Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Canela-guaicá
Ocotea puberula
- 10 a 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: amansa-besta, louro-pimenta, louro-vermelho, canela, canela-amarela, canela-babosa, canela-branca, canela-de-corvo, canela-pinho, canelão, guaicazeiro, guaitaveiro, canela-guaiacá, canela-parda, canela-pimenta, canelinha, canela-preta, canela-sebo, guaiacá, guaicá, louro-abacate
Botânica
Pertencente à família Lauraceae, a espécie tem como nome científico aceito Ocotea puberula (Nees et Martius) Nees, descrita em 1836. Já foi tratada sob a sinonímia Strychnodaphne puberula Nees et Martius. O nome do gênero Ocotea vem de uma designação popular usada na Guiana, enquanto o epíteto puberula remete a folhas desprovidas de pelos.
Árvore perenifólia que normalmente alcança de 10 a 15 m de altura e de 20 a 60 cm de diâmetro à altura do peito (DAP), podendo chegar, quando adulta, a 25 m de altura e 90 cm de DAP. O tronco varia de cilíndrico a irregular e de reto a levemente inclinado, com fuste de até 12 m. A ramificação é simpódica, dicotômica a tricotômica, formando copa ampla, umbeliforme ou irregular, sempre verde e densa. A casca pode chegar a 30 mm de espessura: a externa é acastanhada a pardo-grisácea, persistente, áspera e verrucosa, com pequenas fendas e muitas lenticelas grandes; a interna é bege uniforme, pastosa e pegajosa, oxidando rapidamente em contato com o ar. As folhas são simples, alternas, subcoriáceas e lanceoladas, de margem ondulada, com 8 a 12 cm de comprimento por 3 a 6 cm de largura e pecíolo de até 3 cm; quando amassadas, soltam odor característico e tornam-se pegajosas. As flores, pequenas e de cor branca a bege, reúnem-se em panículas axilares densas e multifloras de 3 a 10 cm de comprimento, sendo a planta dioica e com botões florais esverdeados. O fruto é uma baga subglobosa marrom-escura, de 10 a 15 mm de comprimento por 6 a 7 mm de diâmetro, com cúpula pequena, plana e de cor vermelha. As sementes são elípticas, marrom-escuras com estrias pretas, medindo de 4 a 10 mm de comprimento por 2 a 5 mm de diâmetro.
Uso e ecologia
Por ter baixa resistência mecânica, a madeira presta-se sobretudo a construções internas e à construção civil leve, além de marcenaria e carpintaria, estrutura de móveis, móveis populares, caixas, portas, painéis, forros, tabuados, embalagens, usos domésticos em geral, laminação, compensados de base para lâminas nobres e revestimentos internos. É madeira leve, com massa específica aparente de 0,39 a 0,49 g/cm³ entre 12% e 15% de umidade; o alburno é branco-amarelado e o cerne varia de pardo-amarelado a castanho-rosado. A superfície é medianamente lisa, de brilho discreto, textura média e heterogênea, grã direita a irregular e cheiro e gosto indistintos. É facilmente atacada por fungos em ambiente úmido, mas mostra-se permeável a soluções preservantes sob tratamento por pressão. Embora aplaine e lixe sem grande dificuldade, o acabamento fica áspero e felpudo por conta da grã, o que limita seu aproveitamento. É possível laminá-la com a tora crua, sem vaporização, reduzindo custos. Como lenha tem péssima qualidade, mas serve bem para celulose e papel, com fibras curtas de 0,72 a 1,19 mm. Da casca interna exsuda goma ou resina pegajosa, e dela se isolou um alcaloide do grupo da aporfina chamado ocoteína (C21H23O5N). A forragem apresenta de 17% a 20% de proteína bruta e de 6% a 9% de tanino.
Espécie secundária inicial, é uma das mais comuns do Planalto Sul-Brasileiro, presente nas fases intermediárias e avançadas da sucessão secundária. Coloniza clareiras em florestas primárias ou em matas exploradas, podendo dominar certas formações secundárias; em plantios de Pinus elliottii, após o primeiro desbaste, ocupa de forma quase pura o segundo estrato do dossel. Em Misiones, na Argentina, é uma das poucas espécies que se regeneram naturalmente em pastagens abandonadas, sendo rara na floresta primária intacta. É encontrada principalmente na Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária), na formação Montana, e na Floresta Estacional Semidecidual, onde ocupa o estrato codominante; ocorre também na Floresta Ombrófila Densa (Mata Atlântica), nas formações Submontana e Montana, na Floresta Estacional Decidual, nas formações Montana e Baixo-Montana, e na mata ciliar do Distrito Federal. Em densidade, foram registrados de 12 a 18 exemplares por hectare na Selva Misionera, na Argentina, e nove indivíduos por hectare em Floresta Estacional Decidual no noroeste do Rio Grande do Sul.
A floração ocorre em março, em Santa Catarina; de março a setembro, no Rio Grande do Sul; e de maio a outubro, no Paraná, iniciando-se o processo reprodutivo a partir dos 10 anos de idade em plantios. Os frutos amadurecem de dezembro a janeiro, no Rio Grande do Sul, e de dezembro a fevereiro, no Paraná.
Por ser dioica, a planta depende de fecundação cruzada, e suas flores são visitadas por inúmeros insetos pequenos das ordens Hymenoptera, Lepidoptera, Diptera, Thysanoptera e Hemiptera, com destaque para a abelha europeia ou africanizada (Apis mellifera). A dispersão de frutos e sementes é zoocórica, principalmente por aves atraídas pela cor vermelha da cúpula que envolve a semente, o que torna a espécie muito útil em projetos de atração da avifauna.
Plantio e silvicultura
A coleta é orientada pela mudança de cor: a cúpula passa de verde a vermelho-vivo e o fruto, de verde a preto-azulado. Costuma-se recolher os frutos do chão, lavá-los e macerá-los até liberar a semente da polpa carnosa, secando-as depois em peneira em local ventilado. Cada quilo reúne de 3 mil a 7.861 sementes no Brasil e cerca de 16.234 na Argentina. Os frutos produzem substâncias que inibem a germinação, o que sugere que ela só ocorra após a liberação da semente na natureza, por degradação ou ingestão por animais; somado a isso, há dormência fisiológica, recomendando-se escarificação com ácido sulfúrico por 5 minutos, sem a qual a germinação é desuniforme e pode levar até 1 ano. As sementes são recalcitrantes, perdendo toda a viabilidade em até 3 meses em ambiente sem controle, sendo difícil conservá-las; recomenda-se guardá-las junto com os frutos, cujas substâncias inibidoras mantêm a dormência.
Após a quebra de dormência, as sementes permanecem em areia por 60 dias e são semeadas em canteiros de pré-germinação; em seguida, as plântulas são repicadas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou para tubetes de polipropileno de 15 cm por 3 cm. A repicagem deve ser feita assim que a parte aérea emerge ou até os 7 cm de altura. A germinação é hipógea, iniciando entre 20 e 50 dias quando a dormência foi superada (e podendo levar de cem dias a 12 meses sem esse tratamento), com poder germinativo irregular de até 75%; as mudas atingem porte para plantio cerca de 9 meses após a semeadura. É viável aproveitar mudas de regeneração natural, plantando-as com 30 a 60 cm de altura após 3 meses de adaptação no viveiro. As raízes formam micorrizas arbusculares em campo, sendo útil inocular no viveiro fungos dos gêneros Acaulospora e Glomus, usando como substrato solo coletado sob árvores adultas. A espécie também pode ser propagada por estacas caulinares de ramos finos.
Espécie semi-heliófila, tolera sombreamento de baixa a média intensidade na fase juvenil; suas folhas pequenas e grossas podem ser uma adaptação a menores níveis de luz e à resistência ao estresse hídrico. É resistente ao frio, com árvores adultas suportando, em florestas naturais, temperaturas de até -11ºC. Em plantio, cresce de forma monopodial e com ramificação leve, apresentando desrama natural sob espaçamento denso na regeneração natural. Pode ser cultivada a pleno sol em plantio puro, em plantio misto com pioneiras, ou em faixas abertas na vegetação secundária, plantada em linhas ou grupos. Tem boa regeneração natural na vegetação secundária e bom desenvolvimento em altura, e seu manejo é viável, como se observa em povoamentos de Pinus elliottii após o primeiro desbaste, quando forma um segundo estrato quase puro. Rebrota da touça depois do corte.
Na maioria dos plantios experimentais, o desempenho silvicultural em regeneração artificial é fraco; ainda assim, em Foz do Iguaçu (PR), registrou-se incremento médio anual volumétrico máximo de 8,65 m³/ha. É classificada como de crescimento moderado. Plantas de regeneração natural mostram crescimento e forma promissores, com incremento diamétrico anual de 0,6 a 2,0 cm (média de 1,1 cm). A idade média de corte teoricamente recomendada é de 45 anos.
Adapta-se a precipitação pluvial média anual entre 1.100 mm, no Rio de Janeiro, e 3.700 mm, na Serra de Paranapiacaba (SP). As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul (exceto no norte do Paraná) e concentradas no verão na Região Sudeste. A deficiência hídrica é nula no Sul, pequena no inverno do norte do Paraná e moderada no norte do Espírito Santo e sul da Bahia, com estação seca de até 4 meses. A temperatura média anual varia de 14,7ºC (Bom Jesus, RS) a 23,7ºC (Rio de Janeiro, RJ), com mínima absoluta de -11,6ºC (Xanxerê, SC) e de 0 a 30 geadas por ano em média (máximo de 57 na Região Sul). Os tipos climáticos de Koeppen abrangem o tropical (Af e Am), o subtropical úmido (Cfa), o subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e o temperado úmido (Cfb).
Na natureza, cresce em solos variados, sendo mais frequente em solos de baixa fertilidade química, bem drenados, ricos em alumínio e com altos teores de matéria orgânica. Em plantios experimentais, no entanto, desenvolve-se melhor em solos férteis, bem drenados e de textura franca a argilosa.