Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Canela-do-brejo
Ocotea pulchella (Nees) Mez
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: canela, canela-amarela, canela-prego, canela-lageana, caneleira, canelinha, canela-cantadeira, canela-lajeana, canela-laranja, canela-miúda, canela-pimenta, canela-pinho, canela-preta, canela-raposa, canela-seiva, canela-do-cerrado, canela-da-folha-dura, inhumirim
Botânica
Pertencente à família Lauraceae e ao gênero Ocotea, a espécie é classificada como Ocotea pulchella (Nees) Mez, descrita em 1889. Entre seus sinônimos botânicos figuram Mespilodaphne pulchella var. elliptica Meisn. e Mespilodaphne pulchella var. ferruginea Meisn. O nome do gênero Ocotea tem origem em uma denominação usada na Guiana.
Trata-se de uma planta que varia de arvoreta a árvore, com folhagem que pode ser perene ou semidecídua. Os exemplares de maior porte chegam a cerca de 30 m de altura e 120 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo) quando adultos. O tronco costuma ser levemente tortuoso, com fuste que alcança até 10 m. A ramificação é dicotômica e a copa é larga, porém pouco densa, exibindo folhagem de tom verde-fosco. A casca, de até 10 mm de espessura, tem superfície externa cinzento-escura, áspera a rugosa, marcada por lenticelas grandes; em árvores velhas pode apresentar fissuras, fendas e descamação em pequenas placas retangulares. As folhas são simples, alternas, inteiras, coriáceas e rijas, de pecíolo curto e base atenuada, com a face superior em geral glabra e a inferior recoberta por pilosidade ferrugínea muito característica, densa ou rala; a reticulação é nítida em ambas as faces, plana acima e saliente abaixo, com 3 a 4 nervuras secundárias de cada lado da principal. A lâmina é elíptica ou lanceolada, de ápice obtuso ou subacuminado, medindo de 2 a 8 cm de comprimento por 1 a 3 cm de largura, com domácias nas axilas das nervuras e, com frequência, face inferior cerulescente. As inflorescências surgem em panículas tirsiformes ou racemosas, axilares e raramente subterminais, curtas e geralmente com poucas flores, de tomento esparso a denso; o pedúnculo mede de 0,5 a 2 cm. As flores, masculinas e femininas, dispõem-se em tríades e têm coloração creme. O fruto é uma baga ovóide ou elipsóide, parcialmente envolvida por uma cúpula hemisférica de margem íntegra, com 4 a 5 mm de altura e 5 a 6 mm de diâmetro. A semente é elíptica, de cor marrom-escura, medindo de 2 a 5 mm de comprimento por 1 a 2,5 mm de diâmetro.
Uso e ecologia
A madeira é considerada de segunda qualidade e, por sua baixa durabilidade natural, presta-se a tabuados em geral, assoalhos, peças de uso interno, rodapés e forros. Como aceita bem a impregnação por produtos preservativos, amplia seu leque de aplicações, podendo servir à construção civil externa, leve e pesada, a dormentes, vigas, esteios, lâminas e compensados. Em Minas Gerais é uma das madeiras preferidas para mourões, por suportar as queimas frequentes dos campos. No aproveitamento energético, fornece carvão de baixo poder calorífico, com rendimento de carbonização de 26,86% e carbono fixo de 83,207%. A espécie também é apta para a produção de celulose e papel. Trata-se de uma madeira moderadamente densa (0,65 g/cm³ a 12% de umidade), de cerne e alburno indistintos e cor creme. Apresenta grã irregular, com abundância de máculas medulares (pequenas manchas claras causadas por ferimentos de insetos no câmbio), superfície levemente áspera, textura média e brilhante, sem cheiro ou gosto marcantes. A retratibilidade e a resistência mecânica são médias, a durabilidade natural em contato com o solo é baixa, mas a permeabilidade a preservativos é alta; no conjunto, é uma madeira de boa qualidade e fácil de trabalhar, ainda que de aparência pouco atraente.
Quanto ao grupo sucessional, comporta-se como secundária inicial, secundária tardia ou clímax tolerante à sombra. É especialmente abundante nas bordas de baías e pequenos rios, em áreas próximas a manguezais e caxetais permanentemente alagados, onde assume porte reduzido, e também é frequente no sub-bosque dos pinhais. No bioma Mata Atlântica aparece na Floresta Estacional Decidual da formação das Terras Baixas (RS); na Floresta Estacional Semidecidual das formações Montana e Alto-Montana (MG), com 2 a 58 indivíduos por hectare; na Floresta Ombrófila Densa nas formações Aluvial, Submontana e Montana (PR e SP); na Floresta Ombrófila Mista (Floresta de Araucária) das formações Aluvial e Montana (PR e RS), com 3 a 15 indivíduos por hectare; e na vegetação de Restinga (PR, SC e SP), com até 44 indivíduos por hectare. No bioma Cerrado ocorre no Cerrado lato sensu (MG e SP), com 36 a 440 indivíduos por hectare, no Cerradão e no Campo Cerrado (SP). Surge ainda em ambientes ripários (DF, MG e PR), em capões de Podocarpus lambertii (RS) e em florestas turfosas (RS e SP).
A floração varia conforme a região: de setembro a janeiro em Minas Gerais, de outubro a junho em São Paulo, de novembro a fevereiro no Paraná e de dezembro a março no Rio Grande do Sul. A frutificação, com frutos maduros, ocorre de março a maio no Paraná, de abril a julho no Rio Grande do Sul, de junho a janeiro em São Paulo e de agosto a outubro em Minas Gerais.
É uma espécie dióica, em que a planta feminina tem folhas e inflorescências um pouco menores e de aspecto mais delicado que a masculina. A polinização é feita principalmente por abelhas sem ferrão e por diversos insetos pequenos. A dispersão de frutos e sementes é essencialmente zoocórica, realizada sobretudo por aves frugívoras e pequenos mamíferos, entre eles o mono-carvoeiro (Brachyteles arachnoides).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começarem a cair naturalmente e, em seguida, secados à sombra para reduzir a umidade da polpa. Não é preciso despolpá-los, pois podem ser semeados como se fossem sementes. Cada quilo reúne de 3 mil a 6.672 sementes e não há necessidade de tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento recalcitrante: em ambiente não controlado perdem toda a viabilidade em cerca de 4 meses, o que torna sua conservação difícil.
Quando necessária, a repicagem deve ser feita de 30 a 35 dias após a germinação, com as plântulas medindo de 3 a 6 cm de altura. A germinação é hipógea ou criptocotiledonar, com emergência iniciando-se de 25 a 60 dias após a semeadura e, em geral, baixa taxa de sucesso. Recomenda-se cultivar em canteiros parcialmente sombreados, com substrato organo-argiloso.
Trata-se de uma espécie heliófila que tolera baixas temperaturas. O hábito é bastante variável, indo do crescimento monopodial à ramificação irregular, com bifurcações e brotos-ladrões na base do colo; por isso, convém aplicar poda de condução para formar um único fuste e poda anual dos galhos. Quanto à regeneração, deve ser cultivada em plantios mistos, associada a espécies pioneiras.
Há poucos registros de crescimento da espécie em plantios. Segundo Lorenzi, pode alcançar 3 m de altura aos 2 anos. Estudos de Spathelf e colaboradores não identificaram um padrão claro entre as condições hídricas e a variação do incremento das árvores; os dados sugerem, porém, que o excesso de água, e não o déficit hídrico, é o fator mais determinante para as variações no crescimento diamétrico nas condições da área avaliada.
A precipitação média anual varia de 1.150 mm, no Rio Grande do Sul, a 2.000 mm, em São Paulo. As chuvas distribuem-se de forma uniforme na Região Sul (exceto o norte do Paraná) e no sudoeste paulista, sendo periódicas nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula nessas regiões de chuvas uniformes, de pequena a moderada no inverno do centro e leste de São Paulo, sul de Minas Gerais, Distrito Federal e sul de Goiás, e moderada nas Serras do Ceará. A temperatura média anual oscila entre 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) e 21,2 ºC (Brasília, DF); a média do mês mais frio vai de 8,2 ºC (Campos do Jordão, SP) a 19,5 ºC (São Benedito, CE) e a do mês mais quente, de 20 ºC (Caçador, SC) a 24,6 ºC (Santa Maria, RS). A mínima absoluta registrada foi de -10,4 ºC (Caçador, SC), podendo chegar a -15 ºC na relva. O número de geadas por ano vai de 0 a 30 em média, com máximo absoluto de 81 no Planalto Sul-Brasileiro e em Campos do Jordão. Pela classificação de Köppen, ocorre nos climas Am nas Serras do Ceará, Cfa no PR, RS, SC e SP, Cfb no PR, SC e na região de Campos do Jordão, Cwa no DF, GO, MG e SP, e Cwb no sul de Minas Gerais.
Na faixa litorânea cresce naturalmente em solos orgânicos, úmidos a encharcados durante boa parte do ano; já no Planalto desenvolve-se em solos mais secos e férteis, típicos dos pinhais.