espécie foi descrita por Tulasne em 1844, no volume IV do Arch. Mus. Paris. Pertence à família Fabaceae (subfamília Papilionoideae, das antigas Leguminosae), dentro da ordem Fabales. O nome do gênero Machaerium tem origem grega, em machairion ('pequeno cutelo'), numa referência ao formato do fruto; já o epíteto scleroxylon traduz a expressão 'madeira dura'.
Trata-se de uma árvore perenifólia que, na fase adulta, mede em geral de 10 a 20 m de altura, com diâmetro à altura do peito entre 30 e 50 cm, mas exemplares podem alcançar até 30 m e 80 cm de diâmetro. O tronco é reto ou um pouco tortuoso e acanalado, às vezes com sapopemas na base, e o fuste chega a 10 m. Toda a planta, inclusive as brotações, exibe espinhos de até 5 cm. A ramificação varia de dicotômica a irregular, formando copa ampla e pouco densa, de folhagem verde-clara, com ramos finos providos de pequenos espinhos. A casca tem até 15 mm de espessura: a externa é lisa, cinza-escura a marrom-escura, lenticelada e esfolia-se com facilidade, desprendendo placas estreitas e alongadas que deixam marcas claras e lisas no tronco, enquanto a interna é avermelhada e fibrosa. As folhas são compostas, com 11 a 17 pares de folíolos de 2 a 4 cm, dois espinhos na inserção e raque e pecíolo felpudos. As flores, sésseis e roxo-escuras, medem de 6 a 9 mm, são aromáticas e se agrupam em pequenas panículas de espigas axilares ou quase terminais, recobertas de pelos avermelhados. O fruto é uma sâmara estipitada de 4 a 5 cm de comprimento por 2 cm de largura, com núcleo seminal e asa finamente reticulada de tom pardo-claro. A semente é pequena, variando de marrom-clara a escura.
Uso e ecologia
A madeira é o principal produto da caviúna, empregada tanto serrada quanto em forma roliça. Na construção civil presta-se a caibros, vigas, ripas, marcos de portas e janelas, venezianas, tábuas e tacos de assoalho; também é usada em móveis finos e de luxo, painéis, marchetaria, peças torneadas, molduras, objetos de adorno, faqueados, lambris, tacos de bilhar e cabos de ferramentas. Como combustível, fornece lenha de boa qualidade, mas não serve para celulose e papel. Trata-se de uma madeira densa, com massa específica entre 0,80 e 0,99 g/cm³ a 15% de umidade. O alburno é amarelado e bem distinto do cerne, que é variável, do pardo-acastanhado-avermelhado com listras longitudinais mais escuras. A superfície é lisa ao tato e de brilho irregular, com textura fina e uniforme, cheiro agradável pouco perceptível e gosto imperceptível. É bastante resistente ao ataque de organismos xilófagos em condições propícias ao apodrecimento, embora o alburno seja suscetível a fungos; tem baixa permeabilidade a soluções preservantes. Considerada madeira-de-lei, é usada em serrarias como substituta do jacarandá-da-bahia (Dalbergia nigra). Atenção: o pó gerado na serragem pode provocar reação alérgica, devido à presença de dalbergiones, em especial o R-3,4-dimethoxydalbergione e o quinol, responsáveis pelos efeitos sensibilizantes.
É uma espécie secundária tardia, comum na vegetação secundária, como capoeirões e florestas secundárias, surgindo também em áreas abertas e pastagens. Cresce sobretudo na Floresta Estacional Semidecidual, mas aparece ainda na Floresta Estacional Decidual sobre afloramentos de calcário em Minas Gerais e no Vale do Rio Paranã (Goiás), e na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica). Eventualmente é registrada no Cerrado e na Caatinga Arbórea do norte de Minas Gerais. Na Floresta Estacional Semidecidual do norte do Paraná, era explorada em conjunto com a peroba-rosa (Aspidosperma polyneuron), com a qual dominava a vegetação. Na Bolívia, ocupa o bosque semidecíduo chiquitano. É recomendada para reposição de mata ciliar em locais sem inundação.
A floração acontece entre outubro e dezembro. A maturação dos frutos varia conforme a região: de abril a julho no Paraná, de abril a setembro em São Paulo e de agosto a dezembro em Minas Gerais. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 10 anos de idade.
Planta hermafrodita, é polinizada principalmente por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, ou seja, feita pelo vento.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando a sâmara muda do verde para o marrom-castanho, e a extração das sementes é feita à mão. Cada quilo contém de 4.000 a 4.500 sementes. Elas não têm dormência, mas, para acelerar a germinação, recomenda-se mergulhá-las em água fria por 24 a 48 horas, favorecendo a embebição. À temperatura ambiente perdem a viabilidade rapidamente; já em câmara fria conservam plena capacidade de germinação por até 2 anos.
A semeadura pode ser feita em sementeiras, para posterior repicagem, ou diretamente com duas sementes por saco de polietileno ou tubete grande de polipropileno. A repicagem ocorre de 2 a 4 semanas após a germinação. A germinação é epígea e tem início entre 6 e 90 dias após a semeadura, com poder germinativo geralmente alto, chegando a 95%. As mudas alcançam tamanho adequado para o plantio cerca de 6 meses depois da semeadura. As raízes formam associação simbiótica com bactérias do gênero Rhizobium, originando nódulos do tipo aeschynomenoid com atividade de nitrogenase.
Espécie semi-heliófila, suporta sombreamento leve a moderado na fase jovem, mas é sensível ao frio intenso. Seu hábito é irregular e bastante variável, com tendência a formar copa múltipla, várias bifurcações, ramificação pesada e tronco inclinado, exigindo podas periódicas de condução e dos galhos. Como a cicatrização é lenta, os troncos costumam ficar ocos. Pode ser plantada a pleno sol em consórcio com espécies secundárias iniciais, em vegetação matricial arbórea, em faixas abertas na vegetação secundária e em linhas ou grupos. Após o corte, rebrota das raízes e forma pequenas touceiras.
O desenvolvimento é lento a moderado, com produtividade que pode chegar a 6,50 m³ por hectare ao ano.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 800 mm, em Minas Gerais, a 2.100 mm, em São Paulo, com chuvas periódicas concentradas no verão. A deficiência hídrica é pequena no inverno, no norte do Paraná, e de moderada a forte no oeste da Bahia e norte de Minas Gerais, onde a estação seca pode durar até 6 meses. A temperatura média anual oscila entre 18,1 ºC (Nova Friburgo, RJ) e 24,4 ºC (Januária, MG); a média do mês mais frio vai de 13,8 ºC a 22,2 ºC e a do mês mais quente, de 21,9 ºC a 27,6 ºC, com mínima absoluta de -3,5 ºC registrada em Londrina (PR). As geadas variam de 0 a 3 por ano em média, chegando a 7 no máximo no Paraná, mas em geral são raras ou inexistentes. Ocorre em climas subtropical úmido (Cfa), subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e tropical (Af e Aw), segundo Köppen.
Ocorre naturalmente em solos de fertilidade variável, mas cresce melhor em terrenos de boa fertilidade química, profundos, bem drenados e de textura argilosa.