Carvalho-da-serra
Euplassa cantareirae
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: carvalho, carvalho-ferrugíneo, carvalho-brasileiro, carvalho-nacional, carvalho-paulista, cedro-bordado, cigarreira, cuticaém-vermelhão, pau-concha, catarina
Botânica
Seguindo o sistema de classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à ordem Proteales e à família Proteaceae, dentro do clado das eudicotiledôneas. O nome científico aceito é Euplassa cantareirae Sleumer, descrito originalmente em 1954. Como sinônimo botânico registra-se Adenostephanus incana Kl. sensu Koscinski. O nome do gênero Euplassa tem origem em uma denominação corrente na Guiana, enquanto o epíteto cantareirae faz referência à Serra da Cantareira, em São Paulo, local onde o exemplar-tipo foi coletado.
Árvore semidecídua que, na fase adulta, chega a cerca de 30 m de altura e 150 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). O tronco é reto e cilíndrico, com fuste de até 15 m. A ramificação é cimosa e a copa, ampla, em formato de para-sol, arredondada ou irregular, com ramos ascendentes e galhos roliços e nodosos recobertos por uma camada de pelos ruivos. A casca tem até 15 mm de espessura; externamente é cinzenta ou ruça, áspera, com finos sulcos longitudinais e anéis circulares salientes, enquanto a casca interna é fibrosa e trançada. As folhas são alternas, em geral compostas paripinadas (raramente simples), com 4 a 6 pares de folíolos opostos ou alternos; o pecíolo mede de 4 mm a 8 mm e tem coloração ruivo-ferrugínea-tomentosa. Os folíolos são peciolulados, cartáceos, oval-oblongos, sempre tomentosos no dorso quando adultos, com ápice curto-acuminado e medindo de 5 cm a 7,5 cm de comprimento por 2,5 cm a 3,5 cm de largura. A inflorescência forma pseudo-racemos espiciformes axilares a subterminais, de coloração rufo-ferrugínea-tomentosa, com 8 cm a 18 cm de comprimento. As flores variam do amarelado ao creme ou esverdeado, são geminadas e curto-pediceladas, com perianto ruivo-tomentoso de 8 mm a 12 mm. O fruto é uma drupa ou noz carnosa, esférica e apiculada, com pericarpo carnoso e 20 mm a 25 mm de diâmetro; passa de verde-brilhante (imaturo) a verde-claro (maduro). A semente é globulosa e pontuda, com cerca de 2 cm de diâmetro e putamen duro que se divide em duas metades na germinação, abrigando a amêndoa.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa, com massa específica aparente de 0,55 g/cm³ a 0,70 g/cm³ (a 15% de umidade) e massa específica básica de 0,54 g/cm³. O cerne vai do róseo-arroxeado ao róseo-acastanhado, com desenhos marcantes formados pelos raios, que são muito altos e largos. Apresenta textura média, grã ondulada, superfície lustrosa nas faces radiais e ausência de cheiro ou gosto. Por ter grã ondulada e altas contrações tangencial e volumétrica, a secagem exige cuidado, e sua durabilidade natural diante de organismos xilófagos é baixa. Devido às propriedades físico-mecânicas médias a altas e aos desenhos do corte radial, a madeira é empregada em lâminas faqueadas decorativas, marchetaria, marcenaria, mobiliário, obras internas, tonéis e barris, além de construção naval e aeronáutica, sendo valorizada pelas indústrias de móveis e compensados. Produz ainda lenha e carvão de boa qualidade. A semente é comestível, mas a forragem, com apenas 5% a 6% de proteína bruta e 3,5% a 4,5% de tanino, não é adequada para alimentação animal; a madeira também não serve para celulose e papel.
Classificada como espécie secundária tardia a clímax. Sua presença é rara a ocasional em toda a área de distribuição, com dispersão muito descontínua e irregular, podendo estar totalmente ausente em diversas regiões. No litoral sul de São Paulo é observada em regeneração na floresta secundária. Ocorre no bioma Mata Atlântica, em Floresta Ombrófila Densa (formações das Terras Baixas em São Paulo e Submontana e Montana no Paraná), em Floresta Ombrófila Mista com araucária (formação Montana, no Paraná) e em Floresta de Restinga, em São Paulo. Em São Paulo, a espécie consta na lista de plantas ameaçadas de extinção na categoria vulnerável e não é coletada há mais de três décadas, indicando que se tornou bastante rara; ainda assim, o risco efetivo de extinção é reduzido, já que suas populações estão em Unidades de Conservação.
A floração é anual e varia conforme o estado: de novembro a janeiro no Paraná, de dezembro a janeiro em Santa Catarina e de janeiro a abril em São Paulo. Os frutos maduros surgem de novembro a fevereiro no Paraná e de janeiro a julho em São Paulo.
É uma espécie hermafrodita, predominantemente autógama (de autofecundação), polinizada sobretudo por abelhas. A dispersão de frutos e sementes é autocórica do tipo balocórica (por gravidade) e também zoocórica, principalmente por meio das aves.
Plantio e silvicultura
Os frutos podem ser colhidos na própria árvore, assim que começam a cair naturalmente, ou recolhidos do chão logo após a queda. Em seguida devem ser acumulados em saco plástico até que a polpa inicie a decomposição, o que facilita a retirada da semente. Cada quilo reúne de 220 a 360 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. O comportamento fisiológico é recalcitrante: as sementes perdem a viabilidade em cerca de seis meses.
Recomenda-se a semeadura direta em sacos de polietileno de 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio. Quando preciso, a repicagem é feita de 4 a 6 semanas após a germinação, que é hipógea (criptocotiledonar). A emergência começa entre 20 e 40 dias após a semeadura, com poder germinativo baixo, inferior a 50%. As mudas ficam aptas ao plantio cerca de 9 meses depois da semeadura.
Espécie que vai de heliófila a esciófila e, quando jovem, tolera moderadamente as baixas temperaturas. Seu hábito é variável e irregular, sem dominância apical definida, e não há derrama natural, o que torna necessárias podas de condução e dos galhos frequentes e periódicas. Brota da touça. Pode ser cultivada em plantio misto, a pleno sol, associada a espécies pioneiras ou secundárias iniciais.
Há poucos dados disponíveis sobre o crescimento da espécie, mas sabe-se que ele é lento.
A precipitação média anual fica entre 1.300 mm e 3.380 mm na Serra de Paranapiacaba (SP), com chuvas bem distribuídas ao longo do ano e deficiência hídrica nula. A temperatura média anual varia de 17,5 ºC (Bocaiúva do Sul, PR) a 21,4 ºC (Ubatuba, SP); a média do mês mais frio vai de 13,2 ºC a 18,2 ºC e a do mês mais quente, de 21 ºC a 25,2 ºC. A mínima absoluta registrada foi de -4,2 ºC, em Bocaiúva do Sul (PR). As geadas são frequentes no inverno do Planalto paranaense e raras em São Paulo, variando em média de 0,8 a 6 ocorrências por ano. Pela classificação de Köppen, predominam os tipos Af, Cfa e Cfb na área de distribuição.
Cresce naturalmente em solos úmidos e bem drenados, de fertilidade média a alta e textura franco-argilosa. Ainda assim, não demonstra exigências marcantes quanto às propriedades físicas do solo, especialmente no que diz respeito à umidade.