Foto: Liu Idárraga Orozco (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia
Canjarana
Cabralea canjerana subsp. canjerana
- 5 a 20 m (até 35 m)Altura
- Grande portePorte
Também conhecida como: canjerana, cajarana, cajá-catinga, cedro-canjerana, cedro-macho, pau-santo, canharana, cacharana, caiarana, cambarana, caroba, canjerana-vermelha, canjerana-amarela, canjerana-branca, canjarana-do-litoral
Botânica
Pelo Sistema de Classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae), ordem Sapindales e família Meliaceae. Seu nome científico é Cabralea canjerana (Vellozo) C. Martius subsp. canjerana. Entre os sinônimos botânicos registrados estão Cabralea glaberrima, Cabralea cangerana, Cabralea eichleriana, Cabralea laevis, Cabralea multijuga, Cabralea oblongifolia e Cabralea lagoensis. O gênero Cabralea presta homenagem a Pedro Álvares Cabral, que chegou ao Brasil em 1500, enquanto o epíteto canjerana tem origem tupi-guarani, da junção de acauá (cajá) e rana (falso) — denominação atribuída à árvore pelos povos indígenas.
Trata-se de uma árvore caducifólia que costuma medir de 5 a 20 m de altura, com tronco de 20 a 50 cm de DAP, mas que pode chegar a 35 m e 230 cm de DAP quando adulta. O tronco é cilíndrico, ora reto ora tortuoso, com fuste de até 13 m; exemplares idosos exibem raízes tabulares bem visíveis. A ramificação é dicotômica e a copa, larga e arredondada, com folhagem verde-escura e diâmetro variando de 1,00 a 10,40 m. As folhas são opostas e compostas, medindo de 30 a 90 cm, com 10 a 20 pares de folíolos opostos de até 15 cm, geralmente paripinadas e dotadas de pontos e linhas translúcidas. As flores são pequenas, branco-esverdeadas e aromáticas, agrupadas em inflorescências do tipo tirso axilar de 6 a 25 cm. O fruto é uma cápsula globosa ou elipsóide, de deiscência septífraga, com 4 a 5 valvas e coluna central espessa; mede de 18 a 43 mm fechado e cerca de 6 cm quando aberto, e pesa em média 15,54 g. O epicarpo glabro passa de vermelho-claro salpicado de verde a vermelho-escuro na maturação, exsudando um látex branco e pegajoso. Cada fruto guarda de 1 a 10 sementes ovóides, de 6 a 17 mm, envoltas quando maduras por um arilo carnoso vermelho-alaranjado de origem funicular.
Uso e ecologia
A madeira é leve (0,45 a 0,56 g/cm³ a 12% de umidade) a moderadamente pesada (0,61 a 0,75 g/cm³ a 15%), com massa específica básica de 0,55 g/cm³. O alburno é branco ou róseo-amarelado e o cerne, castanho a castanho-avermelhado ou vermelho-escuro. A superfície é irregularmente lustrosa e atraente, de textura média e lisa, com grã direita a irregular e cheiro agradável pouco acentuado quando verde. Sua durabilidade natural vai de média a alta e a trabalhabilidade é fácil, com bom acabamento, embora a permeabilidade a preservantes seja baixa. Possui qualidades próximas às do cedro (Cedrela fissilis), porém é mais durável. Presta-se a móveis, marcenaria, carpintaria, caixas, embalagens, esteios, cabos de vassoura, tornearia e peças entalhadas como estatuetas e imagens de santos; na construção civil é usada em acabamentos internos, molduras, rodapés, venezianas, ripas, esquadrias, caibros e miolo de compensados, e como madeira roliça em mourões. Rende lenha de qualidade razoável, mas é inadequada para celulose e papel. Da casca extrai-se um corante vermelho empregado em tinturaria, sobretudo para tingir pelegos de lã, e ela contém pequena porcentagem de tanino, enquanto no lenho há presença intensa de tanino, saponinas e óleos essenciais. O suco dos frutos tem ação inseticida e é potencialmente tóxico a animais. Das flores extrai-se um perfume de aroma intenso usado pela indústria. A forragem apresenta 14,4% a 14,8% de proteína bruta. Na medicina popular é tida como reconstituinte em estados anêmicos; o suco leitoso da casca vira chá contra doenças de pele, diarréias, prisão de ventre, febres e hidropisia, e o decocto da casca e da raiz é considerado purgativo, antitérmico, adstringente e abortivo, devendo ser usado em doses moderadas. Diversas etnias do Paraná e de Santa Catarina empregam sementes e casca contra micoses, dores de cabeça e outras condições.
É classificada como espécie pioneira, secundária tardia ou clímax tolerante à sombra, comum na vegetação secundária, em capoeirões e em clareiras de tamanhos variados. Trata-se de árvore longeva, capaz de superar os 300 anos. Ocupa posição intermediária no dossel, raramente sendo dominante ou emergente. Aparece na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica) em formações de Terras Baixas a Altomontana e na Floresta de Tabuleiro no norte do Espírito Santo, na Floresta Ombrófila Densa amazônica, na Floresta Estacional Semidecidual (formações aluvial, submontana e montana), na Floresta Estacional Decidual, na Floresta Ombrófila Mista (com Araucária), e ainda, de forma eventual, em campos rupestres ou de altitude, no Cerradão, na Caatinga Arbórea Aberta ao longo dos rios Verde e São Francisco no norte de Minas Gerais e na Restinga. Em densidade, varia de cerca de 6 a 18 árvores por hectare conforme o local; no Parque Nacional do Iguaçu (PR) representou 3,92% das essências de maior valor econômico, com 6,3 árvores por hectare.
A floração acontece em agosto no Distrito Federal, de setembro a dezembro em São Paulo, de setembro a janeiro no Paraná, de outubro a dezembro em Santa Catarina, de outubro a janeiro no Rio de Janeiro, em novembro em Minas Gerais e de fevereiro a março no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem de junho a outubro no Rio de Janeiro, de junho a janeiro no Paraná, de julho a agosto na Bahia, de julho a dezembro no Rio Grande do Sul, de agosto a janeiro em São Paulo, de setembro a dezembro no Distrito Federal e em dezembro em Minas Gerais. Uma particularidade da subespécie é apresentar flores e frutos maduros simultaneamente. Em solos férteis no Paraná, a frutificação começou aos 3 anos de idade.
A planta é hermafrodita ou dióica, com polinização provavelmente realizada por mariposas. A dispersão é zoocórica, sobretudo por aves atraídas pela cor alaranjada do arilo — em fragmentos florestais maiores foram registradas até 35 espécies de aves dispersoras, com destaque para Tityra cayana, enquanto em fragmentos menores o número cai para 14, sendo Vireo olivaceus o principal. No solo, as sementes sofrem forte predação por roedores e insetos, e formigas Ponerinae podem atuar como dispersoras secundárias. O arilo também é consumido por pequenos mamíferos, como o mono-carvoeiro (Brachyteles arachnoides).
Plantio e silvicultura
Os frutos estão maduros quando ficam avermelhados e passam a atrair aves, devendo ser colhidos diretamente na árvore — os que abrem naturalmente germinam melhor no início. Frutos deixados ao ar livre murcham sem abrir; a deiscência pode ser induzida acondicionando-os em sacos de polietileno com serragem seca, hermeticamente fechados, à temperatura ambiente, levando cerca de 12 dias para a abertura completa. Depois, lavam-se as sementes para retirar o arilo e deixam-se secar em local ventilado. Cada quilo reúne de 1.200 a 6.157 sementes, que não apresentam dormência, dispensando tratamento de superação. O comportamento de armazenamento é recalcitrante, com rápida perda de viabilidade, não havendo método eficaz de conservação; ainda assim, saco de filó com casca de arroz umedecida a 5ºC mantém cerca de 50% da germinação inicial por até 120 dias. Em laboratório, germinam bem tanto à luz quanto no escuro, alcançando 77% de germinação a 25–30ºC entre 5 e 15 dias, sendo a 20ºC a maior taxa.
Recomenda-se semear em sementeiras e repicar as mudas, 2 a 4 semanas após a germinação, para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura e 7 cm de diâmetro ou tubetes de polipropileno médios. O sistema radicial é fasciculado, superficial e muito ramificado. A germinação é epígea, com hipocótilo curto que mantém os cotilédones carnosos junto ao solo, ocorrendo em geral entre 13 e 73 dias no viveiro; a taxa varia de 40% a 93%, com média de 60%, e a remoção da polpa eleva esse índice (78% contra 46%). As mudas ficam aptas ao plantio cerca de 6 meses após a semeadura. As raízes associam-se a fungos micorrízicos arbusculares, e a propagação vegetativa por garfagem em fenda cheia atinge 50% de pegamento em 30 dias.
Na fase juvenil a canjarana é umbrófila ou esciófila, mas demonstra plasticidade para tolerar diferentes condições de luz; nesse estágio, porém, não suporta baixas temperaturas. Quando jovem, cresce de forma monopodial, com boa forma de fuste e poucas ramificações laterais até a metade da altura, fazendo desrama natural e respondendo bem à poda para ganhar altura útil. Pode ser plantada a pleno sol em consórcio misto com pioneiras ou em faixas abertas na vegetação secundária, em linhas ou grupos, e rebrota vigorosamente após corte, formando troncos múltiplos. É indicada para arborização de culturas e pastos. Ensaios da Embrapa Florestas mostraram variação acentuada de crescimento entre procedências, com destaque para as de Cascavel e Fênix, no Paraná.
Seu desempenho silvicultural supera o do cedro (Cedrela fissilis), em boa parte por sofrer menos danos da broca-dos-ponteiros (Hypsipyla grandella). O crescimento é bastante variável, indo de lento a moderado, com produtividade volumétrica máxima registrada de 13,50 m³/ha/ano aos 10 anos. Em Santa Helena (PR), o plantio misto a pleno sol superou o plantio puro em todos os parâmetros aos 6 anos. Em mata secundária do Rio Grande do Sul, o fator de forma medido variou de 0,40 a 0,94.
A precipitação média anual em que ocorre vai de 850 mm (Minas Gerais) a 3.700 mm (São Paulo), com chuvas bem distribuídas na Região Sul (exceto o norte do Paraná) e concentradas no verão ou no inverno nas demais regiões. A deficiência hídrica vai de nula, no Sul, a forte, com estação seca de até 6 meses, no norte e sudeste de Minas Gerais e no norte de Mato Grosso. A temperatura média anual situa-se entre 13,4ºC (Campos do Jordão, SP) e 24,4ºC (Januária, MG), com mínima absoluta de -8,4ºC (Castro, PR) e ocorrência de 0 a 30 geadas anuais em média, chegando a 81 no extremo. Os tipos climáticos de Köppen abrangem o tropical (Af, Am, Aw), o subtropical úmido (Cfa), o subtropical de altitude (Cwa, Cwb) e o temperado úmido (Cfb).
Desenvolve-se naturalmente em solos de fertilidade química variada, da boa à baixa, inclusive nos topos de morro. O melhor crescimento, porém, ocorre em solos férteis com boas propriedades físicas — profundos, bem drenados, com boa disponibilidade hídrica e textura argilosa a areno-argilosa.