Foto: JG (CC BY) via GBIF
Caúna
Ilex theezans
- até 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: chá-do-campo, congonha, congonha-amarga, orelha-de-mico, carvalho-branco, caúna-amargosa, caúna-de-folha-grande, caúna-graúda, caúna-miqueira, erva-timoneira, miqueira, timoneira, congonhinha, cuticaém-vermelho, pau-de-bicho, chá-do-rio, congonha-do-mato, congonha-do-rio, cravo-do-mato
Botânica
A caúna pertence à família Aquifoliaceae e tem como nome científico Ilex theezans Martius ex Reissek, publicado em 1861. Pelo sistema do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), está enquadrada na ordem Aquifoliales (classificada como Celastrales no sistema de Cronquist), dentro do gênero Ilex. Entre seus sinônimos botânicos mais citados estão Ilex achrodonta Maxim e Ilex integerrima Reissek, embora a espécie reúna uma sinonímia ainda mais extensa. O nome do gênero, Ilex, é a antiga denominação latina da azinheira, um tipo de carvalho (Quercus ilex), já mencionada por autores como Horácio e Plínio. Já o epíteto theezans deriva de thea (chá), com o sentido de "o que produz chá" ou "usado para chá".
Espécie perenifólia, varia de arbusto a árvore, podendo os exemplares maiores alcançar cerca de 20 m de altura e 60 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo) na fase adulta. O tronco é reto, de seção ovalada e base levemente reforçada, com ramificação que vai de dicotômica a irregular ou simpódica. A copa é baixa, irregular e densamente foliada, com folhagem coriácea de tom verde-escuro que lembra a da erva-mate (Ilex paraguariensis); distingue-se desta sobretudo pela margem foliar emarginada ou tridentada e pelo ápice retuso. A casca chega a 5 mm de espessura: a externa (ritidoma) é esbranquiçada, lisa a levemente áspera, com rugosidades e descamação pouco perceptíveis; a interna é creme, de textura arenosa e estrutura compacta e heterogênea. As folhas são simples, alternas, glabras, densamente coriáceas, obovadas e verde-escuras, de margem crenada, ápice arredondado ou obtuso (muitas vezes apiculado ou retuso) e base atenuada; a lâmina mede de 3 cm a 19 cm de comprimento por 1,5 cm a 7,6 cm de largura, geralmente em dimensões menores, com pecíolo de 3 mm a 4,5 mm. As inflorescências masculinas formam aglomerados em dicásio, com 3 a 8 flores por axila, enquanto as femininas surgem em fascículos de 2 a 7 flores. As flores são brancas ou cremes, bissexuais por aborto, distribuídas ao longo dos galhos; as masculinas medem de 8 mm a 13 mm de diâmetro e as femininas, um pouco menores, de 8 mm a 10 mm. O fruto é do tipo drupóide (subtipo nuculânio), ovóide a globoso, liso, com 5 a 6 pirênios, de 6 mm a 13 mm de diâmetro, coloração vermelha a vinácea e mesocarpo tênue ou carnoso. A semente tem pirênio castanho-claro, endocarpo duro ou pétreo, é pequena e de dorso convexo.
Uso e ecologia
A madeira da caúna é moderadamente densa (0,60 g/cm³), com alburno e cerne pouco diferenciados, ambos de cor creme que escurece rapidamente após o corte por oxidação. Sua superfície é lisa e com lustro, evidenciando os raios medulares, que são bem altos e visíveis a olho nu; tem textura fina, grã direita ou irregular e não apresenta gosto ou cheiro marcantes. De aspecto atraente e fácil de trabalhar, ainda carece de estudos tecnológicos mais aprofundados. Embora tenha valor econômico modesto, o desenho de seus raios a recomenda para folhas faqueadas em móveis e na fabricação de pianos; presta-se também a desdobro, tabuado, carpintaria, marcenaria, obras externas, esteios, mourões, vigas, cabos de ferramentas e diversos utensílios. Para celulose e papel, porém, a madeira é inadequada. Como combustível, fornece lenha de boa qualidade. No campo alimentar, as folhas costumam ser misturadas às da erva-mate (Ilex paraguariensis), conferindo sabor mais amargo ao chimarrão; ainda que ambas tenham propriedades terapêuticas semelhantes, essa prática é desaconselhada, pois muitas vezes serve para adulterar a erva-mate, o que desagrada os consumidores. Entre seus constituintes fitoquímicos estão ácido resinoso, cafeína pura e flavonóides.
Classificada como espécie secundária inicial a secundária tardia, a caúna é muito frequente em encostas íngremes e topos de morro, aparecendo em clareiras de menos de 60 m², capoeirões, florestas secundárias e também na floresta primária e na primária alterada, tanto no estrato inferior quanto no superior. Por vezes torna-se bastante abundante, especialmente na vegetação arbustiva da restinga e nos capões dos campos, onde chega a marcar a fisionomia das associações vegetais. Na Floresta Ombrófila Densa ocupa as formações de Terras Baixas, Submontana, Montana e Alto-Montana em Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo. Na Floresta Ombrófila Mista (com araucária) está nas formações Montana e Alto-Montana de Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com até 50 indivíduos por hectare de DAP superior a 6,4 cm. Aparece ainda na restinga (até 21 indivíduos por hectare na Bahia, Paraná e São Paulo), em ambientes fluviais ou ripários (até 290 indivíduos por hectare e 1.400 em regeneração na Bahia, Goiás e Paraná), em campo rupestre e veredas de Minas Gerais, em caxetais do litoral paranaense e em floresta turfosa de São Paulo.
A floração ocorre de agosto a dezembro no Paraná; de setembro a dezembro no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e em Minas Gerais; e de setembro a janeiro em São Paulo. Os frutos amadurecem de janeiro a maio em Minas Gerais, de fevereiro a maio no Paraná, de março a julho em São Paulo e de maio a junho no Rio Grande do Sul.
Espécie dióica, tem a polinização feita principalmente por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão dos frutos e sementes é zoocórica, realizada sobretudo pelas aves.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando atingem coloração vermelha-escura a preta e começam a cair naturalmente. Em seguida, são macerados em peneira fina sob água corrente para soltar as sementes, operação facilitada pela decomposição parcial da casca. Cada quilo reúne cerca de 140 mil sementes. As sementes de Ilex apresentam embriões que permanecem rudimentares, em estágio de coração, mesmo com os frutos maduros, exigindo de 6 a 8 meses para germinar, com taxa baixa e desuniforme; essa dormência liga-se à dureza do endocarpo do pirênio, que dificulta a protrusão da radícula. Por isso, recomenda-se a estratificação em areia média por 5 a 6 meses, intercalando uma camada de sementes (no máximo 2 cm) entre duas camadas de areia de 8 cm a 10 cm cada — procedimento em que a ação de hifas fúngicas ajuda a amolecer o endocarpo. As sementes têm comportamento ortodoxo e podem ser conservadas à temperatura ambiente por até 60 dias, com poder germinativo máximo aos 30 dias.
A baixa germinação das sementes (em geral de 5 % a 20 %) torna inviável a semeadura direta nos recipientes, de modo que os produtores costumam estratificar as sementes antes do plantio. A repicagem deve ser feita quando as mudas têm de 4 a 6 folhas definitivas. A germinação é epígea ou fanerocotiledonar, começa entre 30 e 150 dias após a semeadura e costuma ser muito baixa, com média de 5 % (variando de 1 % a 20 %).
A caúna é uma espécie esciófila, que suporta temperaturas baixas. Tem hábito tortuoso, sem dominância apical definida, com ramificação pesada, bifurcações e desrama natural fraca, exigindo podas frequentes de condução e de galhos. Quando adulta, tolera a luz direta. Pode ser estabelecida em plantio misto, junto a espécies pioneiras que lhe garantam sombra principalmente na fase juvenil, ou em vegetação matricial arbórea — floresta secundária, capoeirões e capoeiras — com abertura de faixas e plantio em linha. Vale registrar que a variedade Ilex theezans var. warmingiana consta da lista de espécies da flora paulista ameaçadas de extinção, na categoria vulnerável.
Há poucos registros sobre o crescimento da caúna em plantios, mas o que se sabe indica desenvolvimento lento.
A precipitação média anual varia de 730 mm, na Bahia, a 2.700 mm, em São Paulo, com chuvas bem distribuídas no Sul (exceto no norte do Paraná) e no litoral paulista e regime periódico nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Sul (com a mesma exceção) e no litoral de São Paulo, pequena no Sudeste, de pequena a moderada no inverno em Goiás e no Distrito Federal, e de moderada a forte no oeste baiano. A temperatura média anual oscila entre 13,2 ºC (São Joaquim, SC) e 24,5 ºC (Caravelas, BA); a média do mês mais frio vai de 8,2 ºC (Campos do Jordão, SP) a 22,1 ºC (Ilhéus, BA) e a do mês mais quente de 17,2 ºC (São Joaquim, SC) a 26,6 ºC (Brasília, DF). A mínima absoluta chega a -10 ºC (Palmas, PR), podendo atingir -17 ºC na relva em pontos do Planalto Sul-Brasileiro. As geadas variam de 0 a 30 por ano em média, com máximo de 81 no Sul e em Campos do Jordão; há ainda possibilidade de neve, que em São Joaquim (SC) ocorre quase todos os anos. Segundo Köppen, a espécie habita os climas Af, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
Cresce naturalmente em diversos tipos de solo, adaptando-se tanto a terrenos úmidos quanto a bem drenados, e também na vegetação próxima a afloramentos de arenito.