Foto: Frank Thomas Sautter (CC0) via GBIF
Canafístula
Peltophorum dubium
- 10 a 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: acácia-amarela, amendoim-falso, angico-bravo, camurça, curucaia, ibirá, monjoleiro, amendoim-bravo, angico, angico-amarelo, angico-cangalha, angico-vermelho, pororoca, barbatimão, cabeça-de-negro, cambuí, canafrista-branca, favinha, canela-de-veado, caobi, cássia-amarela, farinha-seca, faveira, faveiro, guarucaia, ibira-puitá, jacarandá-de-flor-amarela, madeira-nova, pau-vermelho, quebra-serra, sobrasil, tamboril, tamboril-bravo, tamburi
Botânica
Pela classificação de Cronquist, a espécie é uma angiosperma dicotiledônea da ordem Fabales, família Caesalpiniaceae (Leguminosae, subfamília Caesalpinioideae). Seu nome científico válido é Peltophorum dubium (Sprengel) Taubert, descrito em 1892. Já recebeu outras denominações, hoje consideradas sinônimos: Caesalpinia dubia, Cassia disperma e Peltophorum vogelianum. O termo Peltophorum quer dizer aproximadamente "aquele que carrega o disco", em alusão ao formato do estigma. Entre os povos tupi-guarani, é chamada de ibira-puita-guassú, ou seja, "madeira-vermelha-grande".
É uma árvore caducifólia, que perde toda a folhagem no inverno. Em geral mede de 10 a 20 m de altura, com tronco de 35 a 90 cm de diâmetro à altura do peito, embora exemplares excepcionais cheguem a 40 m de altura e 300 cm de DAP na fase adulta. No Nordeste, costuma alcançar cerca de 12 m. O tronco é cilíndrico, reto ou levemente curvado e achatado, com base acanalada e fuste de até 15 m. A ramificação é dicotômica e cimosa, formando copa ampla, arredondada e largamente achatada, em forma de guarda-chuva. A casca chega a 25 mm de espessura: a parte externa é marrom-escura e rugosa, com pequenas fissuras longitudinais que se soltam em lâminas finas nos exemplares jovens e em placas retangulares nos mais velhos, exibindo lenticelas abundantes quando jovem; a casca interna é dura, rósea e pouco fibrosa. As folhas são compostas, bipinadas e alternas, de até 50 cm de comprimento por 25 cm de largura, com 16 a 21 pares de pinas verde-escuras, cada uma com 24 a 30 pares de folíolos elíptico-oblongos de 5 a 10 mm de comprimento e 2 a 3 mm de largura, com ápice acuminado e base assimétrica. As flores, amarelo-vivas a alaranjadas e de até 2 cm, reúnem-se em vistosas panículas ou racemos terminais ferrugíneos e tomentosos que atingem 30 cm. O fruto é uma sâmara de 4 a 9,5 cm de comprimento e 1 a 2,5 cm de largura, de contorno lanceolado a elíptico, superfície castanho-avermelhada a marrom e puberulenta, com nervuras sobretudo longitudinais, abrigando de 1 a 4 sementes. Cada semente tem cerca de 1 cm de comprimento e 4 mm de largura, com contorno ovado, superfície lisa, brilhante e de cor amarelo-esverdeada, testa membranácea, hilo oval na porção basal-lateral e rafe curta oposta à micrópila.
Uso e ecologia
A madeira da canafístula é densa, com massa específica aparente de 0,75 a 0,90 g/cm³ a 15% de umidade (básica entre 0,53 e 0,65 g/cm³). O alburno é róseo-claro levemente amarelado e o cerne alterna tons róseo-acastanhados e bege-rosado-escuros, muitas vezes com veios escuros irregulares. A superfície é irregularmente lustrosa e um tanto áspera ao tato, com textura médio-grosseira, grã fortemente revessa e diagonal, sem cheiro ou gosto perceptíveis. Tem resistência moderada ao apodrecimento — estacas de cerne mostram boa resistência a fungos e cupins, mas em contato com o solo a madeira dura menos de 9 anos. Apresenta baixa permeabilidade a soluções preservantes sob pressão e tende ao empenamento, lembrando a madeira do amendoim (Pterogyne nitens), porém de qualidade inferior. Já desprezada comercialmente, hoje é uma madeira de alto valor: serve à construção civil (vigas, caibros, ripas, marcos de portas, janelas e assoalhos), a usos externos (mourões, dormentes e cruzetas), à indústria moveleira e de guarnições, à construção naval e militar e à marcenaria e carpintaria (carrocerias, chapas e peças decorativas, parquetes). Produz ainda lenha e carvão de qualidade regular, com poder calorífico de 4.755 kcal/kg, e é viável para a fabricação de papel. Das sementes extraem-se açúcares e galactomanana (teor de 3,8%). A casca contém muito tanino (6% a 8%), também presente no lenho, além de saponina. A forragem tem 11,2% de proteína bruta e 7,8% de tanino, sendo imprópria como forrageira. Raízes, folhas, flores e frutos têm uso na medicina popular; povos indígenas do Paraná e de Santa Catarina preparam chá da casca do caule como anticoncepcional.
Trata-se de uma espécie secundária inicial, mas com traços de pioneira, e bastante longeva. É abundante em formações secundárias, embora costume aparecer com poucos indivíduos, em geral de grande porte, ocupando o estrato dominante do dossel nas florestas primárias. Coloniza áreas abertas, capoeiras, matas degradadas, pastagens, clareiras e bordas de mata. É frequente em toda a Floresta Estacional Semidecidual Submontana e Montana, onde domina o dossel, ocorrendo também na Floresta Estacional Decidual Montana austral da bacia do Rio Jacuí (estrato emergente), no Cerradão, no Chaco sul-mato-grossense, em encraves vegetacionais do Nordeste, na Caatinga, no Pantanal Mato-Grossense (faixas de transição entre áreas úmidas e secas) e em áreas erodidas de calcário do sudoeste da Bahia. Em levantamentos fitossociológicos na Floresta Estacional Semidecidual de Minas Gerais e São Paulo registraram-se de 4 a 6 árvores por hectare; na Floresta Estacional Decidual do noroeste gaúcho, dois indivíduos por hectare.
A floração ocorre de setembro a março em São Paulo; de outubro a março no Rio de Janeiro e em Santa Catarina; em novembro no Mato Grosso do Sul; de dezembro a março no Rio Grande do Sul e no Paraná; e de março a agosto em Pernambuco. Os frutos amadurecem de abril a outubro no Rio Grande do Sul; de abril a agosto no Paraná; em maio no Distrito Federal; de maio a dezembro em São Paulo; e de junho a agosto em Santa Catarina. Em plantios, o ciclo reprodutivo começa entre 7 e 12 anos de idade.
Planta hermafrodita, é polinizada principalmente por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão é autocórica, sobretudo barocórica (pela gravidade), e também anemocórica, já que os frutos são levados lentamente pelo vento. Suas sementes integram o banco de sementes do solo, onde permanecem majoritariamente intactas por 11 a 12 meses, segundo estudos de longevidade. As flores são melíferas e produzem néctar, mas há relatos de que seriam nocivas às abelhas.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando passam do verde-escuro para o marrom-claro-acinzentado. Como ficam muito tempo na árvore, sementes colhidas excessivamente secas tendem a germinar de forma lenta e irregular, mesmo após imersão em água por mais de 72 horas. Por estarem dentro de vagens indeiscentes, são de extração difícil, feita manualmente com auxílio de um bastão ou em debulhadoras de milho adaptadas. Cada quilo contém de 4.200 a 25 mil sementes. As sementes têm forte dormência tegumentar, que na natureza é quebrada pelo aumento súbito da temperatura do solo na abertura de clareiras; para produção de mudas, recomendam-se a escarificação mecânica (2 a 5 minutos ou 30 minutos), a escarificação com lixa, o corte do tegumento ou a imersão em ácido sulfúrico concentrado (2 a 30 minutos) ou em água à temperatura ambiente por 24 horas. A imersão em água quente (70 ºC a 95 ºC) fora do aquecimento não é eficaz. Sem tratamento, a germinação é baixa e irregular. O comportamento de armazenamento é ortodoxo: lotes com 99% de germinação inicial, guardados em sacos de papel kraft em câmara seca à temperatura ambiente (50% de UR), mantiveram 92% de germinação aos 25 meses; já em câmara fria (3 ºC a 5 ºC, 92% de UR), sementes com 95% iniciais conservaram 41% após 7 anos. Em laboratório, podem-se usar substratos de areia (26 ºC e 30 ºC), papel mata-borrão branco (22 ºC e 26 ºC) ou papel-toalha (24 ºC e 26 ºC); as sementes são indiferentes à luz.
A semeadura pode ser feita diretamente nos recipientes, com duas sementes por unidade. Em sacos de polietileno, recomendam-se dimensões mínimas de 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro; mudas produzidas em tubetes de polipropileno de tamanho médio custam cerca de três vezes menos do que as formadas em sacos plásticos. Quando necessária, a repicagem deve ser feita de 3 a 5 semanas após a germinação, ou quando a muda alcançar de 3 a 6 cm. A espécie tolera bem a poda radicial, podendo-se podar até 20 cm de profundidade; suas mudas têm raiz pivotante muito desenvolvida e poucas raízes laterais, curtas e finas. A germinação é epígea e começa entre 6 e 120 dias após a semeadura, com poder germinativo alto (até 95%) quando se supera a dormência e baixo (até 28%) sem esse tratamento. As mudas ficam aptas ao plantio cerca de 4 meses após a semeadura, e mudas de 50 cm de raiz nua e pseudoestacas também pegam bem. Não exigem sombreamento no viveiro, podendo crescer a pleno sol. As raízes não se associam a Rhizobium, embora no Paraguai se mencione a presença de nódulos fixadores de nitrogênio; recomenda-se investigar fungos micorrízicos arbusculares. A propagação vegetativa é possível por enxertia (garfagem em fenda cheia, com 100% de pegamento após 30 dias), por estacas radiciais e por micropropagação, ainda que o número médio de gemas obtido por ápice tenha sido relativamente baixo nos testes.
Espécie heliófila e medianamente tolerante ao frio, sofre danos por geadas a partir de -1 ºC, embora árvores adultas em florestas naturais resistam a até -7 ºC; em São Paulo é considerada tolerante a geadas e suporta bem o inverno gaúcho. Seu hábito é variável e em geral irregular, com perda da dominância apical, bifurcação desde a base ou galhos grossos, ainda que ocorra também a forma monopódica e a desrama natural; por isso, são recomendadas podas corretivas e desramas periódicas para elevar a altura comercial, e a planta rebrota dos pontos de corte. O plantio a pleno sol, em monocultivo, garante bom crescimento mas forma inadequada, com sobrevivência geralmente acima de 80% e bastante heterogeneidade; em plantio misto com pioneiras, produz fuste alto, reto e livre de nós, com boa desrama e cicatrização. Serve ao tutoramento de espécies secundárias-clímax e brota vigorosamente da touça após o corte. Em sistemas agroflorestais, é empregada no sombreamento de culturas perenes (como o chá, na Argentina) e de pastagens, em abrigos para o gado e em quebra-ventos, graças à copa ampla; resiste a ventos fortes sem quebrar galhos nem tombar, e no Paraguai suas estacas viram postes vivos. Mudas grandes, de 2 a 3 m, podem ser transplantadas com raízes nuas. A espécie está ameaçada de extinção em São Paulo, o que reforça a necessidade de conservação ex situ por meio de testes de progênies e procedências; trabalhos no Paraná e em São Paulo revelaram variabilidade genética entre procedências e progênies.
O crescimento é rápido, com produtividade volumétrica máxima registrada de 19,60 m³/ha/ano. O desempenho fraco observado em Concórdia (SC) deveu-se às geadas intensas ao longo dos quatro anos do experimento. Foram elaboradas equações volumétricas para volume comercial, com e sem casca, adaptadas às condições edafoclimáticas de Foz do Iguaçu e Guaíra, no Paraná.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência varia de 700 mm, na Bahia, a 2.300 mm, em Santa Catarina, com chuvas bem distribuídas no Sul (exceto o norte do Paraná) e concentradas no verão ou no inverno nas demais regiões. A deficiência hídrica é moderada no inverno do oeste paulista, norte paranaense e sul sul-mato-grossense, e forte no Nordeste (Bahia, Paraíba e Pernambuco) e no centro-norte mineiro, onde a estação seca dura de 5 a 7 meses. A temperatura média anual fica entre 18,1 ºC (Diamantina, MG) e 25,3 ºC (Bom Jesus da Lapa, BA); a média do mês mais frio vai de 13,8 ºC a 23,7 ºC e a do mês mais quente de 20 ºC a 27,2 ºC, com mínima absoluta de -7,1 ºC em Campo Mourão (PR). O número de geadas anuais varia de 0 a 15 em média, chegando a 40 no Sul. Pela classificação de Köppen, predomina em climas subtropical úmido (Cfa), subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e tropical (Aw), aparecendo eventualmente em temperado úmido (Cfb) e semiárido (Bsh), na Bahia.
Ocorre naturalmente em solos bastante variados, desde os ácidos do Cerradão até os de alta fertilidade química. Em plantios experimentais, cresce melhor em solos de fertilidade média a alta, bem drenados e de textura franca a argilosa. Não tolera solos rasos, pedregosos ou encharcados. É bastante exigente em nitrogênio: recomenda-se aplicar 2,5 g de NPK 4-14-8 por recipiente (400 ml de terra). A incorporação de lodo ou de esterco de curral e de galinha bem curtidos ao substrato ajuda a produzir mudas de boa qualidade.