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Foto de Cambará

Foto: Andrés González (CC BY-SA 3.0) via wikimedia

Cambará

Gochnatia polymorpha

Asteraceae CerradoMata Atlântica
  • 3,5 a 10 m (até 15 m)Altura
  • Médio portePorte
MedicinaisMadeireirasOrnamentaisMelíferasRecuperação de áreas

Também conhecida como: balieira-preta, cambará-açu, cambará-do-mato, candeia, camará, cambará-branco, cambará-guaçu, cambará-pérola, cambará-de-folha-grande, cambará-de-folha-miúda, cambará-de-légua-e-meia, cambarazinho, óleo-do-campo, pau-candeia, cambará-do-campo, candeão, candeias, erva-d'ouro

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema de classificação de Cronquist, o cambará pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Asterales e família Asteraceae (Compositae). Sua denominação científica completa é Gochnatia polymorpha (Lessing) Cabrera, registrada em 1950. Já foi descrita também sob os sinônimos botânicos Moquinia mollissima Malme e Moquinia polymorpha (Lessing) C. de Candolle. O nome do gênero presta homenagem ao botânico francês Frederico Cn. Gochnat, de Strassburg, autor de um estudo sobre as Cichoriáceas publicado em 1808; o epíteto polymorpha faz referência à notável variabilidade de formas (polimorfismo) que a espécie apresenta.

Descrição botânica

Trata-se de uma árvore perenifólia que costuma medir de 3,5 a 10 m de altura e ter de 20 a 40 cm de DAP, embora indivíduos adultos possam chegar a 15 m de altura e 60 cm de DAP. O tronco dificilmente é retilíneo: na maioria das vezes mostra-se irregular ou canaliculado, torto e inclinado, com fuste em geral curto (até 6 m) e frequentemente dividido em vários troncos. A ramificação é irregular, dicotômica e simpodial, formando uma copa baixa, arredondada, densa e de folhagem verde-clara. A casca pode atingir 30 mm de espessura; externamente é acastanhada, com sulcos longitudinais profundos e descamação em placas irregulares, enquanto a parte interna é fibrosa e de cor oliva. As folhas são simples, alternas, dispostas em espiral, discolores, de formato ovado a ovado-elíptico, medindo de 7 a 17 cm de comprimento por 2,5 a 7 cm de largura, com pecíolo curto e piloso de até 2 cm. As flores são brancas e pequenas, agrupadas em panículas terminais de 10 a 20 cm que reúnem numerosos capítulos de cerca de 1 cm, os quais permanecem por bastante tempo nos ramos mesmo depois de secos. O fruto é um aquênio (cipsela) diminuto, oblongo, preto, piloso, sulcado e deiscente, encimado por um papilho cerdoso e piloso de coloração branco-amarelada (2 a 5 mm), cujo penacho de pelos lembra um pincel de barbear. A semente fica contida no interior do fruto.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícolaenergético
Produtos e utilizações

A madeira é moderadamente densa (0,60 a 0,77 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno bem destacado de cor branco-acinzentada e cerne que vai do amarelo-claro recém-polido ao bege ou castanho-claro levemente rosado. Apresenta superfície lisa, brilho discreto, textura fina, grã reta a irregular e cheiro e sabor imperceptíveis. Destaca-se pela alta resistência a organismos xilófagos, inclusive em contato com o solo, mas é pouco permeável a produtos preservantes mesmo sob pressão; árvores mais velhas tendem a ter maior proporção de cerne. A madeira serrada e roliça presta-se à construção civil (esteios, esquadrias, caibros, estacas, forros, ripas, tacos, peças torneadas e entalhes) e à construção naval, já que tronco e raízes fornecem boas curvas para embarcações. Embora o tronco seja em geral tortuoso, é muito empregado em cercas, mourões, postes e obras externas. Também gera lenha e carvão de boa qualidade. Não é indicada para celulose e papel. A forragem contém de 11% a 14% de proteína bruta e de 5% a 7% de tanino, e as flores são potencialmente melíferas, com néctar de 27% a 31% de açúcar. Na medicina popular, as folhas são usadas em chás expectorantes e emolientes para afecções broncopulmonares, e diversas etnias indígenas do Paraná e de Santa Catarina utilizam a casca do caule contra o reumatismo ósseo.

Aspectos ecológicos

É uma espécie secundária inicial, considerada uma das pioneiras na ocupação de campos sobre solos bem drenados. Aparece tipicamente nas bordas de mata e em capões, sob boa luminosidade, sendo rara no interior da floresta primária. Na Floresta Pluvial Atlântica Baixo-Montana do Rio de Janeiro, observou-se sua substituição por espécies como Miconia cinnamomifolia e Myrsine ferruginea ao longo da sucessão nas capoeiras. Quanto às regiões fitoecológicas, ocupa Cerrado e Cerradão (sendo comum em São Paulo) e zonas de transição entre o Cerrado e a Floresta Estacional Semidecidual, além da Floresta Ombrófila Densa (formação Baixo-Montana), da Floresta Ombrófila Mista (com araucária), da Floresta Estacional Decidual Baixo-Montana e dos campos gerais, rupestres e de altitude. No Paraguai, vive no Campo Alto Arbóreo, na vegetação de matorral, associada a cactáceas e bromeliáceas. É planta de grande utilidade na conservação do solo: tolera locais bem drenados, inundações breves e lençol freático superficial, o que a torna eficaz como fixadora de barrancas de rios. Em plantios puros, deposita até 4.751 kg/ha/ano de folhedo, rico em potássio e magnésio. Recomendada para recuperação de ecossistemas degradados, sua copa rala favorece um processo sucessional rico e diversificado quando há fontes de sementes de outras espécies por perto; em plantio de 22 anos em Colombo (PR), próximo a floresta primária alterada, registrou-se a regeneração natural de 50 espécies arbóreas, entre elas Araucaria angustifolia, Cabralea canjerana subsp. canjerana e Podocarpus lambertii.

Floração e frutificação

A floração ocorre de outubro a fevereiro em Minas Gerais, de outubro a dezembro em São Paulo, de novembro a fevereiro no Rio de Janeiro, de dezembro a fevereiro em Santa Catarina e de dezembro a abril no Paraná. Os frutos amadurecem de março a abril em Santa Catarina, de março a maio no Paraná e em São Paulo, de abril a maio no Rio Grande do Sul e de junho a julho em Minas Gerais. Em solos férteis, a reprodução pode começar cedo, já a partir dos 2 anos de idade.

Fauna associada

Por ser planta dióica, depende de polinização cruzada, realizada sobretudo por abelhas e por diversos insetos de pequeno porte. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, levada pelo vento a longas distâncias.

Plantio e silvicultura
Sementes

A colheita dos frutos deve ser feita antes da queda natural, com secagem ao sol sob proteção de tela fina; as sementes são extraídas por maceração. Cada quilo reúne de 2 a 2,2 milhões de sementes. Não há necessidade de tratamento para quebra de dormência, embora, na natureza, o cambará dependa de condições favoráveis, como a abertura de clareiras, para germinar bem. As sementes são pouco duráveis: armazenadas em ambiente não controlado, perdem o poder germinativo em menos de 3 meses.

Produção de mudas

Recomenda-se semear os frutos em sementeiras e repicar as plântulas, de 4 a 8 semanas após a germinação, para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio. A germinação é epígea, inicia-se entre 8 e 68 dias após a semeadura e costuma ser baixa (de 30% a 50%). Cerca de 5 meses após a semeadura as mudas já têm porte adequado para o plantio.

Características silviculturais

Espécie heliófila e tolerante a baixas temperaturas, deve ser plantada a pleno sol em função de sua exigência por luz. Seu crescimento é simpodial e com multitroncos, pois emite várias brotações na altura do colo; por isso requer desbrota nos primeiros anos para evitar a formação de touceiras sem tronco principal definido, além de desrama artificial, dada a ramificação simpodial. A cicatrização de galhos e brotos cortados é satisfatória. Em ensaios com diferentes espaçamentos, não se notou influência do espaçamento na conformação do fuste até o sexto ano. Após o corte, rebrota da touça formando em geral vários troncos, podendo ser conduzida pelo sistema de talhadia.

Crescimento e produção

O crescimento é lento a moderado, com produção volumétrica máxima de até 9,20 m³/ha/ano. O ganho em altura é bastante marcante até os 4 anos de idade. Estima-se uma rotação de 10 a 15 anos para produção de lenha e de 15 a 20 anos para mourões.

Clima

A precipitação média anual em sua área de ocorrência varia de 1.000 mm, na Bahia, a 2.000 mm, em Santa Catarina, com chuvas bem distribuídas no Sul e concentradas no verão no Sudeste e Centro-Oeste. A deficiência hídrica vai de nula, no Sul, a moderada (seca de até 3 meses) no interior de São Paulo e forte (seca de até 6 meses) na Bahia. A temperatura média anual fica entre 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) e 23,7 ºC (Rio de Janeiro, RJ); a média do mês mais frio entre 8,2 ºC e 21,3 ºC e a do mês mais quente entre 17,2 ºC (São Joaquim, SC) e 26,5 ºC (Rio de Janeiro, RJ), com mínima absoluta de -7,3 ºC registrada em Campos do Jordão. O número de geadas anuais varia de 0 a 30 em média, chegando a 81 no Sul e em São Paulo. Os tipos climáticos de Köppen abrangem temperado úmido (Cfb), subtropical úmido (Cfa), subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e tropical (Af e Aw).

Solos

Costuma ser encontrada em solos de baixa fertilidade química, geralmente arenosos e álicos, mas também em terrenos úmidos às margens de rios. Suporta solos pedregosos, rasos, declivosos e aluviais e prefere texturas que vão de franca a argilosa, bem drenados ou sujeitos a inundações de curta duração, evitando, porém, locais com lençol freático superficial.