Foto: Carlos Eduardo Santos Feitosa (CC BY) via GBIF
Catingueira
Poincianella pyramidalis
- até 12 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: canela-de-velho, catinga-de-porco, catingueira-de-mulata, catingueira-grande, catingueira-verdadeira, catingueiro-das-folhas-largas, faveleira, mussitaíba, pão-de-rato, pau-de-rato, caatingueira
Botânica
Pelo sistema do Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a espécie é uma angiosperma do clado das eurosídeas I, pertencente à ordem Fabales (tratada como Rosales em Cronquist), família Fabaceae (Leguminosae em Cronquist), subfamília Caesalpinioideae e tribo Caesalpinieae, no gênero Poincianella. O binômio aceito é Poincianella pyramidalis (Tul.) L. P. Queiroz, publicado em 2009 na obra Leguminosas da Caatinga, de Queiroz; o sinônimo botânico é Caesalpinia pyramidalis Tul. Tanto o nome do gênero quanto o epíteto pyramidalis têm origem desconhecida, enquanto o nome popular catingueira faz referência ao odor desagradável exalado pelas folhas verdes.
A catingueira tem hábito que varia de arbustivo a arbóreo e folhagem decídua, perdendo todas as folhas no período seco. É uma das primeiras plantas da Caatinga a rebrotar com a chegada das chuvas. Na estação úmida, os exemplares adultos maiores chegam a cerca de 12 m de altura e 50 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, a 1,30 m do solo), mas, na seca, reduzem-se a arbustos de menos de 2 m com poucos centímetros de diâmetro na base. O tronco é ramificado, com fuste curto ou ausente, e a ramificação racemosa forma copa aberta, arredondada, baixa e irregular; os ramos são verdes e cobertos por numerosas lenticelas esbranquiçadas. A casca chega a 10 mm de espessura: nas árvores adultas, o ritidoma é liso, de cor cinza-claro, por vezes castanho, e descama em lâminas alongadas de borda irregular, conferindo um padrão de camuflagem com manchas amarelas, verdes e brancas. As folhas são bipinadas, com 5 a 11 folíolos alternos, sésseis, obtusos, oblongos, coriáceos e de borda inteira levemente ondulada, medindo de 1 cm a 3 cm nos ramos adultos e menos de 1 cm nos rebrotos; brotam com tom rosado e só desenvolvem o cheiro típico desagradável depois de esverdearem. As inflorescências surgem em panículas curtas, terminais ou axilar-terminais. As flores, de leve perfume adocicado e com pelos estrelados escuros, medem em média de 18 mm a 25 mm de diâmetro; têm cálice amarelo com pilosidade castanha que lhe dá tom castanho-esverdeado, pétalas amarelas e uma pétala central marcada por pontuações avermelhadas que funcionam como guias de néctar. O fruto é um legume (vagem) oblongo-elíptico, assimétrico e acuminado, de 8 cm a 12 cm de comprimento por 2 cm a 2,5 cm de largura, castanho-claro, com pilosidade mínima e esparsos tricomas glandulosos amarelos; cada ovário traz cerca de 5 a 6 rudimentos seminais, parte dos quais aborta, e as valvas costumam permanecer secas e presas ao ramo, totalmente encartuchadas por torção helicoidal. As sementes são achatadas, ovaladas, castanho-claras e lustrosas.
Uso e ecologia
É uma das espécies de maior valor econômico para a Caatinga, usada pela população local como principal fonte de energia doméstica: fornece lenha e carvão de boa qualidade e, a partir dos 5 ou 6 anos, já pode ser cortada para aproveitamento da madeira. O alto teor de celulose e lignina lhe confere potencial para produção de álcool combustível, carvão vegetal e coque metalúrgico. A madeira é muito densa (massa específica aparente de 0,88 a 0,99 g/cm³ e básica de 0,84 a 1,01 g/cm³), de cor esbranquiçada, textura média, grã revessa e alta resistência ao apodrecimento, sendo indicada para mourões, estacas de cerca e esteios. Como forragem, a folhagem verde solta cheiro pungente e é rejeitada por caprinos e ovinos, mas as folhas secas que caem no início da seca tornam-se alimento nutritivo nesse período crítico; vale ressaltar que os legumes lignificados e deiscentes podem eventualmente perfurar o rúmen de bovinos. Na medicina popular, é usada em toda a sua área de ocorrência por suas propriedades antidiarreicas: folhas, flores e cascas são empregadas contra infecções catarrais, diarreias e disenterias, e as folhas ainda são usadas contra febre, problemas estomacais e como diurético (uso registrado apenas como informação factual, sem valor de prescrição médica). As cascas do caule concentram de 1,38% a 7,71% de extrativos tânicos.
Trata-se de uma espécie pioneira de grande importância sociológica, respondendo por cerca de 60% do estrato arbustivo da Caatinga e sendo registrada em regeneração natural, como observado em área desse bioma na Paraíba. Na Savana-Estépica (Caatinga do Sertão Semiárido) aparece em Alagoas, Bahia, Ceará, norte de Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, com frequência que chega a 513 indivíduos por hectare; no oeste do Rio Grande do Norte chega a representar 82% da composição florística. Também ocorre na Floresta Estacional Decidual (formação Submontana, na Bahia e em Minas Gerais) e na Floresta Estacional Semidecidual (formação Montana, na Paraíba), além de matas ciliares na Paraíba, Pernambuco e Sergipe, brejos de altitude do Nordeste e inselbergues.
A floração ocorre em outubro no Piauí e de novembro a abril na Bahia, sendo que em alguns sítios de Pernambuco e do Ceará a produção de flores e frutos foi escassa ou nula em anos monitorados. Os frutos amadurecem de julho a setembro no Ceará, com frutificação abundante.
É uma espécie hermafrodita. Os principais polinizadores são a abelha Apis mellifera, as mamangavas (Xylocopa spp.) e abelhas do gênero Centris; outros visitantes florais que coletam néctar incluem borboletas, beija-flores e abelhas sem ferrão dos gêneros Trigona, Frieseomelitta e Melipona. Muitas abelhas sociais e solitárias também aproveitam os troncos da planta para construir seus ninhos. A dispersão é autocórica, por deiscência violenta que lança as sementes a distância.
Plantio e silvicultura
As vagens devem ser colhidas diretamente da árvore quando começam a abrir. Após a colheita, secam-se as sementes à sombra, sobre lona plástica e em temperatura ambiente, por cerca de 3 dias, para reduzir o teor de água, completar a abertura e liberar as sementes. Cada quilo contém aproximadamente 26.000 sementes. Há dormência tegumentar, que precisa ser superada por imersão em ácido sulfúrico (95%) ou em água quente (80 °C por 1 a 2,5 minutos, ou 100 °C por 10 a 15 minutos); pelo custo e pelos riscos do ácido, recomenda-se o tratamento com água a 80 °C, ainda que se deva aumentar a densidade de semeadura. As sementes têm comportamento ortodoxo e podem ser guardadas por menos de 1 ano, em temperatura ambiente ou em geladeira, usando embalagens permeáveis (sacos de papel kraft) ou semipermeáveis (sacos de polietileno), desde que estejam com baixo teor de água.
Recomenda-se semear duas sementes por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 75 cm de diâmetro ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio. A repicagem, quando necessária, é feita de 2 a 4 semanas após o início da germinação, e as plântulas formam um sistema radicial vigoroso. A germinação é epígea e fanerocotiledonar, com a raiz emergindo por volta de 54 horas de embebição. As raízes não nodulam com bactérias do gênero Rhizobium, mas a espécie estabelece associação com fungos micorrízicos arbusculares (colonização de 9,5% a 40,4%).
É uma espécie heliófila, que não suporta baixas temperaturas, e de hábito irregular. Rebrota com força quando cortada, inclusive a partir dos indivíduos mais grossos da touceira, comportamento incomum entre outras espécies da Caatinga. Pode ser cultivada a pleno sol, em plantio misto, em vegetação secundária ou em linhas. A planta sobrevive ao corte raso em qualquer estação, mas um intervalo de 3 anos não basta para recuperar a produção de madeira, exigindo períodos de repouso mais longos entre os cortes para manter a oferta de lenha para a população rural.
Há poucos registros de desempenho em plantios, mas o crescimento é considerado rápido.
A precipitação média anual varia de 260 mm, em Cabaceiras (PB), a 1.200 mm, no Ceará, com chuvas periódicas e deficiência hídrica de forte a muito forte durante quase todo o ano em grande parte do interior nordestino. A planta é resistente à seca, recorrendo ao controle estomático e ao ajustamento osmótico para suportar o déficit hídrico. A temperatura média anual fica entre 24 °C (Matias Cardoso, MG) e 27,6 °C (Serra Negra do Norte, RN), com mínima absoluta registrada de 6,5 °C (Montes Claros, MG, em 1979) e ausência de geadas. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos As, Aw e Bsh.
Desenvolve-se em solos de textura arenosa a franco-arenosa, de fertilidade média, com pH entre 5,2 e 6,9.