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Casca-d'anta

Rauvolfia sellowii

Apocynaceae Mata Atlântica
  • até 25 mAltura
  • Grande portePorte
Raras / ameaçadasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisMelíferasRecuperação de áreas

Também conhecida como: grão-de-gato, casco-de-anta, jasmim-graúdo, casca-de-anta, pau-pra-tudo

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema de classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado Euasterídeas I, ordem Gentianales, família Apocynaceae e gênero Rauvolfia, sendo identificada cientificamente como Rauvolfia sellowii Muell. Arg. O nome do gênero é uma homenagem a Leonhart Rauwolf, médico e botânico alemão que coletou plantas medicinais na Ásia anterior, enquanto o epíteto sellowii remete a Friedrich Sellow, naturalista alemão que veio ao Brasil na comitiva que acompanhou Dona Leopoldina, futura esposa de Dom Pedro I. A publicação original consta em Mart., Fl. bras. 6(1): 33, de 1860.

Descrição botânica

Trata-se de uma árvore latescente, de comportamento perenifólio a semidecíduo, que perde parte das folhas no inverno. Os exemplares de maior porte chegam a cerca de 25 m de altura e 50 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo) quando adultos. O tronco costuma ser tortuoso, com aparência suculenta, e o fuste alcança até 10 m. A ramificação é cimosa, formando copa ampla de ramos glabros. A casca tem até 10 mm de espessura, sendo a parte externa (ritidoma) cinza-escura, percorrida por rugas rasas e fissuras longitudinais. As folhas são simples e dispostas em verticilos de 4 a 6 unidades; o pecíolo varia de 2 cm a 4 cm e a lâmina, membranácea, mede de 4 cm a 36 cm de comprimento por 1,5 cm a 8,6 cm de largura, com formato oblongo-ovado a oblongo-elíptico, ápice obtuso-acuminado, base cuneada, margem inteira, superfície glabra e discolor, venação broquidódroma e nervuras visíveis nas duas faces; nas mudas jovens, as folhas surgem opostas. A inflorescência é axilar ou terminal, em cimeira corimbosa ampla, multiflora e sem brácteas. As flores, branco-amareladas e perfumadas, têm corola tubulosa de 4 mm a 7 mm, com lacínios lanceolados de ápice arredondado e bordos revolutos medindo 2 mm a 3 mm; o cálice apresenta sépalas ovado-lanceoladas de ápice brevemente acuminado, sem glândulas na face interna. O fruto é uma drupa apocárpica, elipsoide e lisa, com 9 mm a 13 mm de comprimento por 6 mm a 8 mm de largura, e as sementes são elipsoides e rugosas.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícola
Produtos e utilizações

Como espécie melífera, fornece néctar e pólen às abelhas. Sua madeira é leve, com densidade de 0,45 g/cm³, pouco compacta, fácil de trabalhar e de baixa durabilidade natural; o alburno é branco e o cerne, escuro-falso. Por essas características, o uso é restrito a forros, caixotaria, brinquedos e artefatos leves, e a lenha que produz é de péssima qualidade. A madeira também é indicada para fabricação de papel, com fibras de 1,85 mm de comprimento e teor de lignina com cinza de 33,84 %. No campo fitoquímico, foi isolado um alcaloide inédito na espécie. Na medicina popular, a casca amarga é usada contra problemas estomacais e para reduzir a pressão arterial; entre povos indígenas do Paraná e de Santa Catarina, a casca do caule é empregada no tratamento do fígado, de diarreia, de dores no peito e no estômago.

Aspectos ecológicos

É classificada como espécie secundária tardia. Costuma ocupar áreas de subsera, onde por vezes se torna mais comum, sendo frequente em capoeirões e em pastos de vegetação arbórea aberta. Apresenta-se como espécie rara, de dispersão irregular e baixa frequência. No bioma Mata Atlântica, está presente na Floresta Estacional Semidecidual, nas formações Submontana e Montana de Minas Gerais, Paraná e São Paulo, com densidade de cerca de um indivíduo por hectare, e na Floresta Ombrófila Densa, nas formações de Terras Baixas e Montana do Espírito Santo e de São Paulo, chegando a quatro indivíduos por hectare. Ocorre ainda em ambientes fluviais ou ripários de Minas Gerais.

Floração e frutificação

A floração acontece de setembro a novembro no Paraná e em São Paulo e em outubro em Minas Gerais e Santa Catarina; em Rolândia, no norte paranaense, os primeiros botões apareceram três anos após o plantio. Os frutos amadurecem de novembro a janeiro em Minas Gerais, de novembro a maio em São Paulo e de março a maio no Paraná.

Fauna associada

A espécie apresenta dioicia funcional e dimorfismo sexual, conforme observado em duas populações da região de Campinas (SP): as plantas femininas têm estiletes mais curtos (1 mm a 1,3 mm, contra 2 mm a 3 mm nas masculinas) e anteras menores e estéreis, além de, em alguns casos, flores de proporções gerais reduzidas. A polinização é feita principalmente pela abelha europeia ou africanizada (Apis mellifera) durante o dia, com visitas frequentes também de Ornidia obesa (Syrphidae) e Vehilius inca (Hesperiidae). A dispersão é zoocórica, sobretudo por aves: a casca-d'anta atrai pombas, saíras, sanhaços, pica-paus, sabiás e tuins, entre outras.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando começam a cair espontaneamente, ou apanhados no chão após a queda. Podem ser semeados sem despolpamento; porém, para armazenamento ou transporte, recomenda-se despolpá-los, deixando-os amontoados por alguns dias para soltar a polpa, lavando-os em água corrente dentro de uma peneira e secando-os à sombra. Cada quilo reúne cerca de 12 mil sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo e mantêm viabilidade inferior a seis meses.

Produção de mudas

A semeadura deve ser feita diretamente em recipientes individuais, como sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência começando entre 30 e 50 dias após a semeadura e taxa geralmente superior a 60 %. As mudas atingem porte adequado para o plantio definitivo por volta de seis meses após a semeadura.

Características silviculturais

Espécie heliófila que tolera temperaturas moderadamente baixas. Seu hábito é variável, indo do crescimento monopodial à ramificação irregular com bifurcações pesadas, o que torna recomendável a poda de condução e a poda anual de galhos. É indicada para plantios mistos a pleno sol, abertura de faixas em vegetação secundária e plantio em linhas.

Crescimento e produção

O crescimento em volume é de lento a moderado: parte de 3,77 m³/ha/ano e pode alcançar até 18,90 m³/ha/ano aos sete anos de idade, conforme registrado em Rolândia (PR).

Clima

A precipitação média anual varia de 1.200 mm, no Espírito Santo, a 2.300 mm, no Paraná e em Santa Catarina, com chuvas bem distribuídas no Sul (exceto o noroeste paranaense) e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica vai de nula, no Sul, a moderada no inverno, em pontos do norte do Paraná, do nordeste capixaba e em planaltos de São Paulo e do sul de Minas. A temperatura média anual fica entre 15,6 ºC (Palmas, PR) e 23,6 ºC (Linhares, ES); a do mês mais frio, entre 10,7 ºC e 20,7 ºC, e a do mês mais quente, entre 20 ºC e 26,2 ºC, com mínima absoluta de -10 ºC em Palmas (PR). O número de geadas vai de 0 a 13 em média, com até 33 no Paraná. Na classificação de Köppen, ocorre nos tipos Aw, Cfa, Cfb e Cwb.

Solos

Na natureza, desenvolve-se em solos úmidos e de alta fertilidade química.