Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Canela-preta
Ocotea catharinensis
- 10 a 25 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: canela, canela-amarela, canela-bicha, canela-bicho, canela-broto, canela-toiça, canela-brota, canela-coqueira, canela-pimenta, canela-sassafrás, canela-coqueiro, canela-parda, canela-pinho, canelinha-preta
Botânica
Pela classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas) e ordem Myrtiflorae, dentro da família Lauraceae. Seu nome científico é Ocotea catharinensis, descrito por Mez em 1901. O termo genérico Ocotea vem de um nome popular usado na Guiana, enquanto o epíteto catharinensis faz referência a Santa Catarina, estado onde foi coletado o exemplar-tipo.
Árvore perenifólia que costuma medir de 10 a 25 m de altura e 60 a 100 cm de DAP, podendo, quando adulta, alcançar 45 m e mais de 150 cm de DAP. Em altitudes elevadas, como na Floresta Ombrófila Densa Alto-Montana a 1.400 m no Paraná, ocorrem indivíduos bem menores, de 3,5 a 6 m de altura e 4 a 22 cm de DAP. O tronco varia de reto a levemente tortuoso, sendo raramente cilíndrico, com quinas ou reentrâncias; nas encostas da Serra do Mar pode aparecer curvo e inclinado, e o fuste chega a 20 m. A ramificação é cimosa, larga e tortuosa, formando copa ampla, espalhada, achatada e muito densa, frequentemente umbeliforme, de folhagem verde-escura e brilhante ao sol. A casca pode ter até 20 mm de espessura: a externa é cinza-escura a marrom-escura, com cicatrizes côncavas resultantes da descamação em placas, sobre a qual se destacam pequenas lenticelas na casca nova; a interna é amarelada e exala odor resinoso agradável. As folhas são simples, inteiras, coriáceas, de formato oblongo-lanceolado a lanceolado, bem acuminadas, com 6 a 10 cm de comprimento por 2 a 3 cm de largura, apresentando tufos de pelos (domácias) nas axilas das nervuras basais, abaulados na face superior e cobertos de pelos esbranquiçados conspícuos na inferior; o pecíolo é curto, com cerca de 1 cm. As flores são verde-amareladas e miúdas, agrupadas em pequenos racemos axilares de 1 a 3 cm. O fruto é bacáceo, elipsoide, pardo-escuro, medindo 25 mm por 15 mm, parcialmente envolto por uma cúpula hemisférica negra de 10 a 18 mm de diâmetro, lisa ou com poucas verrúculas. A semente é marrom, com estrias escuras.
Uso e ecologia
A madeira da canela-preta é moderadamente densa (0,70 a 0,80 g/cm³ a 12% de umidade), com alburno amarelo-claro levemente acastanhado e cerne que varia de marrom-acinzentado a amarelo-acinzentado. Tem superfície lisa, brilho discreto, textura média e grã direita a levemente ondulada, exalando odor resinoso característico quando cortada ou raspada. É resistente à umidade e a organismos xilófagos, com durabilidade moderada em contato com o solo, embora seja de difícil impregnação por preservantes. Serra, aplaina e lixa com facilidade, alcança acabamento bom a muito bom e fica atraente quando envernizada. Por ter retratibilidade e resistência medianas e desenhos bonitos, presta-se à marcenaria interna e externa, construção civil e naval, vigas, tacos, móveis, assoalhos, laminação, painéis, compensados, dormentes e mourões; também fornece lenha de qualidade aceitável, mas não serve para celulose e papel. Da casca extrai-se um óleo essencial de dez componentes identificados, com predominância de linalol (95,7%), de grande valor econômico por seu aroma de rosa, usado em perfumaria e cosméticos. No campo medicinal, é adstringente em casos de diarreia e disenteria; casca e raiz são empregadas contra azia, gases e enjoos, e povos indígenas do Paraná e de Santa Catarina utilizam a casca do caule como fortificante para gestantes. Foram detectadas na espécie lignanas e neolignanas com atividade antitumoral.
Trata-se de uma espécie clímax, típica do interior da floresta primária, onde se regenera naturalmente em diversos estratos. Costuma apresentar baixa densidade de plântulas estabelecidas por metro quadrado e alta proporção de sementes em deterioração, começando a surgir na fase de capoeirão durante a sucessão. Ocorre na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), nas formações Alto-Montana, Montana e Submontana, onde é árvore característica e chega a ser a terceira em volume de madeira no Paraná e em Santa Catarina, sendo mais abundante no alto das encostas e rara na planície litorânea. Aparece com menor frequência na Floresta Ombrófila Mista Montana (Floresta com Araucária), infiltrando-se nos capões de Araucaria angustifolia do Primeiro Planalto Paranaense, como em Curitiba, e era abundante nas disjunções de araucária do Vale do Itajaí-açu, em Santa Catarina. Na região de Porto Alegre é vista nos morros graníticos, em Floresta Estacional Semidecidual. Domina boa parte do estrato superior (30% a 50%) e ocorre em todos os estágios de desenvolvimento. Em Blumenau (SC), estudos registraram dominância da espécie, com 18,44% da área basal total e 95 indivíduos por hectare (50 árvores, 15 arvoretas e 35 arbustivos). Numa área de 14 ha recém-explorada em Ibirama (SC), restavam apenas quatro indivíduos com DAP acima de 40 cm e 64,6% dos indivíduos com menos de 15 cm. Em Itutinga (MG) registrou-se cerca de uma árvore por hectare.
A floração ocorre de junho a janeiro no Paraná, de julho a março em Santa Catarina e em setembro em São Paulo. Os frutos amadurecem de maio a agosto no Paraná e em São Paulo e de novembro a dezembro em Santa Catarina.
Planta hermafrodita, polinizada sobretudo por abelhas e diversos pequenos insetos. A dispersão dos frutos e sementes é zoocórica, principalmente por mamíferos e aves. O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) alimenta-se de seus frutos.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos direto da árvore quando ficam verde-amarelados com manchas pretas intensas e começam a cair, ou recolhidos do chão após a queda. Em seguida são lavados, macerados e levados à peneira para secagem. Sementes coletadas no Parque Estadual da Cantareira (SP) começaram a germinar a partir de 253 dias após o florescimento e atingiram a maturação fisiológica aos 331 dias, quando a umidade dos frutos caiu para 41,6%. Cada quilo contém de 900 a 1.500 sementes. A espécie tem dormência tegumentar, e a retirada do pericarpo favorece a germinação. As sementes são recalcitrantes: perdem a viabilidade rapidamente quando armazenadas em sala.
Recomenda-se semear duas sementes em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou em tubetes grandes de polipropileno; quando preciso, a repicagem é feita de 2 a 4 semanas após a germinação. A germinação é hipógea, inicia-se entre 30 e 120 dias após a semeadura e fica, em geral, entre 40% e 70%. As mudas chegam ao tamanho adequado para plantio cerca de 9 meses depois da semeadura. Na propagação vegetativa, experimentos com embriogênese somática obtiveram baixo enraizamento (10%) e uma única raiz longa em explantes cultivados com nutrientes reduzidos, enquanto outros pesquisadores desenvolveram um sistema de embriogênese somática de alta frequência. O cultivo de eixos embrionários permite avaliar a capacidade germinativa em 2 a 3 semanas; o carvão ativado não influenciou a germinação, mas a luz favoreceu o desenvolvimento das plântulas.
Espécie esciófila, exige sombreamento de intensidade leve a moderada na fase jovem e não tolera temperaturas baixas. Tem hábito de crescimento monopodial e boa desrama natural. O plantio a pleno sol deve ser evitado por causa de suas exigências ecológicas; recomenda-se plantio misto com pioneiras ou secundárias, ou em vegetação matricial arbórea, em faixas abertas na vegetação secundária. Rebrota da touça após o corte. A canela-preta consta da lista oficial de espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção, na categoria vulnerável, sendo também citada como rara ou ameaçada em Santa Catarina, rara no Paraná e na mesma situação no Rio Grande do Sul, o que torna urgentes medidas para conter o extrativismo predatório e assegurar sua conservação.
O crescimento inicial em altura é muito lento, estando entre as três espécies de pior desempenho nesse aspecto dentre as cem tratadas na obra de referência.
A precipitação anual média varia de 1.200 mm em Santa Catarina a 3.700 mm na Serra de Paranapiacaba (SP). As chuvas são uniformemente distribuídas do litoral de São Paulo ao Rio Grande do Sul e periódicas no sul de Minas Gerais e no centro-sul de São Paulo. A deficiência hídrica é nula na Região Sul e na Região Serrana do Rio de Janeiro, e pequena, com estação seca pouco marcada, no sul de Minas Gerais e no centro-sul de São Paulo. A temperatura média anual fica entre 16,5ºC (Curitiba) e 21,9ºC (Joinville); a média do mês mais frio varia de 12,2ºC (Curitiba) a 18,4ºC (Bauru) e a do mês mais quente de 19,9ºC (Curitiba) a 26,5ºC (Joinville), com mínima absoluta de -5,8ºC (Orleães, SC). As geadas são de 0 a 3 por ano em média, podendo chegar a 10 na Região Sul, mas predominam locais sem geadas ou com poucas. Os tipos climáticos de Köppen presentes são tropical (Af) no litoral do Paraná e de São Paulo, subtropical úmido (Cfa) no nordeste do Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, temperado úmido (Cfb) em Curitiba, subtropical de altitude (Cwa) no centro-sul de São Paulo e (Cwb) na capital paulista, na Serra dos Órgãos (RJ) e no sul de Minas Gerais.
Desenvolve-se naturalmente em solos profundos, bem drenados e ricos em matéria orgânica, de textura franca a argilosa.