Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Canela-sassafrás
Ocotea odorifera
- 5 a 15 m (até 28 m)Altura
- Médio portePorte
Também conhecida como: canela, canela-cheirosa, canela-funcho, canela-mulungu, canela-parda, casca-cheirosa, casca-preciosa, louro-cheiroso, louro-sassafrás, louro-tapinhoã, sassafrás-amarelo, sassafrás-preto, sassafrás-rajado, pau-funcho, sassafrás, sassafrás-brasileiro, sassafrás-funcho, sassafrás-do-brasil, sassafrás-do-paraná, sassafrasinho
Botânica
Pela classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Magnoliales e família Lauraceae. Seu nome científico é Ocotea odorifera (Vellozo) J. G. Rohwer, publicado em 1986. Já foi tratada na literatura sob outros nomes, como Laurus odorifera, Ocotea pretiosa e Ocotea pretiosa var. pretiosa. O termo Ocotea vem de um nome popular usado na Guiana, enquanto odorifera faz referência ao forte aroma de safrol que toda a planta libera.
Árvore perenifólia que costuma medir de 5 a 15 m de altura e ter de 30 a 60 cm de DAP, podendo chegar, quando adulta, a 28 m de altura e 120 cm de DAP. O tronco em geral é curto e tortuoso, escavado, com quinas irregulares bem marcadas, pequenas dilatações na base e ramificação frequentemente baixa; o fuste alcança até 8 m. A ramificação é dicotômica, irregular e ascendente, e os exemplares isolados formam copa globosa e densamente enfolhada. A casca tem até 12 mm de espessura: por fora é castanho-acinzentada a castanho-pardacenta, rígida, marcada por cicatrizes de descamação e lenticelas salientes; por dentro varia de bege a salmão e exala odor característico forte. As folhas são alternas, simples, inteiras e oblongo-lanceoladas, de 5 a 15 cm de comprimento por 1,5 a 5 cm de largura, e liberam um cheiro inconfundível ao serem amassadas. As flores, brancas ou amarelas e muito perfumadas, surgem em inflorescências glabras paniculadas nas extremidades dos ramos, com até 5 cm e até nove flores cada. O fruto é uma baga elíptica, quase lisa e castanha, de até 2,5 cm de comprimento por 1,2 cm de diâmetro, parcialmente envolvida por uma cúpula carnosa hemisférica. A semente é marrom com estrias claras, mede até 12 mm por 9 mm e é bastante aromática.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,70 a 0,80 g/cm³ a 15% de umidade e básica de 0,531 a 0,65 g/cm³), de superfície lustrosa e lisa, textura média e uniforme, grã direita e ocasionalmente diagonal, com cheiro forte e agradável e gosto levemente picante. O alburno e o cerne variam muito de cor, do pardo-claro-amarelado ao castanho ou quase negro, com veios escuros frequentes. É muito durável quando imersa em água, mas tem resistência reduzida ao apodrecimento em outras condições e baixa permeabilidade a preservantes. A secagem é lenta por causa dos óleos essenciais, mas a madeira é fácil de trabalhar e aceita bem verniz. Por essas qualidades, é empregada em móveis, marcenaria, construção civil (vigas, caibros, ripas, tacos, tábuas de assoalho, portas, venezianas, painéis, divisórias, rodapés, molduras), embalagens, esquadrias, embarcações, folhas faqueadas decorativas e acabamento interno, sendo muito apreciada em tanoaria. Serve ainda como lenha de qualidade aceitável, mas não se presta à produção de celulose e papel. Quimicamente, contém óleo volátil rico em safrol, além de pireno, felandreno, eugenol, taninos, mucilagens e resinas. O óleo essencial, extraído por destilação a vapor de tronco, raízes, casca e folhas, foi historicamente muito explorado: a produção industrial começou em 1940, em Rio do Sul (SC), e por seu safrol — usado em perfumaria, medicina e indústria — o Brasil chegou a ser o maior produtor mundial, sobretudo em Santa Catarina. Em 1991 o Ibama proibiu o corte de plantas nativas como a canela-sassafrás, levando o país a importar safrol; desde então, a pimenta-longa (Piper hispidinervium), de origem amazônica, vem sendo estudada como alternativa promissora. O teor de óleo essencial gira em torno de 0,65% no sul de Minas Gerais e chega a 1% em Santa Catarina. No Paraná e em Santa Catarina, a madeira é tradicionalmente usada no artesanato de garrafas e barricas para armazenar aguardente, à qual transfere aroma e sabor próprios. A forragem apresenta de 13% a 15,5% de proteína bruta e de 6% a 7,3% de tanino. Na medicina popular, cascas e flores são empregadas por suas propriedades estimulantes, sudoríferas, diuréticas, carminativas, analgésicas e depurativas, no tratamento de dermatoses, gota, artrite reumatoide, sífilis, halitose, afecções de pele, picadas de insetos e outras queixas; o óleo destilado também tem uso terapêutico.
Trata-se de espécie secundária tardia ou clímax tolerante à sombra. Na floresta primária, a regeneração natural ocorre de forma satisfatória em diversos estratos; em áreas exploradas, restam apenas plantas jovens poupadas ou brotações de tocos e raízes, e não há regeneração na vegetação secundária. A dispersão é irregular e descontínua: em alguns locais forma povoamentos densos, enquanto em outros é rara ou inexistente. Ocorre principalmente na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), em suas formações Baixo-Montana, Submontana, Montana e Alto-Montana, na Floresta de Tabuleiro do norte do Espírito Santo e na Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária); em menor grau, aparece na Floresta Estacional Semidecidual (formações Aluvial e Montana), na Floresta Estacional Decidual e nos campos rupestres da Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais. Em levantamentos fitossociológicos, foram registradas 18 árvores por hectare às margens do Rio do Peixe (SP) e apenas uma árvore por hectare em Itutinga (MG).
A floração varia conforme a região: ocorre de agosto a setembro em São Paulo, de agosto a dezembro em Minas Gerais, de outubro a dezembro no Rio Grande do Sul, de dezembro a fevereiro em Santa Catarina e de dezembro a abril no Paraná. Os frutos amadurecem de maio a junho em Minas Gerais, de maio a novembro em São Paulo, de junho a setembro no Paraná e em Santa Catarina, e de junho a dezembro no Rio Grande do Sul. A frutificação é irregular entre os anos e raramente abundante, pois durante o longo período de maturação muitos frutos caem prematuramente. O processo reprodutivo costuma começar por volta dos 20 anos em plantios, embora em ensaios em Campo Mourão (PR), sobre solo de alta fertilidade, a frutificação tenha iniciado 11 anos após o plantio.
A planta é hermafrodita e sua polinização depende sobretudo de abelhas e de diversos insetos pequenos, entre eles os sirfídeos (Diptera: Syrphidae). A dispersão de frutos e sementes é zoocórica, realizada principalmente por aves, macacos e roedores.
Plantio e silvicultura
Os frutos são colhidos quando mudam da cor verde para a violácea, com ou sem a calota que os envolve; retira-se a calota à mão e macera-se a polpa que recobre a semente, que depois é seca em peneiras em local ventilado. Cada quilo reúne de 650 a 1.200 sementes. A espécie apresenta dormência dupla, do tegumento e do embrião, recomendando-se escarificação em ácido sulfúrico concentrado por 5 minutos seguida de estratificação em areia úmida por 60 dias, usando-se apenas uma camada de sementes; sem esse tratamento, a germinação é irregular e pode se estender por até 9 meses. As sementes têm comportamento recalcitrante, perdendo a viabilidade com rapidez quando armazenadas em ambiente não controlado.
Recomenda-se semear em canteiros de estratificação com areia e repicar as plântulas, de 1 a 3 semanas após a germinação, para sacos de polietileno de pelo menos 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio. A germinação é hipógea e começa entre 20 e 60 dias após a semeadura, com poder germinativo em geral de 30% a 90%; as mudas ficam prontas para o plantio cerca de 9 meses depois. É uma espécie exigente quanto ao substrato na fase de viveiro, requerendo matéria orgânica e adubação suplementar. Para auxiliar a conservação genética, vêm sendo testados métodos de propagação vegetativa como estaquia, enxertia e micropropagação; o mais empregado tem sido o de estacas caulinares de ramos finos, embora o enraizamento nem sempre seja obtido, e há estudos de cultura in vitro a partir de brotações de árvores adultas.
Espécie esciófila, exige sombreamento de baixa a média intensidade quando jovem e é apenas medianamente tolerante ao frio nos primeiros cinco anos, sofrendo muito com temperaturas negativas. Tem crescimento monopodial, com galhos dispostos em pseudo-verticilos e inseridos em ângulos de 90º na fase jovem; como a desrama natural é deficiente, requer poda artificial. Plantios puros a pleno sol fracassaram, mas em plantio misto a pleno sol e em solo fértil a espécie apresenta crescimento, forma e sobrevivência satisfatórios; recomenda-se plantá-la em linhas ou grupos, com vegetação matricial em faixas abertas em capoeirões e matas degradadas, havendo bom exemplo de cultivo sob povoamentos de pínus em Santa Catarina. A árvore rebrota de tocos e raízes após o corte. Vale destacar que a Ocotea odorifera consta da lista oficial de espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção, na categoria em perigo: a reprodução irregular, o grande espaçamento entre árvores, a redução de polinizadores e o histórico de exploração madeireira dificultam sua regeneração, tornando urgente um programa de preservação.
O desenvolvimento da canela-sassafrás é muito lento. Em Campo Mourão (PR), a produção volumétrica calculada por valores individuais foi de 2,75 m³/ha/ano com casca. Estima-se uma rotação mínima de 42 anos para o aproveitamento da espécie na extração de safrol, prazo necessário para se obter uma tora com pelo menos 40 cm de DAP, com casca.
A precipitação média anual nas áreas de ocorrência vai de 1.100 mm, no Rio de Janeiro, a 3.700 mm, em São Paulo, com chuvas bem distribuídas no Sul e na Serra de Paranapiacaba (SP) e concentradas no verão no Sudeste. A deficiência hídrica é nula no Sul, pequena a moderada no inverno do sul de Minas e do centro-leste de São Paulo, e moderada no norte do Espírito Santo e sul da Bahia, onde a estação seca chega a 4 meses. A temperatura média anual varia de 16,2 ºC (Castro, PR) a 23,6 ºC (Rio de Janeiro, RJ); a média do mês mais frio fica entre 12,2 ºC e 21,3 ºC e a do mês mais quente entre 19,9 ºC e 26,5 ºC, com mínima absoluta de -8,4 ºC em Castro (PR). O número de geadas vai de 0 a 13 por ano em média, podendo chegar a 35 no Sul. Os tipos climáticos de Köppen incluem o tropical (Af e Aw), o subtropical úmido (Cfa), o temperado úmido (Cfb) e o subtropical de altitude (Cwa e Cwb).
A espécie é exigente quanto ao solo e indica elevada fertilidade química. Em plantios experimentais, desenvolve-se melhor em solos férteis, profundos, bem drenados, de textura argilosa e boas propriedades físicas.