Foto: LPB (CC BY) via GBIF
Camboatá
Cupania vernalis
- até 25 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: cuvatã, camboatã, cambuatá, assa-leitão, cragoatã, gragoatá, gragoatã, pau-de-cantil, cambratá, curantã, cuvantã, miguel-pintado, pingaleira, arco-de-peneira, arco-de-pipa, pau-de-espeto, camboatá-branco, camboatá-vermelho, covatã
Botânica
Pertencente à família Sapindaceae e à ordem Sapindales, o cuvatã foi descrito por Cambessedes e publicado em 1825 na obra Flora Brasiliae Meridionalis, de Saint-Hilaire. Seu nome científico é Cupania vernalis. Entre os sinônimos botânicos registrados estão Cupania clethrodes Mart. O nome do gênero é uma homenagem a Francesco Cupani, monge e botânico italiano que dirigiu o Jardim Botânico do Príncipe della Catolica, na Sicília, e escreveu o Hortus Catholicus, entre outras obras. Já o epíteto vernalis tem origem no latim e faz referência à primavera.
Trata-se de uma planta perenifólia, que vai de arvoreta a árvore e, quando adulta, pode alcançar cerca de 25 m de altura e 80 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo). O tronco costuma ser tortuoso e nodoso, com fuste curto que raramente passa de 7 m. A ramificação é dicotômica, formando uma copa ampla, irregular, densa e de um verde-escuro marcante; os ramos são cilíndricos, variando de estriados a sulcados, e em geral exibem cicatrizes deixadas pelas folhas. A casca chega a 11 mm de espessura: por fora é áspera, dura, escura e com fissuras longitudinais nos exemplares adultos, revelando tom acinzentado-escuro quando raspada; por dentro é dura, rosada e levemente aromática, oxidando para uma cor de ferrugem que contrasta com o branco do alburno. As folhas são compostas, alternas e paripinadas (muitas vezes com aparência de imparipinadas), medindo de 10 a 35 cm, com 8 a 18 folíolos oblongos a elípticos, coriáceos, ásperos, de bordos serreado-denteados e nervuras salientes na face inferior — características que ajudam a distingui-la das outras espécies de camboatá (Matayba elaeagnoides e M. guianensis), de folíolos lisos e membranáceos. As inflorescências são panículas terminais e axilares de 10 a 28 cm de comprimento por até 15 cm de largura, robustas e ferrugíneo-hirsutas. As flores são bastante perfumadas, de cor branco-esverdeada a róseo-clara, com até 8 mm. O fruto é uma cápsula coriácea deiscente que se abre em três valvas, obovoide ou piriforme, de 1 a 2 cm de diâmetro, contendo de 1 a 3 sementes. Cada semente é obovoide, mede de 8 a 12 mm, tem cor negra e lustrosa e é parcialmente recoberta por um arilo carnoso alaranjado.
Uso e ecologia
A madeira tem pouca expressão comercial, mas serve para obras internas, marcenaria, carpintaria, mourões, tábuas, esteios, cepos de tamanco, fôrmas para calçados, implementos agrícolas, entalhes, peças torneadas e tacos e tábuas de assoalho. Trata-se de uma madeira moderadamente densa (0,65 a 0,84 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno estreito e pouco diferenciado do cerne, que vai do bege ao bege-claro levemente rosado. Apresenta textura fina a média, grã direita a irregular, superfície lisa e pouco brilho, sem cheiro ou gosto perceptíveis; mostrou resistência média a organismos xilófagos e baixa a moderada permeabilidade a preservativos, sendo compacta, elástica e de bom acabamento ao verniz. Como combustível, fornece boa lenha e excelente carvão. A casca é fonte de tanino e as flores produzem néctar. Não é indicada para celulose e papel.
É classificada como secundária inicial a secundária tardia. O cuvatã aparece tanto no interior de florestas primárias quanto em todos os estágios de vegetação secundária, sendo, porém, mais comum em capoeiras do que dentro das matas fechadas. Em Mato Grosso chega a formar associações extensas, sobretudo em áreas de transição entre Cerrado e Cerradão, muitas vezes ao lado de Matayba guianensis. Normalmente cresce nas bordas dos cerradões e no estrato médio das florestas semidecíduas. Ocupa o bioma Mata Atlântica (Floresta Estacional Decidual, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Ombrófila Densa e Floresta Ombrófila Mista, com densidades que variam de 1 a 102 indivíduos por hectare conforme a formação), o Cerrado (savana e cerradão na Bahia, Mato Grosso, Roraima e São Paulo) e o Pantanal Mato-Grossense, onde é encontrado ao longo da Rodovia Transpantaneira e nas margens do Rio Paraguai. Também ocorre em ambientes ripários de Goiás, Minas Gerais, Paraná e Distrito Federal (com até 190 indivíduos por hectare), em campos rupestres e em estepes do Rio Grande do Sul.
A floração varia conforme a região: de fevereiro a julho no Paraná, de fevereiro a setembro em Santa Catarina, de abril a maio em Goiás, de julho a agosto no Rio Grande do Sul, de julho a setembro em São Paulo e de outubro a novembro no Rio de Janeiro. A maturação dos frutos também é escalonada: de junho a agosto em Goiás, de agosto a dezembro no Paraná, de setembro a outubro em Minas Gerais, de outubro a dezembro em Santa Catarina, de outubro a janeiro no Rio Grande do Sul e de novembro a dezembro em São Paulo.
A espécie é monoica. A polinização é feita por borboletas, mariposas, abelhas e diversos insetos pequenos, entre eles os sirfídeos (Diptera: Syrphidae). A dispersão é zoocórica, sobretudo ornitocórica: as aves se alimentam apenas do arilo e descartam a semente, cuja testa é relativamente dura.
Plantio e silvicultura
A planta produz, a cada ano, quantidade moderada de sementes viáveis, bastante disseminadas pelas aves. A colheita é feita quando as sementes estão maduras, em geral recolhidas do solo, e o arilo que as envolve precisa ser removido. Cada quilo reúne de 2.580 a 5.008 sementes. Não há necessidade de tratamento pré-germinativo — aliás, sementes deixadas de molho em água à temperatura ambiente por 12 horas germinaram apenas 43%, contra 65% sem imersão. O armazenamento é problemático, pois as sementes são tipicamente recalcitrantes e não se conservam por mais de 6 meses: lotes com 65% de germinação inicial caíram para 12% após 60 dias.
Recomenda-se semear em sacos de polietileno ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio; quando necessária, a repicagem é feita de 35 a 45 dias após a semeadura. A germinação é hipógea ou criptocotiledonar, com emergência entre 30 e 130 dias e poder germinativo irregular, de 40% a 80%. As mudas ficam prontas para o plantio cerca de 8 meses após a semeadura. Como as plântulas não toleram luz direta, devem ser cultivadas em canteiros protegidos por esteiras ou ripados.
O cuvatã é uma espécie esciófila, muito tolerante à sombra, e com frequência regenera de forma abundante no interior da floresta. Suporta baixas temperaturas. Tem crescimento monopodial e boa desrama natural. Não se presta a plantios a céu aberto; o indicado é plantá-lo em vegetação matricial arbórea, como capoeiras ou capoeirões, abrindo-se picadas. Apresenta brotação vigorosa da touça.
Há poucos dados disponíveis sobre o desenvolvimento da espécie em plantios.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 1.000 mm, na Bahia, a 2.700 mm, em São Paulo, com chuvas uniformemente distribuídas na Região Sul (exceto o norte do Paraná) e no sudoeste paulista, e regime mais periódico nas demais áreas. A deficiência hídrica varia de nula (Sul e sudoeste de São Paulo) a forte no inverno em partes de Minas Gerais e Mato Grosso. A temperatura média anual fica entre 15,5 ºC (Caçador, SC) e 26 ºC (Itacoatiara, AM); a mínima absoluta registrada foi de -10,4 ºC em Caçador, podendo chegar a -15 ºC na relva. O número de geadas vai de 0 a 30 por ano, com máximo de 57 na Região Sul. Segundo Köppen, ocorre nos climas Af, Am, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
O cuvatã desenvolve-se naturalmente em solos dos mais variados tipos.