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Foto de Castanha-do-pará

Foto: Lior Golgher (upper left photo and upper middle photo), U.S. Department of Agriculture (upper right photo), mauroguanandi (bottom left photo), USDA Forest Service Alaska Region from Juneau, Alaska, USA (bottom right photo), montage by User:RoRo (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia

Castanha-do-pará

Bertholletia excelsa

Lecythidaceae AmazôniaCerrado
  • até 50 mAltura
  • Muito grandePorte
Raras / ameaçadasFrutíferasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: castanha-da-amazônia, castanha-do-brasil, castanheira, castanha, castanha-mansa, castanheira-do-brasil

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema de classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a espécie pertence ao clado das asterídeas, ordem Ericales e família Lecythidaceae, dentro do gênero Bertholletia. O binômio Bertholletia excelsa foi descrito por Humboldt & Bonpland, com primeira publicação em 1807. São reconhecidos como sinônimos botânicos os nomes Barthollesia excelsa Silva Manso e Bertholletia nobilis Miers. O gênero recebeu esse nome em homenagem ao químico L. C. Berthollet, contemporâneo dos dois naturalistas, enquanto o epíteto excelsa faz alusão ao porte imponente da árvore. Durante a Terceira Convenção Mundial de Frutos Secos, realizada em Manaus em maio de 1992 com mais de 300 empresários, decidiu-se adotar o nome castanha-da-amazônia em lugar de castanha-do-pará. O primeiro registro literário da espécie remonta a 1596, numa carta de Juan Alvarez Maldonado escrita na região de Madre de Dios, no Peru, que a chamou de "Amêndoa dos Andes".

Descrição botânica

Trata-se de árvore decídua que perde as folhas no auge da estação seca, embora rebrote praticamente ao mesmo tempo em boa parte do ano. Os maiores exemplares chegam perto de 50 m de altura e 200 cm de DAP (diâmetro medido a 1,30 m do solo), e excepcionalmente alcançam 60 m de altura, com troncos de 446 cm a 525 cm de DAP em idade avançada. O tronco costuma ser reto e sem ramos até a copa, com fuste que pode passar de 25 m. A ramificação é dicotômica, dividindo-se em dois ou três galhos e formando uma copa ampla que chega a 40 m de envergadura. A casca atinge até 20 mm de espessura, com ritidoma acinzentado marcado por fissuras longitudinais profundas; quando cortada, exala odor de grama recém-cortada. As folhas são oblongas, medindo de 17 cm a 36 cm de comprimento por 6,5 cm a 15,5 cm de largura, com base arredondada ou subcuneada, ápice apiculado a mucronado, margens inteiras ou levemente crenadas e onduladas, e de 29 a 45 pares de nervuras secundárias. As inflorescências formam panículas de espigas terminais eretas, de 20 cm a 40 cm de comprimento. As flores, de beleza notável, são brancas ou branco-ocre, perfumadas, com 2 cm a 3 cm de diâmetro, tubulosas, zigomorfas, com seis pétalas e numerosos estames reunidos em forma de capuz. O fruto é uma cápsula lenhosa esférica e rígida (pixídio), popularmente chamada de "ouriço", com 9 cm a 12 cm de diâmetro, peso de 1 kg a 2 kg e de 5 a 25 sementes comestíveis. Em média, o fruto é composto por 20% de mesocarpo, 50% de endocarpo e 30% de sementes. As sementes, conhecidas como "nozes" ou "castanhas", têm forma de cunha, dispõem-se ao redor de um eixo central e medem de 3,5 cm a 4,5 cm de comprimento.

Uso e ecologia
alimentíciomadeireiromedicinalapícolapaisagismorecuperação de áreas
Produtos e utilizações

As sementes, célebres como castanha-do-pará (atualmente castanha-da-amazônia), estão entre os principais produtos do extrativismo amazônico desde o início do século 20 e são exportadas e consumidas no mundo todo. De alto valor nutritivo e ricas em proteínas e minerais, ficaram conhecidas como "carne vegetal"; nutricionistas chegam a recomendar o consumo de apenas duas amêndoas por dia. Hoje aparecem em doces, granolas, barras de cereais e bombons, e em toda a região prepara-se o "leite" das amêndoas, triturando-as com água quente e coando, usado em mingaus, arroz-doce, moquecas, caldeiradas e outros pratos regionais. Da semente extrai-se um óleo, com cerca de 70% de óleo e 17% de proteína e composição parecida com a do azeite de oliva, empregado na alimentação e também na indústria de cosméticos, em sabonetes, xampus e condicionadores. O bagaço das amêndoas serve de ração animal, e o próprio fruto vira artesanato, como brinquedos ("pés-de-ouriço") e tigelas. A composição química reúne ácidos palmítico, oleico e linoleico, traços de ácidos mirístico e esteárico, fitosterol e vitaminas A, B, C e E. Quanto à madeira, é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,70 g/cm³ a 0,75 g/cm³ e básica de 0,63 g/cm³), com alburno bege-amarelado e cerne castanho-claro levemente rosado, superfície lisa e sem brilho, grã direita, textura média e moderadamente macia ao corte. Presta-se à construção civil interna leve (forros, vigas, tábuas de assoalho), painéis decorativos, carpintaria, juntas coladas, compensado e embalagens, e ainda produz boa lenha e carvão, mas é pouco explorada por causa do valor econômico das amêndoas. Para celulose e papel é considerada inadequada.

Aspectos ecológicos

É uma espécie clímax e longeva, que costuma ocupar o dossel superior ou a posição emergente em florestas primárias e secundárias. Na Floresta Amazônica é comum encontrá-la agrupada em grandes castanhais, agregados naturais com 50 a 100 indivíduos reprodutivos. Estimativas de idade variam bastante: uma castanheira de 446 cm de DAP foi estimada em cerca de 1.400 anos a uma taxa de crescimento inferior a 1 cm por ano, enquanto a datação por carbono 14 de um exemplar de 233 cm de DAP indicou cerca de 440 anos. A regeneração natural na floresta é quase impossível, ocorrendo apenas em clareiras abertas pela queda de árvores velhas ou por ação humana, dificultada ainda pelo tegumento duro das sementes. Na Amazônia, está associada à Floresta Ombrófila Densa de Terra Firme (com até 26 indivíduos por hectare no Amapá, Amazonas, Pará e Roraima), à Floresta Ombrófila Aberta (Amazonas e Rondônia), à Floresta Ombrófila Aberta com palmeiras (Roraima) e a áreas de contato savana/floresta em Rondônia. A espécie consta da Lista Oficial das Espécies da Flora Brasileira Ameaçadas de Extinção, na categoria vulnerável, e a derrubada de castanheiras nativas é proibida desde a Portaria nº 2570-DC, de 22/11/1971.

Floração e frutificação

A floração varia conforme a região: de setembro a janeiro em Rondônia, de outubro a novembro na Bahia, de outubro a março no Pará e de dezembro a maio em Roraima, quando os frutos da safra anterior já estão caindo. No sul de Roraima, mostrou-se anual, longa, sincrônica e concentrada no período de menor chuva. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 7 anos. A frutificação também é anual e tende a aumentar com o porte da árvore; a maturação do fruto leva cerca de 14 meses, de modo que um mesmo indivíduo pode portar frutos em diferentes estágios. A queda dos frutos maduros vai de dezembro a maio no Pará.

Fauna associada

A polinização depende inteiramente dos visitantes florais, que buscam o néctar e o pólen oferecidos, sendo realizada sobretudo por abelhas de médio a grande porte das famílias Apidae (Bombus brevivillus, Bombus transversalis, Eulaema cingulata e Eulaema nigrita) e Anthophoridae (Xylocopa frontalis, Xylocopa aurulenta, Centris similis, Epicharis rustica e Epicharis affinis); besouros (Chrysomelidae) e abelhas Meliponinae (Trigona branneri) atuam como polinizadores ocasionais. A dispersão também é totalmente dependente da fauna, já que o fruto é funcionalmente indeiscente: ele cai por gravidade, chegando a 80 km/h, e só libera as sementes quando algum animal o abre ou quando a casca apodrece. O principal dispersor é a cotia (Dasyprocta leporina), que enterra parte das sementes a 1 cm a 3 cm de profundidade e até 25 m da árvore-mãe, esquecendo-se de muitas, que então germinam. Outros animais citados como predadores e dispersores incluem jabutis (Geochelone carbonaria e G. denticulata), esquilos ou quatipurus (Sciurus spp.), quatis (Nasua nasua), macacos-prego (Cebus apella), cotiara (Myoprocta spp.), paca (Agouti paca), saguis (Saguinus spp.), cateto (Pecari tajacu), araras (Ara spp.) e queixada (Tayassu pecari), embora alguns sejam pouco eficazes em razão do porte e da dentição.

Plantio e silvicultura
Sementes

A colheita exige abrir manualmente o ouriço caído para retirar as sementes, que depois são separadas uma a uma. Cada quilo reúne em torno de 125 sementes (cerca de 129 em lotes com 27,23% de umidade). Por causa da dormência prolongada, mecânica e possivelmente endógena, é necessário quebrá-la com tratamentos físicos. As sementes têm comportamento recalcitrante, ou seja, não toleram bem o armazenamento.

Produção de mudas

A semeadura é feita diretamente em recipientes individuais de polietileno ou em tubetes de tamanho grande. A germinação é hipógea e as plântulas, criptocotiledonares; a emergência começa entre 30 e 285 dias, havendo relatos de germinação entre 6 e 29 meses após o plantio, com taxa que varia de 2,9% a 80%.

Características silviculturais

Espécie heliófila, precisa de bastante luz nos primeiros anos e não tolera baixas temperaturas. O hábito é variável, ora com dominância apical e ramificação leve, ora com galhos grossos e ramificação irregular, geralmente exigindo poda verde, que cicatriza bem. É uma das árvores amazônicas com maior acúmulo de conhecimento técnico para cultivo, tanto para produção de frutos quanto para fins madeireiros. Em estudo comparando monocultivo e consórcio com bananeira, a sobrevivência aos 4 anos foi maior no monocultivo (95,3% contra 89,6%), provavelmente pela competição por água com as bananas plantadas a apenas 3 m; já o incremento médio anual em altura foi ligeiramente melhor no consórcio (2,23 m/ano contra 2,13 m/ano), graças à maior ciclagem de nutrientes, e aos 10 anos o DAP não diferiu entre os sistemas. Pode ser usada em sistemas agroflorestais, como no sombreamento de cacaueiros no sul da Bahia. Recomenda-se que plantios comerciais sejam feitos com material coletado diretamente das populações nativas; um ensaio de procedências foi instalado em Belterra, Santarém (PA), em 1982, com espaçamento de 4 m x 4 m, no qual as árvores formaram ramos laterais finos e boa derrama natural, favorecendo madeira de qualidade.

Crescimento e produção

O crescimento varia de moderado a rápido. A maior produtividade registrada é de 20 m³/ha/ano aos 20 anos, no norte de Mato Grosso. No Pará, entre 1976 e 1996, a espécie foi plantada por 14% das empresas em projetos de reposição florestal registrados no Ibama. Há plantações em Belém (PA), Manaus (AM), Sinop (MT) e Ilhéus (BA), entre outras. Fora de sua área natural, é cultivada no Caribe (Cuba, Trinidad e Tobago), na África (Gana, Zaire e Nigéria) e na Ásia (Malásia, Sri Lanka e Índia).

Clima

A precipitação média anual vai de 1.400 mm, no Pará, a 3.250 mm, no Amapá, com chuvas periódicas e deficiência hídrica de pequena a moderada em sua área de ocorrência. A temperatura média anual fica entre 24,9 °C (Rio Branco, AC) e 27,2 °C (Caracaraí, RR), chegando a 28 °C na Bolívia; a média do mês mais frio varia de 23,2 °C a 25,8 °C e a do mês mais quente, de 25,7 °C a 27,9 °C. A mínima absoluta registrada foi de 6 °C, em Rio Branco (AC), em 1975, durante o fenômeno da friagem, em que o avanço de massa de ar polar derruba a temperatura por alguns dias. Não há ocorrência de geadas. Pela classificação de Köppen, predominam os tipos Af (tropical úmido), Am (tropical chuvoso com curto período seco) e Aw (tropical com inverno seco).

Solos

A maioria das populações ocupa solos argilosos ou argilo-arenosos, de textura média a pesada. No sudeste do Pará aparece sobre Terra Roxa Estruturada e, no leste da Amazônia, em Oxissolos e Ultissolos pobres em nutrientes, porém bem estruturados e drenados. A espécie não é encontrada em solos excessivamente compactados.