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Foto de Canela-fogo

Foto: Ana Laura Fiori Dalcin (CC BY) via GBIF

Canela-fogo

Cryptocarya aschersoniana Mez

Lauraceae Mata AtlânticaCerrado
  • até 30 mAltura
  • Grande portePorte
MadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: batalheira, cajati, canela, canela-batalha, canela-branca, canela-de-jacu, canela-utinga, canela-de-porco, canela-amarela, canela-areia, canela-pimenta, canela-pururuca, canela-bastarda, tiriveiro

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pertencente à família Lauraceae, a espécie foi descrita por Mez em 1889. O nome do gênero Cryptocarya nasce da combinação dos termos gregos kripton, que significa escondido, e karyon, que quer dizer noz, em referência à noz que fica oculta dentro do tubo floral que continua crescendo após a floração. São reconhecidos como sinônimos botânicos os nomes Cryptocarya minutiflora Mez, Cryptocarya subcorymbosa Mez e Cryptocarya moschata Nees.

Descrição botânica

Trata-se de uma arvoreta a árvore de folhagem permanente que, quando adulta, pode alcançar cerca de 30 m de altura e até 110 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). O tronco costuma ser reto ou um pouco tortuoso, de fuste curto e cheio de nós. A ramificação é cimosa e sinuosa, formando uma copa ampla de folhagem que varia do verde-escuro ao amarelado; em exemplares isolados, essa copa fica quase simétrica. A casca chega a 10 mm de espessura: por fora é praticamente lisa enquanto a planta é jovem e, com a idade, torna-se grossa, áspera, de tom ferruginoso e descama em placas; por dentro é castanho-clara, com fibras entrelaçadas e cheiro próprio. As folhas são rígidas e coriáceas, totalmente glabras na face dorsal, elípticas, de base aguda e ápice levemente acuminado, medindo cerca de 17 cm de comprimento por 1,5 a 2,5 cm de largura. Começam verde-claras na juventude, passam por uma tonalidade violácea ao envelhecer e estabilizam num verde uniforme. As inflorescências são densas e muito floridas, ferrugíneo-estrigosas, com brácteas e bractéolas pequenas e bem tomentosas. As flores são bissexuais, esverdeadas, pouco pilosas a quase glabras, com minúsculos pelos ferrugíneos. O fruto é uma núcula amarela de pericarpo espessado e não costulado, com superfície lisa e textura firme e endurecida, característica que a distingue da canela-nhutinga (Cryptocarya moschata). A semente possui endocarpo mucronado no ápice, com 6 a 10 mm de diâmetro.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasenergéticoapícola
Produtos e utilizações

A madeira é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,55 a 0,60 g/cm³). O cerne é branco, às vezes com um leve tom rosado ou branco-encardido, uniforme, e o alburno não se distingue dele. A superfície é lisa ao toque, com pouco brilho, textura média, grã direita e sem cheiro ou gosto marcantes. Embora seja muito buscada para laminados, sobretudo em Santa Catarina, e também empregada em tabuados, vigamentos em geral e mourões, a madeira não é das mais procuradas porque o grande teor de sílica amorfa impregnado em seus tecidos a torna difícil de serrar, desgastando exageradamente o fio das serras e demais ferramentas. A espécie também serve para a produção de lenha, mas é inadequada para celulose e papel. Entre o tegumento e a amêndoa da semente há um aroma exótico, com potencial de aproveitamento na indústria de perfumaria.

Aspectos ecológicos

É uma espécie secundária tardia ou clímax tolerante à sombra, encontrada com muita frequência em planícies e no início de encostas, em solos úmidos e no interior dos pinhais, adaptando-se a diferentes condições de solo das florestas primárias. No bioma Mata Atlântica, está presente na Floresta Estacional Decidual (formações Submontana e Montana, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul); na Floresta Estacional Semidecidual (formações Submontana, Montana e Alto-Montana, em Minas Gerais, no Paraná e em São Paulo, com 1 a 24 indivíduos por hectare); na Floresta Ombrófila Densa (formações Aluvial, Submontana e Montana, em São Paulo); e na Floresta Ombrófila Mista, a Floresta de Araucária (formação Montana, no Paraná, chegando a 21 indivíduos por hectare). Ocorre ainda em ambientes fluviais ou ripários no Distrito Federal, em Goiás, em Minas Gerais e no Paraná, com 2 a 5 indivíduos por hectare.

Floração e frutificação

A floração varia conforme a região: agosto a setembro em Minas Gerais; agosto a outubro no Distrito Federal; agosto a dezembro em São Paulo; setembro a novembro no Paraná; outubro a novembro em Santa Catarina; e novembro a março no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem de janeiro a abril no Paraná e em São Paulo, de fevereiro a abril em Minas Gerais e no Distrito Federal, e em julho no Rio de Janeiro.

Fauna associada

A espécie é monóica e tem a polinização feita sobretudo por abelhas e por diversos insetos de pequeno porte. A dispersão é autocórica, principalmente barocórica (por gravidade), além de hidrocórica e zoocórica: os frutos carnosos são consumidos por uma fauna variada, com destaque para o jacu (Penelope sp.).

Plantio e silvicultura
Sementes

A colheita deve ser feita quando o fruto muda do verde para o amarelo. Em geral, os frutos são recolhidos sob a árvore e despolpados à mão, pois o exocarpo se solta facilmente ao serem comprimidos entre os dedos; depois de despolpados, devem ser colocados em peneiras e secos em ambiente arejado. Cada quilo reúne cerca de 540 sementes. As sementes apresentam dormência, que pode ser quebrada armazenando-as com alta umidade em câmara fria por 60 dias, o que indica uma maturação pós-colheita. A viabilidade em armazenamento é muito curta e não passa de 60 dias, já que as sementes têm comportamento recalcitrante, com nível crítico de umidade em torno de 20%.

Produção de mudas

Recomenda-se a semeadura direta no campo. Quando houver necessidade de repicagem, ela deve ocorrer assim que surge o hipocótilo. Há indicação de uso de saco de polietileno preto-opaco de 15 x 25 cm com furos laterais, tendo como substrato terra de subsolo de mata de galeria de textura franco-argilosa, baixa fertilidade e pH ácido; quando produzidas em viveiro, as mudas devem ficar a 50% de sombreamento. A germinação é hipógea ou criptocotiledonar e a emergência começa entre 30 e 180 dias após a semeadura, com poder germinativo geralmente baixo (10% a 30%). As mudas atingem o tamanho adequado para o plantio por volta de quatro meses após a semeadura. A propagação vegetativa pode ser feita por enxertia de garfagem em fenda cheia, usando ramos ponteiros do próprio porta-enxerto, com 100% de pegamento.

Características silviculturais

A canela-fogo é claramente heliófila e se desenvolve melhor em clareiras ou em áreas de dossel aberto em regeneração. Ainda assim, mostra boa capacidade de aclimatação, conseguindo crescer tanto a pleno sol quanto sob forte sombreamento, ajustando a distribuição de biomassa entre caule e raiz; também tolera baixas temperaturas. O hábito é variável, do crescimento monopodial à ramificação irregular, com bifurcações e brotos-ladrões na base do colo, de modo que se recomenda poda de condução para formar um único fuste e poda anual dos galhos. Para a regeneração, indica-se o plantio misto, e a espécie rebrota intensamente da touça ou cepa. Em Minas Gerais, é recomendada para sombreamento de pastagens em sistemas agroflorestais, por ter copa regular que produz sombra densa, com diâmetro de sombra de 6 a 8 m.

Crescimento e produção

Existem poucos dados sobre o crescimento da espécie em plantios.

Clima

A precipitação média anual vai de 1.400 mm, em São Paulo, a 2.000 mm, no Rio Grande do Sul. As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul (exceto no norte do Paraná) e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula na Região Sul (fora o norte do Paraná) e no Itatiaia (RJ); de pequena a moderada no inverno, no Distrito Federal, no sul de Goiás e no sul de Minas Gerais; e de moderada a forte no inverno, no oeste de Minas Gerais. A temperatura média anual varia de 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) a 24,4 ºC (Martinho Campos, MG). A temperatura média do mês mais frio fica entre 8,2 ºC (Campos do Jordão, SP) e 19,1 ºC (Brasília, DF), e a do mês mais quente, entre 20,4 ºC (Castro, PR) e 23,6 ºC (Uberaba, MG). A mínima absoluta registrada é de -8,4 ºC (Castro, PR), podendo chegar a -12 ºC na relva. O número de geadas por ano vai, em média, de 0 a 30, com máximo absoluto de 81 no Planalto Sul-Brasileiro e em Campos do Jordão (SP). Pela classificação de Köppen, ocorre nos climas Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.

Solos

Segundo avaliadores populares da fertilidade do solo, a canela-fogo é vista como indicadora de terras pouco aptas à agricultura, pois aparece naturalmente em terrenos secos e pedregosos, em solos aluvionais, arenosos ou em margens de rio.