Foto: Fabricio Carvalho da Silva (CC0) via GBIF
Cássia-do-Nordeste
Senna spectabilis var. excelsa
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: canjoão, canafístula, canafístula-de-besouro, boi-gordo, canjão, são-joão, aleluia-de-caldas, cássia-carnaval, canafístula-do-boi, pau-de-ovelha
Botânica
Pertencente à família Fabaceae (Leguminosae na classificação de Cronquist) e à subfamília Caesalpinioideae, a espécie integra o gênero Senna. Seu nome científico completo é Senna spectabilis (DC.) Irwin & Barneby var. excelsa (Schrader) Irwin & Barneby, tendo como sinônimos botânicos Cassia spectabilis DC. e Cassia excelsa Schrader. O termo Senna deriva de uma antiga designação para planta medicinal, enquanto o epíteto spectabilis, do latim, remete a algo notável e que chama a atenção — referência à profusão de flores amarelas da planta. Muitas espécies antes classificadas como Cassia migraram para o gênero Senna, cuja distinção se baseia no porte, na presença de bractéolas e nectários, no androceu e no tipo de fruto. Senna reúne cerca de 250 espécies de ocorrência pantropical, concentradas nas Américas, na África e na Austrália. A espécie Senna spectabilis abrange hoje duas variedades: var. spectabilis e var. excelsa.
Trata-se de uma planta decídua que varia de arbustiva a arbórea. Os indivíduos de maior porte chegam a aproximadamente 15 m de altura e 50 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, aferido a 1,30 m do solo) na fase adulta; já no sertão baiano a planta assume forma arbustiva, com cerca de 2 m. O tronco é reto a ligeiramente tortuoso, normalmente com fuste curto. A ramificação é dicotômica e a copa, em geral globosa, mede de 5 m a 6 m de diâmetro; os ramos são flexuosos, castanho-claros e lenticelados, sendo os mais novos verdes e cobertos por pelos dourados. A casca atinge até 5 mm de espessura: nos exemplares adultos, a casca externa (ritidoma) é cinza-escura e se solta em lâminas, ao passo que nos indivíduos menores de áreas secas ela é lisa e cinza-clara. As folhas, verde-escuras, são alternas e paripinadas, com 25 cm a 40 cm de comprimento e de 8 a 18 pares de folíolos pequenos (3 cm a 6 cm de comprimento por 1,2 cm a 2,0 cm de largura), oblongos e obtusos, levemente pubescentes na face superior e um pouco mais na inferior; quando maceradas, exalam o odor desagradável típico do gênero. As inflorescências, bastante vistosas, formam panículas terminais de 10 cm a 50 cm de comprimento, e as flores são grandes, predominantemente amarelo-vivas. O fruto é uma vagem longa e indeiscente de 25 cm a 32 cm, de superfície enrugada e cor preta, com linhas castanho-claras quando madura, abrigando de 13 a 20 sementes. As sementes são ovoides, medindo cerca de 6 mm por 4,2 mm e 5,56 mm de espessura, com superfície lisa e lustrosa, coloração castanho-clara-esverdeada e mancha mais clara no centro.
Uso e ecologia
A madeira é leve (densidade aparente de 0,45 g/cm³ a 0,51 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno castanho-claro e cerne castanho-escuro nem sempre bem delimitado; tem superfície pouco lustrosa, textura grossa e baixa durabilidade. É empregada na construção civil em esquadrias, estacas, forros, tábuas para caixotaria e mourões de pouca resistência. Como fonte de energia, rende boa lenha e carvão de qualidade razoável, mas é inadequada para celulose e papel. Apesar de não figurar entre as forrageiras típicas da Caatinga, suas folhas, ramos, vagens, sementes e casca servem de alimento a bovinos, caprinos, ovinos, jumentos e cavalos. Na medicina tradicional, o infuso das folhas é usado como laxativo e purgativo, e o decocto da casca do caule, contra gripes e resfriados, com ação anti-alérgica e inseticida comprovada. Estudos fitoquímicos identificaram pelo menos 35 substâncias, com destaque para alcaloides piperidínicos (sobretudo spectalina e spectabinina), esteroides e flavonoides; foram ainda isolados lupeol, ácido betulínico e alfa e beta amirina nas folhas, enquanto as sementes contêm cerca de 29,5% de galactomanana.
Espécie heliófila, exige plena luminosidade e não suporta baixas temperaturas. É recomendada para a reconstituição de ecossistemas degradados.
A floração acontece de novembro a abril no Ceará e de dezembro a março em Minas Gerais. Os frutos amadurecem entre agosto e setembro no Ceará, em Pernambuco e em Minas Gerais.
Planta monoica. As flores são polinizadas pela abelha-mangangava ou besouro-mangangá (Xylocopa spp., Hymenoptera, Bombidae), que as visita em busca de pólen e néctar. A dispersão das sementes é autocórica, ocorrendo tanto por gravidade (barocórica) quanto pela ação de animais (zoocórica).
Plantio e silvicultura
Os frutos são colhidos manualmente, direto da árvore ou recém-caídos no chão; quando maduros, ficam pretos por fora (exceto nas linhas de sutura, castanho-claras) e o mesocarpo torna-se sublenhoso, adocicado e levemente perfumado, com deiscência parcial em apenas uma das suturas. Após a colheita, os frutos devem ser secos ao sol até abrirem, e as sementes extraídas à mão, pois não se soltam sozinhas. Cada quilo reúne cerca de 27.600 sementes. Elas apresentam dormência tegumentar, que pode ser quebrada pela imersão em água à temperatura ambiente por 2 a 4 dias (94% de germinação) ou por escarificação com ácido sulfúrico concentrado por 25 a 30 minutos (97% e 93%, respectivamente). De comportamento ortodoxo, conservam-se por 12 meses tanto sob refrigeração (4 ºC) quanto em temperatura ambiente. A espécie é euritérmica, germinando entre 12 ºC e 36 ºC, com faixa ideal de 15 ºC a 36 ºC.
Recomenda-se semear em sementeiras e repicar as plântulas, de 3 a 5 semanas após o início da germinação, para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência começa entre 10 e 40 dias após a semeadura. O poder germinativo é alto (83% a 95%) quando há quebra de dormência e baixo (até 40%) sem esse tratamento. Quatro meses depois da semeadura, as mudas alcançam 20 cm de altura. As raízes não se associam a Rhizobium, mas a planta respondeu fortemente à inoculação de fungos micorrízicos (mistura de Glomus etunicatum e Gigaspora margarita) combinada a superfosfato simples, com ganho de 536%.
De hábito variável e muito ramificado, com galhos laterais robustos, bifurcações e brotações desde a base, a espécie tem desrama natural deficiente, exigindo podas de condução e de galhos. Brota da touça ou da cepa e, quando cortada, rebrota em vários ramos finos de pouco aproveitamento. Pode ser cultivada a pleno sol em plantio misto, consorciada a outras espécies das mesmas formações vegetacionais. Em Minas Gerais é indicada para sombreamento de pastagens, graças à copa regular e densa, de 3 m a 5 m de diâmetro.
Há poucos dados sobre seu desempenho em plantios, mas o desenvolvimento em campo é rápido: a planta chega facilmente a 3,5 m de altura aos 2 anos.
A precipitação média anual varia bastante, de 400 mm a 2.200 mm, ambos registrados na Paraíba, com chuvas periódicas. O déficit hídrico vai de pequeno a moderado na faixa costeira paraibana e é forte no Nordeste e no norte mineiro. A temperatura média anual fica entre 21,3 ºC (Caetité, BA) e 26,5 ºC (Floresta, PE); a média do mês mais quente, entre 22,6 ºC e 28,2 ºC, e a do mês mais frio, entre 18,6 ºC (Pompeu, MG) e 24,1 ºC. A mínima absoluta registrada foi de 0,3 ºC (Pompeu, MG), sem ocorrência de geadas. Pela classificação de Köppen, ocorre em climas As (tropical com verão seco) em Pernambuco, Aw (tropical com inverno seco) no norte de Minas Gerais e na serra do Teixeira (PB) e BSh (semiárido quente) na Bahia, na Paraíba e em Pernambuco.
Prefere solos mais profundos, bem drenados, de fertilidade média e textura arenosa.