Foto: Andrea Gantzer (CC BY) via GBIF
Cássia-rósea
Cassia grandis
- 10 a 15 m (até 30 m)Altura
- Médio portePorte
Também conhecida como: acácia, acácia-nacional, cana-fístula, canafístula, canafístula-grande, cássia, cássia-grande, cássia-rosa, jeneúna, marimari, marimari-grande, marimari-preto, marimari-sarro, marimarirana, marizeiro
Botânica
Pelo sistema de classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas) e ordem Fabales, dentro da família Caesalpiniaceae (Leguminosae: Caesalpinioideae). É descrita como Cassia grandis Linnaeus f., publicada em 1781. Tem como sinônimo botânico Cassia brasiliana Lam. O nome do gênero deriva de termo hebraico ou grego, enquanto o epíteto grandis ("grande") faz referência às vagens, que podem chegar a 60 cm de comprimento.
Árvore caducifólia que costuma medir de 10 a 15 m de altura e 40 cm de DAP, embora exemplares adultos cheguem perto de 30 m de altura e 100 cm de DAP — é a maior representante brasileira do gênero Cassia. O tronco é cilíndrico e tortuoso, com fuste em geral curto, de no máximo 8 m. A ramificação é cimosa e irregular, formando copa ampla de cerca de 8 m de diâmetro, com galhos grossos e ramos cobertos de lenticelas. A casca pode atingir 30 mm de espessura; por fora é marrom-acastanhada, áspera a levemente fissurada e com pouca escamação, e por dentro apresenta tonalidade vermelha-amarelada. As folhas são compostas e paripinadas, reunindo de 8 a 20 pares de folíolos oblongos de 3 a 6 cm, finamente pilosos e de ápice arredondado ou obtuso. As flores, róseo-amareladas (raramente brancas) e muito vistosas, formam racemos axilares de até 11 cm e recobrem toda a copa mesmo quando a planta está desfolhada. O fruto é um legume lenhoso indeiscente, cilíndrico e irregular, medindo de 11 a 60 cm de comprimento por 36 a 50 mm de diâmetro, com duas suturas longitudinais ligadas por nervuras grossas e salientes; ao se romper o pericarpo, surgem septos circulares que separam as sementes em meio a uma massa preta, pegajosa e adocicada. Maduro, fica marrom-escuro por fora e guarda numerosas sementes duras, ovais a obovóides, achatadas de um lado e carenadas do outro, brilhantes, de cor castanho-amarelo-clara e com até 1 cm de comprimento.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,65 a 0,77 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno castanho-claro e cerne café-amarelado de veios escuros, superfície de brilho mediano, textura grossa e grã entrecruzada, sem cheiro ou gosto perceptíveis. Sua durabilidade natural é variável, de pouco durável a moderadamente resistente ao ataque de cupins de madeira seca e úmida; é moderadamente difícil de preservar e de secar, exigindo programas lentos na estufa e sombra com boa ventilação ao ar livre. Na marcenaria, serra com relativa facilidade, mas é difícil de aplainar, lixar e pregar, e o acabamento fica prejudicado pela grã entrecruzada, ainda que segure bem os pregos. A madeira serrada e roliça presta-se à construção civil — sobretudo em acabamentos internos, forros, vigas, postes, pequenas pontes, embarcações, móveis rústicos, tabuado e cabos de ferramentas pesadas —, além de carpintaria e serraria. Como combustível, fornece lenha de qualidade aceitável e é considerada boa para carvão, álcool e coque, com teor médio de lignina; já para celulose e papel não é indicada. Das sementes extrai-se galactomanana (rendimento de 37,5%, com relação manose/galactose de 1,7) e da casca obtém-se resina. A forragem traz 13,3% de proteína bruta e 12,4% de tanino. Na América Central, especialmente na Costa Rica, os septos que envolvem as sementes rendem um substituto do chocolate. As flores são melíferas e produtoras de pólen, e as grandes vagens servem a arranjos decorativos. No uso medicinal popular, a polpa amarga do fruto — de cheiro e sabor desagradáveis — é empregada como laxante, purgante e depurativa em afecções de pele, enquanto o café feito das sementes é tido como estimulante, tônico e abortivo.
Trata-se de espécie pioneira a secundária inicial, frequente em áreas úmidas e em pastagens. Predomina na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Amazônica) Aluvial, ao longo dos rios Amazonas e Tocantins, e na Floresta Estacional Semidecidual Aluvial; surge ainda como espécie introduzida nos capoeirões da Floresta Ombrófila Densa Atlântica, na formação Baixo-Montana. É muito comum nas barrancas dos rios do Pantanal Mato-Grossense, em áreas inundáveis. No Nordeste, sua dispersão está ligada a cursos d'água e baixadas úmidas, mas tolera ambientes que se tornam progressivamente mais secos, sendo comum em lagos e depressões da Caatinga litorânea.
A floração vai de agosto a outubro em São Paulo, de outubro a novembro na Bahia, no Rio de Janeiro e em Sergipe, e de novembro a dezembro em Mato Grosso do Sul. Frutos imaturos aparecem o ano inteiro; os maduros surgem de outubro a novembro em São Paulo e de novembro a dezembro em Mato Grosso do Sul. Em plantio, a reprodução tem início por volta dos 10 anos de idade.
Planta hermafrodita, polinizada sobretudo por abelhas — na região de Manaus (AM) destaca-se Melipona compressipes manaosensis. A dispersão é autocórica, principalmente barocórica (pela gravidade), além de zoocórica, em especial por mamíferos terrestres, e hidrocórica, favorecida pela ocorrência frequente da espécie junto a cursos d'água.
Plantio e silvicultura
A colheita é feita retirando os frutos da própria árvore quando começam a cair, ou recolhendo-os do chão após a queda. Como o fruto é bastante lenhoso, deve ser triturado para liberar as sementes, que se removem melhor à mão e depois secam em local ventilado. Cada quilo reúne de 1.276 a 5.400 sementes. A espécie tem dormência tegumentar acentuada, superada por escarificação em ácido sulfúrico concentrado por 30 minutos ou por escarificação mecânica — métodos que aceleram a germinação e superam em eficiência a imersão em água quente. As sementes são ortodoxas e conservam a viabilidade por até 5 anos, seja em ambiente não controlado, em câmara fria ou em câmara seca.
Recomenda-se semear em sementeiras para posterior repicagem, ou colocar duas sementes em sacos de polietileno de pelo menos 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou ainda em tubetes grandes de polipropileno, a uma profundidade máxima de 2 cm. A repicagem pode ocorrer de 2 a 3 semanas após a germinação. A germinação é epígea e começa entre 8 e 60 dias após a semeadura; sem a quebra de dormência, fica irregular e pode arrastar-se por até um ano. Com a dormência superada, a taxa de germinação chega a 96%, ante apenas 28% quando não tratada. As mudas alcançam tamanho próprio para o plantio cerca de 9 meses após a semeadura. As raízes formam endomicorrizas, mas não se associam a Rhizobium.
Espécie heliófila e sensível a baixas temperaturas. Não tem dominância apical definida, apresentando em geral multitroncos ou tronco curto e ramificado, o que exige desramas artificiais frequentes e periódicas, com poda de condução e dos galhos. Pode ser cultivada a pleno sol, em plantio misto e em solos férteis, rebrotando da touça após o corte. Tem potencial agroflorestal, sendo indicada também para zonas secas — sobretudo na América Central — e para a arborização de culturas perenes; na Colômbia é usada em cercas vivas. No Pantanal Mato-Grossense costuma ser preservada nas pastagens, já que o gado aprecia muito seus frutos adocicados.
O crescimento é rápido. Em Foz do Iguaçu (PR), estimou-se incremento volumétrico de 15,45 m³/ha/ano, com casca, calculado a partir de valores médios de altura e DAP.
A precipitação média anual vai de 1.100 mm, em Mato Grosso do Sul, a 3.000 mm, no Pará, com chuvas uniformes no sul da Bahia e na região de Belém (PA) ou periódicas, concentradas no verão ou no inverno. A deficiência hídrica varia de nula, no sul da Bahia e no Pará, a moderada no Nordeste, com estação seca de até 4 meses. A temperatura média anual oscila entre 24,3ºC (Ilhéus, BA) e 26,7ºC (Manaus, AM); a média do mês mais frio fica entre 21,1ºC (Corumbá, MS) e 26ºC (Manaus), e a do mês mais quente entre 26ºC (Ilhéus) e 27,7ºC (Belterra, PA). A mínima absoluta registrada foi de 1ºC (Cáceres, MT). As geadas são ausentes ou muito raras em Mato Grosso do Sul. Os tipos climáticos, segundo Köppen, são tropicais (Am, Aw e Af).
É espécie plástica quanto ao solo. Na natureza, vegeta em terrenos úmidos, com drenagem que vai de boa a lenta e textura de arenosa a franca. Em plantios experimentais, contudo, prefere solos de boas propriedades físicas, profundos, bem drenados, de textura argilosa e elevada fertilidade química.