Foto: A. Barra (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia
Casca-d'anta
Drimys brasiliensis
- até 27 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: cataia, casca-d’anta, paratudo, catéia, casca-d’anta-vermelha, canela-amarga, capororoca-picante, casca-para-tudo, cataieira, melambo, canela-de-páramo, acataia, caataia
Botânica
Pelo sistema do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a cataia pertence à divisão Angiospermae, ao clado das magnoliídeas e à ordem Canellales (que, no sistema de Cronquist, figurava em Magnoliales). Está classificada na família Winteraceae, gênero Drimys, sendo a espécie Drimys brasiliensis Miers, descrita em 1858. A planta acumula um número expressivo de sinônimos botânicos. O nome do gênero, Drimys, vem do grego e quer dizer “picante”, referência ao sabor marcante da casca aromática; já o epíteto brasiliensis aponta para o local de coleta do exemplar-tipo. Na língua tupi-guarani recebe o nome caá-tuya, traduzido como “árvore-para-velho”.
A cataia varia entre arbusto, arvoreta e árvore de folhagem perene, com os indivíduos de maior porte alcançando cerca de 27 m de altura e até 50 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, tomado a 1,30 m do solo) na fase adulta. O tronco tem seção que vai do cilíndrico ao irregular e achatado, traçado reto a pouco tortuoso e base levemente canaliculada, com ramificação cimosa. A casca chega a 10 mm de espessura; a externa (ritidoma) é cinza-rósea, áspera e descama em pó, deixando manchas esbranquiçadas, enquanto a interna é aromática, de cor ocre-clara que escurece rapidamente ao ser cortada, de textura arenosa, compacta e heterogênea, com odor bastante perfumado e sabor fortemente apimentado. As folhas são simples, dispostas em espiral, espatuladas a oblongo-lanceoladas, glabras e de consistência subcoriácea, nitidamente bicolores — verde-escuras na face superior e glaucas na inferior —, com lâmina de 2 a 12 cm de comprimento por 1 a 3 cm de largura, ápice agudo a arredondado, base atenuada e margem lisa; a nervura central se destaca e as secundárias quase não aparecem, dando-lhes aspecto característico. O pecíolo mede cerca de 1 cm, e a gema axilar é pequena, achatada e de difícil localização; quando maceradas, as folhas exalam cheiro semelhante ao de plantas da família Myrtaceae. As flores são bissexuais, brancas, muito aromáticas, com pedúnculos curtos (1 a 2 cm) reunidas em umbelas de poucas flores (2 a 5). O fruto é uma baga globosa, glabra, múltipla, livre e indeiscente, formada por seis frutíolos e contendo até nove sementes, medindo de 6,45 a 12,49 mm de comprimento, 5,20 a 9,59 mm de largura e 4,85 a 9,47 mm de espessura. A semente é reniforme, de cor preta brilhante e rica em endosperma, com 1,88 a 4,13 mm de comprimento, 1,09 a 3,01 mm de largura e 0,83 a 1,80 mm de espessura.
Uso e ecologia
A madeira da cataia é moderadamente densa (0,55 g/cm³), com alburno amarelado e cerne rosado, pouco lustrosa, de sabor amargo, odor indistinto, textura fina e uniforme e grã direita; compacta e fácil de trabalhar, tem porém baixa durabilidade quando exposta. Por ser pouco resistente, presta-se apenas a obras internas, construções, carpintaria, caixotaria e caixilhos, além de ser matéria-prima adequada para celulose e papel. Como combustível, fornece boa lenha e carvão. As folhas servem de condimento e, quanto à composição química, a espécie reúne tanino e diversos sesquiterpenoides apontados como seus princípios ativos, muito estudados nas últimas décadas. As flores são empregadas em perfumaria; o óleo essencial rende cerca de 0,8 % e é formado em 93 % por monoterpenos, com destaque para o α-pineno (55,47 %), o β-pineno (18,96 %), o 4-terpineol (4,28 %) e o limoneno (4,16 %), além de frações menores de mirceno, sabineno, terpinoleno, canfeno, p-cimeno e outros. No campo medicinal, é tradicionalmente conhecida como “paratudo” e tida pela medicina popular como remédio para inúmeros males: distúrbios gástricos e estomacais (dispepsia, náuseas, cólicas, falta de apetite, flatulência), febres, anemia, escorbuto, disenteria e vômitos, sendo considerada estimulante, adstringente e febrífuga; pelo sabor amargo, já foi usada como substituta do quinino contra a malária. O chá das folhas e da casca é indicado para sangramentos gengivais e nasais e afecções uterinas e prostáticas, e a planta é vista como tônico revigorante. Na veterinária, a casca é empregada no tratamento de aves, cavalos e porcos. Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina isolaram da casca uma substância analgésica de poucos efeitos colaterais, batizada de drimanial. Para fins ambientais, é recomendada na restauração de ambientes fluviais e ripários, inclusive em solos permanentemente encharcados. Em plantio sob vegetação matricial no Paraná, aos 14 anos e em espaçamento de 10 x 4 m, apresentou 33,3 % de plantas vivas, 9,45 m de altura média e 15,4 cm de DAP médio em Cambissolo Húmico álico. Em São Mateus do Sul (PR), em Floresta Ombrófila Mista, registrou deposição anual de serapilheira de 27,1 kg, posição 33ª entre 34 espécies avaliadas.
A cataia é uma espécie secundária tardia ou clímax tolerante à sombra. É típica e preferencial dos capões junto aos campos e do interior dos pinhais (Floresta Ombrófila Mista), aparecendo ainda como relicto na vegetação dos topos de morro da Floresta Ombrófila Densa. Tem dispersão ampla e expressiva, embora descontínua e irregular. Ocorre na Floresta Ombrófila Densa (formações de Terras Baixas, Montana e Alto-Montana, com até 215 indivíduos por hectare), na Floresta Ombrófila Mista (formações Montana e Alto-Montana, até 110 indivíduos por hectare, com DAP acima de 6,4 cm), na Floresta Estacional Semidecidual (até 14 indivíduos por hectare) e nas zonas de contato entre esta e a Floresta Ombrófila Mista, no sul de Minas Gerais. Marca presença também na restinga catarinense, na savana florestada (cerradão) do Cerrado, em ambientes fluviais e ripários (até três indivíduos por hectare) e nos campos rupestres de altitude da Bahia e de Minas Gerais.
A floração pode acontecer até duas vezes ao ano, sendo mais intensa de julho a novembro no Rio Grande do Sul, de setembro a janeiro em Minas Gerais e no Paraná, de outubro a fevereiro em Santa Catarina, de novembro a março no Rio de Janeiro e em fevereiro em São Paulo. Os frutos amadurecem de março a maio no Paraná e em São Paulo e de agosto a fevereiro no Rio Grande do Sul.
Espécie monóica, tem a polinização feita sobretudo por abelhas e por uma variedade de pequenos insetos. A dispersão de frutos e sementes é zoocórica, com forte papel das aves (ornitocoria). Entre as espécies registradas como dispersoras estão Elaenia sp., o sabiá-barranco (Turdus leucomelas), o sabiá-poca (Turdus amaurochalinus), o sanhaçu-do-coqueiro (Thraupis palmarum) e o bem-te-vi (Pitangus sulphuratus); Elaenia sp. e Turdus leucomelas se destacam como os principais dispersores, por serem os visitantes mais frequentes e por engolirem os frutos inteiros.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começam a cair naturalmente; em seguida, são postos ao sol para abrir, e as sementes são retiradas à mão com cuidado. Um quilo reúne de 218 mil a 280 mil sementes (um levantamento contabilizou 237.353 unidades com 7,14 % de umidade). As sementes têm dormência por imaturidade do embrião, superada eficientemente pela estratificação em areia por 60 dias. São de vida curta, perdendo poder germinativo já a partir dos 30 dias. Em laboratório, sementes não estratificadas trazem mais embriões em forma de coração, ao passo que a estratificação eleva a proporção de embriões maduros; a maior taxa e velocidade de germinação foram obtidas a 17 ºC constantes, em substratos de ágar, areia ou papel-filtro, sendo que temperaturas acima de 25 ºC favorecem a deterioração.
Recomenda-se semear em sementeiras, ou colocar uma semente por saco de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou ainda em tubetes de polipropileno médios; quando preciso, a repicagem é feita de 1 a 2 semanas após a germinação. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e, em sementes estratificadas por 60 dias, começa no quinto dia e pode terminar 51 dias após a semeadura, com taxa irregular entre 2,7 % e 68,8 %. As mudas permanecem ao menos 12 meses em viveiro, em canteiros semi-sombreados. A propagação vegetativa por estacas funciona bem mesmo sem AIB (ácido indolbutírico), mas o melhor enraizamento (61,11 %) ocorreu com 1.000 ppm.
Trata-se de espécie esciófila e tolerante a baixas temperaturas, de crescimento monopodial e galhos finos. É indicada para plantio misto ou em faixas abertas em capoeirões, plantada em linhas, e rebrota da touça ou cepa. A cataia figura na lista de espécies raras ou ameaçadas de extinção do Distrito Federal e também entre as espécies prioritárias para conservação e manejo definidas pela 1ª Reunião Técnica de Estratégias para Conservação e Manejo de Recursos Genéticos de Plantas Medicinais e Aromáticas.
Os dados sobre desenvolvimento em plantios são escassos, mas o que se sabe indica que o crescimento da cataia é lento.
A precipitação média anual varia de 1.000 mm, na Bahia e em Minas Gerais, a 2.500 mm, no Rio de Janeiro. As chuvas são bem distribuídas na Região Sul (exceto no norte do Paraná) e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Sul (salvo no norte do Paraná), de pequena a moderada no inverno na Bahia, no Distrito Federal, em Goiás e no sul de Minas, e mais acentuada no oeste e norte de Minas Gerais. A temperatura média anual fica entre 13,2 ºC (São Joaquim, SC) e 23,7 ºC (Cachoeiro do Itapemirim, ES, e Rio de Janeiro, RJ); a média do mês mais frio vai de 8,2 ºC (Campos do Jordão, SP) a 21,3 ºC (Rio de Janeiro, RJ), e a do mês mais quente de 17,2 ºC (São Joaquim, SC) a 26,6 ºC (Cachoeiro do Itapemirim, ES). A mínima absoluta registrada foi de -11,2 ºC (Xanxerê, SC), podendo chegar a -17 ºC na relva em pontos do Planalto Sul-Brasileiro. As geadas variam de 0 a 30 por ano, com máximo absoluto de 81 no Planalto Sul-Brasileiro e em Campos do Jordão (SP). Pela classificação de Köppen, a espécie cobre os tipos Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
Cresce naturalmente em vários tipos de solo, com preferência pelos de baixa fertilidade química, pelos formados sobre afloramentos de arenito e pelos alagados — em geral com poucos cátions trocáveis, altos teores de alumínio e pH baixo.