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Foto de Canela-fedida

Foto: Alan Hentz (CC BY 4.0) via inaturalist

Canela-fedida

Nectandra grandiflora

Lauraceae Mata AtlânticaCerrado
  • até 20 mAltura
  • Grande portePorte
MedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: caneleira, canela, canela-amarela, canela-sassafrás, canela-louro, canela-merda, canela-anhuva, canela-nhuva, niúva

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

A caneleira pertence à família Lauraceae e ao gênero Nectandra, dentro da ordem Laurales (classificada como Magnoliales no sistema de Cronquist). Seu nome científico completo é Nectandra grandiflora Nees & Mart. ex Nees, descrito originalmente em 1833 (Linnaea 8: 49). A espécie reúne diversos sinônimos botânicos, entre eles várias variedades descritas por Nees e Meissner (var. latifolia, var. oblongifolia, var. cuneata, var. longifolia e var. obovata), além de Gymnobalanus regnellii Meissner e Nectandra glauca Warming ex Meissner. O nome do gênero deriva do grego néctar (néctar) e anér (homem), em alusão às glândulas melíferas presentes nos estames e estaminódios; já o epíteto grandiflora, do latim, faz referência ao tamanho avantajado de suas flores.

Descrição botânica

Árvore perenifólia (sempre-verde), com troca foliar gradual. Os exemplares de maior porte chegam a cerca de 20 m de altura e 70 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo) na fase adulta, embora em ambientes desfavoráveis possa não passar de 1,5 m. O tronco é reto ou levemente tortuoso, de seção achatada, com fuste em geral curto, de no máximo 5 m. A ramificação é simpódica e irregular, formando copa ampla, globosa e densa de baixa a média altura; os ramos jovens têm coloração fusco-ferrugínea, são levemente angulares e exalam odor apimentado característico. A casca chega a 5 mm de espessura: externamente é cinza, rajada em tons claros, escamosa, com fissuras longitudinais e transversais que formam placas quase quadradas ou retangulares de 7 mm a 10 mm; internamente é verde-amarelada, de textura fibrosa e estrutura trançada. As folhas são simples e alternas, agrupadas nos ramos e nas pontas dos râmulos, com lâmina de 5 cm a 20 cm de comprimento por 2 cm a 7,5 cm de largura, de formato obovado, oblongo ou raramente elíptico, ápice curto-cuspidado a cuspidado, base atenuada a aguda e consistência coriácea; o pecíolo é glabro, negro, subcanaliculado, medindo de 0,7 cm a 1,8 cm. As inflorescências surgem quase sempre na axila de catafilos terminais, com pedúnculo de 1,5 cm a 6 cm e de 3 a 5 flores. As flores são brancas, muito perfumadas, pubérulas ou glabras e em geral pruinoso-glaucas, com 6 mm a 12 mm de diâmetro. O fruto é uma baga elipsoide de 6 mm a 20 mm de comprimento por 10 mm a 15 mm de largura, de polpa carnosa e cor preta quando madura, assentada sobre cúpula trompetiforme avermelhada quando viva. A semente é elipsoide, negra e lustrosa, com até 1 cm de comprimento.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícola
Produtos e utilizações

A madeira é moderadamente densa (0,61 g/cm³), de cor esbranquiçada, textura média e grã ondulada; é macia ao corte, oferece resistência mecânica média, boa durabilidade natural e tem cheiro fortemente adocicado e desagradável, ainda que sem o odor de excremento de algumas outras Lauraceae. É indicada para obras internas de carpintaria, vigamentos, caibros, ripas, batentes, forros, móveis, cabos de ferramentas e carrocerias, além de render lenha de boa qualidade. Não é adequada para celulose e papel. As flores têm valor apícola, fornecendo pólen e néctar. Na medicina, a casca do tronco contém cinco alcaloides (aporfina, laurolitsina, laurotetanina, boldina e isoboldina) somados a um sesquiterpeno (ácido cóstico); estudos preliminares com extrato alcoólico da casca indicaram atividade antitumoral contra o sarcoma 180 e o carcinoma de Ehrlich, enquanto extratos etanólicos das folhas levaram ao isolamento de flavonoides glicosilados com atividade antioxidante.

Aspectos ecológicos

Trata-se de uma espécie secundária tardia ou clímax tolerante à sombra. A caneleira costuma formar agrupamentos e aparece em clareiras de menos de 60 m². No bioma Mata Atlântica, ocorre na Floresta Estacional Decidual (formação Submontana, em Goiás e Minas Gerais), na Floresta Estacional Semidecidual (formações Submontana e Montana, com até 28 indivíduos por hectare), na Floresta Ombrófila Densa (das Terras-Baixas ao Alto-Montano, com até quatro indivíduos por hectare) e na Floresta Ombrófila Mista, ou floresta com araucária (formações Montana e Alto-Montana, com até 37 indivíduos por hectare). No Cerrado, é encontrada na Savana Florestada (cerradão), em São Paulo. Aparece ainda em matas ciliares de Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo (até dois indivíduos por hectare), em áreas de contato mangue/restinga e duna/restinga, em ecótono entre Cerrado e Floresta Estacional Semidecidual no Paraná e em restingas paulistas.

Floração e frutificação

A floração ocorre de fevereiro a dezembro em São Paulo, de março a novembro no Rio Grande do Sul e de maio a dezembro no Paraná; árvores com 3 m de altura já podem florescer. Os frutos amadurecem de outubro a março no Paraná e no Rio Grande do Sul, de novembro a fevereiro em São Paulo e em dezembro em Minas Gerais.

Fauna associada

É uma espécie monoica, polinizada por agentes não especializados. A dispersão de frutos e sementes é zoocórica: os frutos são avidamente procurados por pássaros, o que torna a planta relevante em projetos de restauração ambiental.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começa a queda espontânea, ou recolhidos do chão logo após cair. Antes do beneficiamento, convém deixá-los por 2 dias em sacos de aniagem; em seguida, maceram-se em peneira sob água corrente para retirar a polpa. As sementes limpas são então lavadas em solução de hipoclorito de sódio a 1% por 5 minutos — descartando-se as que boiarem — e enxaguadas três vezes em água. Cada quilo reúne de 462 a 1.300 sementes. Como apresentam dormência dupla, recomenda-se, como tratamento pré-germinativo, escarificação em ácido sulfúrico concentrado por 5 minutos seguida de estratificação em areia úmida por 30 dias, usando apenas uma camada de sementes. O comportamento fisiológico é recalcitrante, o que limita o armazenamento.

Produção de mudas

A semeadura pode ser feita em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio. Quando necessária, a repicagem deve ocorrer de 3 a 5 semanas após a germinação, que é hipógea ou criptocotiledonar. A emergência começa entre 50 e 100 dias após a semeadura, com poder germinativo de até 76,3%, e as mudas alcançam porte para plantio cerca de 9 meses após a semeadura.

Características silviculturais

A caneleira é semi-heliófila, tolerando sombreamento de baixa intensidade na fase juvenil, e também resiste a baixas temperaturas. Seu hábito é monopodial, com ramificação lateral leve e derrama natural razoável, o que exige poda dos galhos. O plantio puro a pleno sol é pouco indicado, dada a autoecologia da espécie.

Crescimento e produção

Há poucos dados sobre o desenvolvimento da caneleira em plantios, mas seu crescimento é considerado lento. Em uma floresta natural do centro-sul do Paraná, o incremento sazonal em diâmetro de 19 indivíduos avaliados ao longo de 7 anos foi de 0,307 cm — a segunda maior taxa entre sete espécies acompanhadas.

Clima

A precipitação média anual na área de ocorrência vai de 1.300 mm (Rio Grande do Sul e São Paulo) a 3.200 mm (São Paulo). As chuvas são uniformemente distribuídas na região Sul (exceto o norte do Paraná) e no sudoeste paulista, e periódicas nas demais regiões; a deficiência hídrica é nula nessas áreas mais úmidas e de pequena a moderada no inverno do centro-leste paulista, sul de Minas Gerais, Distrito Federal e sul de Goiás. A temperatura média anual oscila entre 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) e 24,5 ºC (Governador Valadares, MG), com mínima absoluta de -11,6 ºC registrada em Xanxerê, SC. As geadas vão de frequentes no inverno do Planalto Sul-Brasileiro a raras no restante da distribuição, podendo haver neve em parte da área. Segundo Köppen, a espécie ocorre nos climas Af, Am, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.

Solos

Na natureza, a caneleira aparece em diversos tipos de solo. Em plantios, porém, apresenta melhor desenvolvimento em solos férteis, bem drenados e de textura argilosa.