Foto: João de Deus Medeiros (CC BY 2.0) via flickr
Capororoca
Myrsine ferruginea
- 5 a 10 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: azeitona-brava, caapororoca-mirim, capororoca-branca, azeitona-do-mato, azeitoneira, camará, canela-azeitona, maria-preta, caporoca, capororoca-açu, capororoca-mirim, pororoca-branca, capororoca-miúda, capororoca-da-branca, capororoca-da-vermelha, capororoca-de-folha-miúda, capororoquinha, falha, pororoca, pororoca-da-branca, pororoca-da-miúda
Botânica
Pela classificação de Cronquist, a capororoca pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Primulales e família Myrsinaceae. A espécie foi descrita por Sprengel como Myrsine ferruginea, tendo como sinonímia botânica Rapanea ferruginea (Ruiz et Pavon) Mez. O epíteto ferruginea faz referência à densa cobertura de pelos de tonalidade ferrugem que reveste a planta. Fora do Brasil, recebe nomes como canelón (Uruguai), canelón-blanco (Argentina) e yuruma (Bolívia).
Trata-se de uma árvore perenifólia que, em geral, mede de 5 a 10 m de altura e apresenta DAP de 20 a 30 cm, mas pode chegar a 20 m de altura e 60 cm de DAP quando adulta. O tronco é reto, de seção irregular e coberto por numerosas lenticelas, com fuste de até 8 m. A ramificação é dicotômica a tricotômica e simpódica, formando copa alta e pouco densa em ambiente de submata, porém densa quando a planta cresce isolada; os ramos são revestidos por pelos ferrugíneos, sobretudo nas porções mais novas. A casca chega a 20 mm de espessura: externamente é cinza-rósea e levemente fendilhada, soltando-se em pequenas escamas, enquanto a parte interna é de cor carmim-escura, com estrias pegajosas e incolores. As folhas são simples, alternas, espiraladas, de formato lanceolado a oblongo-lanceolado e margem inteira, atingindo até 12 cm de comprimento por 3,5 cm de largura; têm coloração ferrugínea pela forte pilosidade e pontuações perceptíveis a olho nu contra a luz, com nervuras pouco visíveis. As flores são amarelo-esverdeadas, pequenas e numerosas, agrupadas em umbelas axilares de 3 a 9 flores dispostas ao longo e ao redor dos ramos (caulifloria) e na axila das folhas. Os frutos são drupas pequenas e semicarnosas, oleaginosas, de pericarpo fino e formato mais ou menos globoso, com cerca de 3 mm de diâmetro, agrupadas em torno dos ramos; passam de verdes, quando imaturas, a roxo-escuras, quando maduras. A semente é diminuta, oval, estriada e com uma pequena protuberância.
Uso e ecologia
A madeira da capororoca é moderadamente densa (massa específica de 0,50 a 0,88 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno branco-arroxeado e cerne róseo-acastanhado uniforme. Sua superfície é irregularmente lustrosa e lisa ao tato, de textura média e grã direita, sem gosto ou cheiro perceptíveis; tem baixa durabilidade natural e apodrece com rapidez quando exposta. Costuma ser aproveitada localmente, em obras internas como esteios e estaqueamentos. Lasca-se com facilidade e fornece lenha e carvão de boa qualidade. Não é adequada para celulose e papel. A casca contém tanino, de uso restrito e local. A forragem reúne de 10% a 15% de proteína bruta e de 4% a 9% de tanino, servindo à alimentação animal. Os frutos são empregados como condimento em conserva de vinagre. As flores são melíferas.
Classificada como espécie secundária inicial, comporta-se frequentemente como pioneira. Tem papel relevante na vegetação secundária, figurando entre as espécies dominantes em capoeirinhas, capoeiras e capoeirões, e sendo mais escassa na floresta primária. Sua elevada densidade em florestas secundárias, com predominância em certos estágios da sucessão, dá origem aos chamados Rapanietum. É também uma das primeiras árvores a colonizar áreas abandonadas pela agricultura e pela pecuária, embora seja menos longeva que o capororocão (Myrsine umbellata). Ocorre sobretudo na Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária), onde é comum nas associações secundárias; na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), nas formações submontana, montana e alto-montana; na Floresta Estacional Semidecidual, nas formações ciliar e submontana, ocupando o estrato dominado; na Floresta Estacional Decidual baixo-montana e montana; e na Restinga. Aparece ainda no Cerradão e em encraves vegetacionais da região central da Bahia, de modo esporádico, e na Bolívia, no bosque semidecíduo tucumano-boliviano.
A floração ocorre de março a maio no Paraná, de maio a junho no Rio de Janeiro e em São Paulo, de julho a outubro no Rio Grande do Sul e de agosto a outubro em Minas Gerais. Os frutos amadurecem de setembro a novembro em São Paulo, de outubro a novembro no Rio Grande do Sul, de outubro a março no Paraná, em novembro em Santa Catarina e de dezembro a janeiro no Rio de Janeiro. Em plantios, a floração e a frutificação têm início por volta dos 3 anos de idade.
A espécie é dioica e de fecundação cruzada (alógama), com polinização realizada principalmente pelo vento. A dispersão de frutos e sementes é feita por animais (zoocoria), com destaque para mamíferos como o macaco-bugio ou guariba (Alouatta fusca). Os frutos servem de alimento a mais de 35 espécies de aves, sobretudo pequenos pássaros que consomem os frutos maduros, entre eles os sabiás (Turdus albicollis) e os jacus (Penelope pileata). A germinação é favorecida pela passagem das sementes pelo trato digestivo das aves.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando passam do verde para o tom arroxeado. Recomenda-se deixá-los de molho em água e, após a maceração, lavá-los e secá-los em peneira, em local ventilado; ao se desprender a polpa carnosa, libera-se uma tinta vermelho-vinho que mancha as mãos. Cada quilo reúne de 49.500 a 74.000 sementes. A dormência é provocada pelo endocarpo, ainda que ele seja permeável à água; na natureza, a alternância de temperaturas do solo, no período de maturação, favorece a germinação em áreas abertas, enquanto em solos sombreados, de temperatura constante, a germinação se atrasa e as sementes podem integrar temporariamente o banco de sementes do solo. Para a produção de mudas, indica-se a escarificação em ácido sulfúrico por 5 minutos e a estratificação em areia úmida por 30 dias. As sementes têm comportamento ortodoxo e provavelmente conservam a viabilidade por longos períodos; armazenadas em saco de papel a 25 ºC, em ambiente não controlado, mantêm alta viabilidade por até 1 ano.
Recomenda-se semear em sementeiras e depois repicar as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura e 7 cm de diâmetro, ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio, fazendo a repicagem de 4 a 8 semanas após a germinação; o sistema radicial é fasciculado. A germinação é epígea e começa entre 60 e 120 dias após a semeadura, ou entre 120 e 180 dias sem tratamento para superação da dormência. Em experimentos da Embrapa Florestas, em Colombo (PR), a germinação foi de 33% sem superação da dormência e de 73% com o tratamento. As mudas atingem porte adequado ao plantio cerca de 9 meses após a semeadura. No viveiro da instituição é comum a espécie surgir espontaneamente em recipientes de outras essências mantidos a meia-sombra. A propagação vegetativa também é possível por microestacas de 3 a 5 mm de comprimento, mantendo-se uma gema por estaca.
A capororoca é heliófila, mas tolera sombreamento de intensidade baixa a média na fase juvenil, além de ser resistente a baixas temperaturas. Tem crescimento monopodial, com galhos finos, e apresenta boa desrama natural na regeneração espontânea, quando ocorre em alta densidade. Pode ser plantada a pleno sol em plantio puro, em consórcio com espécies pioneiras, como tutora de espécies secundárias-clímax, ou em faixas abertas em capoeiras jovens na fase de vassouras (Baccharis spp.), em linhas. A brotação após o corte é fraca a irregular.
Há poucos dados experimentais sobre o desempenho da espécie em plantios. Ainda assim, ela exibe excelente regeneração natural na vegetação secundária, com bom crescimento inicial em altura.
A precipitação média anual nas áreas de ocorrência vai de 750 mm, na Bahia, a 2.700 mm, em São Paulo, com chuvas bem distribuídas no Sul, no litoral paulista e no sul baiano, e concentradas no verão nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Sul e na região serrana fluminense, pequena no Sudeste, moderada no inverno do norte do Paraná e forte no nordeste de Minas Gerais, onde a estação seca pode durar até 6 meses. A temperatura média anual varia de 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) a 24,3 ºC (Ilhéus, BA); a média do mês mais frio fica entre 8,2 ºC (Campos do Jordão) e 22,1 ºC (Ilhéus), e a do mês mais quente entre 19,9 ºC (Curitiba, PR) e 26,7 ºC (Ubatuba, SP). A mínima absoluta registrada foi de -10,4 ºC (Caçador, SC), podendo chegar a -15 ºC na relva. O número de geadas por ano vai de 0 a 30, em média, atingindo até 81 no Sul e em Campos do Jordão. Os tipos climáticos de Köppen abrangem o temperado úmido (Cfb), o subtropical úmido (Cfa), o subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e o tropical (Aw e Af).
Cresce naturalmente em uma grande variedade de solos, com drenagem boa a regular e textura que vai de arenosa a argilosa. Vegeta tanto em solos secos, muito rasos e de baixa fertilidade química quanto em várzeas e até em banhados, suportando inundações periódicas de curta duração e encharcamento. É indicada para plantio em terrenos secos e nas margens de rios.