Foto: Fernando Lopez Anido (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia
Carobão
Jacaranda micrantha
- 10 a 20 m (até 30 m)Altura
- Grande portePorte
Também conhecida como: caixeta, caroba-branca, caroba-do-mato, caroba-rosa, caroba-roxa, paraparaí, carobeira, carova, jacarandá-branco, jacarandá-caroba
Botânica
Seguindo o sistema de classificação de Cronquist, o carobão pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Scrophulariales e família Bignoniaceae. A espécie foi descrita por Chamisso em 1832 (Linnaea 7: 554) como Jacaranda micrantha, tendo Jacaranda intermedia Sonder como sinônimo botânico. O nome do gênero deriva de jacarandá, designação indígena de várias árvores desse grupo, enquanto o epíteto micrantha vem do grego mikranthos (de flores pequenas), em alusão ao tamanho reduzido de suas flores. Além dos nomes citados no Brasil, é chamada de caroba blanca na Argentina e karova guasu no Paraguai.
Trata-se de uma árvore que perde as folhas na estação seca, geralmente medindo de 10 a 20 m de altura e 30 a 50 cm de DAP, embora em indivíduos adultos possa chegar a 30 m e 85 cm de DAP. O tronco costuma ser tortuoso, com fuste de até 15 m, e a ramificação é abundante e retorcida, formando copa alargada de ramos grossos. A casca atinge até 10 mm de espessura: a externa, lisa ou áspera, varia do grisáceo ao marrom ou cinza-claro e descama bastante em finas placas; a interna é creme com estrias marrom que escurecem após o corte. As folhas, opostas e bipinadas (compostas e imparipinadas), são verde-claras, medem de 60 a 80 cm e reúnem até dez pares de folíolos. As flores, de cor violácea a azul-rosada e com 2 a 6 cm, agrupam-se em panículas axilares de 20 a 30 cm. O fruto é uma cápsula orbicular de bordas onduladas, deiscente, verde quando jovem e marrom quando madura, chegando a 7 cm de comprimento por 6 cm de largura. As sementes são amareladas e claras, leves, chatas e arredondadas, com asa esbranquiçada, medindo até 12 mm de comprimento por 20 mm de largura.
Uso e ecologia
Por ser maleável, a madeira do carobão presta-se a móveis, caixotaria leve, sarrafos, instrumentos musicais, tamancos, cabos de vassoura e acabamentos internos como guarnições, rodapés, ripas e forros, além de marcenaria, carpintaria, construções em geral, laminação, miolo de painéis e portas e chapas de partículas. Também rende lenha de qualidade razoável e é adequada para a produção de pasta e papel. Em densidade, é considerada moderadamente densa (0,56 a 0,60 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno branco-bege e cerne um pouco mais amarelado; sua superfície tem brilho suave, textura mediana e heterogênea e grã direita a oblíqua. A trabalhabilidade é fácil e aceita bem verniz, mas a durabilidade natural é baixa frente ao apodrecimento e a insetos, sendo recomendável tratá-la com antissépticos contra fungos e pragas — favorecida pela altíssima permeabilidade a soluções preservantes. Na medicina popular, a infusão das folhas (1% a 2%) é empregada como depurativa do sangue e contra blenorragia e sífilis, enquanto a casca é tida como anti-reumática e diaforética. A forragem, com 13% a 16% de proteína bruta e 13% de tanino, é considerada imprópria para alimentação animal.
Classificada como pioneira a secundária inicial, é comum e espontânea na vegetação secundária, surgindo em capoeiras, capoeirões, na borda das matas e até em terrenos abandonados. Habita a Floresta Estacional Semidecidual e a Decidual (bacias dos rios Uruguai e Jacuí), aparecendo com menor frequência na Floresta Ombrófila Densa (Mata Atlântica), nas zonas de contato dessas formações com a Floresta Ombrófila Mista (Mata com Araucária), e raramente no Cerradão. Quanto à densidade, em Misiones (Argentina) ocorrem de 4 a 7 exemplares por hectare; à margem do Rio do Peixe, em São Paulo, foram contadas cinco árvores por hectare junto ao rio e 13,6 na encosta; e na Floresta Estacional Decidual do noroeste gaúcho registraram-se oito indivíduos por hectare.
A floração varia conforme a região: agosto em São Paulo, de outubro a dezembro no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, novembro no Rio de Janeiro, de novembro a dezembro em Minas Gerais e janeiro no Paraná. Os frutos amadurecem de junho a setembro no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, em setembro em Minas Gerais e em outubro em São Paulo. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 3 anos de idade.
É uma planta hermafrodita polinizada sobretudo por abelhas. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, feita pelo vento.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando mudam para uma coloração escura e começam a abrir (deiscência); depois são expostos ao sol para liberar as sementes. Cada quilo reúne de 100 mil a 151.285 sementes, que não exigem tratamento para quebra de dormência por não a apresentarem. Sementes com umidade inicial de 11,4% toleram secagem em estufa a 42ºC por 2 horas, baixando o teor para 8,0% sem perda de vigor. Armazenadas em ambiente de sala, perdem 60% do poder germinativo aos 60 dias; já com germinação inicial de 87%, aos 12 meses mantiveram 79% em saco plástico sob câmara fria (4ºC e 96% de UR) e 77% em vidro à temperatura ambiente (18ºC e 82% de UR). Em laboratório, as melhores temperaturas de germinação são 20ºC em vermiculita nº 3, 25ºC em areia e 20ºC ou 25ºC em papel mata-borrão branco ou papel-toalha.
Recomenda-se semear em sementeira e repicar as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio, transferindo-as de 4 a 5 semanas após a germinação ou quando atingirem 4 a 6 cm. A germinação é epígea, inicia entre 10 e 30 dias após a semeadura e costuma ser alta, chegando a 84%; as mudas ficam prontas para o plantio cerca de 6 meses depois. Na propagação vegetativa, obteve-se maior enraizamento com estacas de 15 cm tratadas com 2 g/L de AIB e sem uso de sombrite.
O carobão é uma espécie heliófila que, na fase juvenil, suporta sombreamento leve, além de tolerar baixas temperaturas. Apresenta crescimento monopodial e boa desrama natural. Pode ser plantado em consórcio misto com outras pioneiras ou em linhas dispostas em faixas de 2 a 4 m de largura abertas em capoeiras altas, rebrotando da touça após o corte ou a passagem do fogo. A espécie vem se aproximando da condição de ameaçada na floresta latifoliada do Alto Uruguai gaúcho, pois ocorre com pouca frequência ali, situação agravada pelo intenso uso de sua madeira na indústria e na construção e por suas aplicações medicinais.
No Paraná, o maior incremento médio em experimentos foi de 0,75 m³/ha/ano aos 9 anos de idade, em Santa Helena. Ainda assim, a espécie tem bom crescimento inicial em altura.
A precipitação média anual vai de 1.200 mm em Santa Catarina a 2.000 mm no Rio de Janeiro, com chuvas bem distribuídas no Sul e concentradas no verão no Sudeste e Centro-Oeste. A deficiência hídrica é pequena no inverno, com estação seca pouco marcada no sul do Mato Grosso do Sul, tornando-se moderada nas partes altas de Minas Gerais e Goiás. A temperatura média anual oscila entre 15,5ºC (Caçador, SC) e 23,2ºC (Angra dos Reis, RJ, e Goiânia, GO); a média do mês mais frio fica entre 10,7ºC (Caçador) e 20,8ºC (Goiânia) e a do mês mais quente entre 20ºC (Caçador) e 26,4ºC (Angra dos Reis), com mínima absoluta de -10,4ºC em Caçador. Na Região Sul ocorrem de 0 a 35 geadas por ano em média, chegando ao máximo de 57. Os tipos climáticos de Köppen abrangem temperado úmido (Cfb), subtropical úmido (Cfa), subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e tropical (Af).
Na natureza, desenvolve-se em solos aluviais, no início das encostas e em pequenas depressões de terrenos com drenagem lenta. Vai bem em solos profundos de textura franca a argilosa, devendo-se evitar seu plantio em solos arenosos.