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Foto de Cambará-de-mato-grosso

Foto: Geetha Ramaswami (CC BY) via GBIF

Cambará-de-mato-grosso

Vochysia divergens

Vochysiaceae PantanalCerradoAmazônia
  • até 18 mAltura
  • Médio portePorte
MedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: camará, cambará, cambará-branco

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema de classificação APG III, a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado das Rosídeas, ordem Myrtales (posicionada em Polygalales no sistema de Cronquist), família Vochysiaceae e gênero Vochysia. O binômio é Vochysia divergens Pohl, descrito originalmente em 1828 (Pl. Bras. Icon. Descr. 2: 19). O nome do gênero deriva de "vochy", termo vernacular guianense latinizado por Aublet em 1775 ao descrever Vochy guianensis, espécie-tipo do grupo. Já o epíteto divergens remete a "divergente" ou às cores distintas entre as faces da folha. A designação popular cambará tem origem no tupi kamará (ou camba-acá-ará), com sentido de "folha e cascas rugosas" ou "mato triste".

Descrição botânica

Árvore de folhagem perene (sempre-verde), cujos exemplares maiores chegam a cerca de 18 m de altura e 50 cm de DAP na fase adulta. O tronco é reto e cilíndrico, com fuste de até 7 m. A ramificação é cimosa ou dicotômica, formando copa frondosa e de baixa densidade, com ramos jovens levemente angulosos e divaricados. A casca alcança até 20 mm de espessura, sendo a parte externa (ritidoma) clara, fendida e desprendendo-se em placas irregulares. As folhas são simples, coriáceas, dispostas em 3 a 4 verticilos, com nervura central saliente nas duas faces, brilhantes e glabras por cima e foscas por baixo; medem de 7 cm a 13 cm de comprimento e de 2,5 cm a 4,3 cm de largura, com pecíolo de 2 cm a 3 cm. As inflorescências são racemos terminais de 20 cm a 28 cm, com flores numerosas, pediceladas, amarelas e vistosas. O fruto é uma cápsula trigona, glabra, brilhante e deiscente, de 1 cm a 2 cm de comprimento, abrigando de 4 a 5 sementes aladas que medem de 1,5 cm a 3 cm.

Uso e ecologia
madeireiroapícolamedicinalpaisagismorecuperação de áreas
Produtos e utilizações

A madeira é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,66 g/cm³ a 15% de umidade), com cerne e alburno pouco diferenciados, este último de tom esbranquiçado, textura média e grã direita. É macia e de fácil trabalho, porém tem baixa resistência mecânica e apodrece com facilidade. Por isso, é empregada apenas em âmbito local na fabricação de canoas, cochos, gamelas, caixas e brinquedos, além de tabuado em geral e miolo de compensado. Fornece lenha de boa qualidade e é indicada para a produção de celulose. A espécie tem grande potencial melífero, ofertando néctar e pólen. Na medicina popular de Santo Antônio do Leverger (MT), casca, folhas e seiva são empregadas contra gripe e tosse, e o chá das folhas, para amenizar sintomas de asma — registros que têm caráter apenas documental, sem valor de prescrição médica. Na floração, torna-se bastante ornamental, prestando-se bem ao paisagismo.

Aspectos ecológicos

Trata-se de uma espécie pioneira. No Pantanal Mato-Grossense é uma árvore muito comum e de ampla ocorrência, com preferência por matas sujeitas a inundações. O agrupamento de muitos indivíduos forma os chamados cambarazais, fitofisionomias bastante típicas da região. Aparece no Pantanal Mato-Grossense em áreas inundáveis, em capões e matas inundáveis, em babaçuais de Mato Grosso, em florestas inundáveis monodominantes de Vochysia divergens em Mato Grosso, em floresta ecotonal no norte mato-grossense, em floresta inundável no sudoeste de Tocantins e em Floresta Estacional Semidecidual Aluvial em Mato Grosso do Sul, onde pode chegar a 31 indivíduos por hectare. Também ocorre em ambientes fluviais e ripários (mata ciliar) de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Floração e frutificação

A floração acontece de junho a novembro em Mato Grosso do Sul, e os frutos amadurecem de dezembro a março em Mato Grosso.

Fauna associada

É uma planta hermafrodita, muito procurada por beija-flores e macacos atraídos pelo néctar, que atuam na polinização. A dispersão dos frutos e sementes é feita pelo vento (anemocoria).

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser coletados diretamente da árvore assim que começam a abrir; depois, expõem-se ao sol para que terminem de abrir e liberem as sementes. Cada quilo reúne cerca de 19.500 sementes. Não é necessário tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento recalcitrante no armazenamento, perdendo a viabilidade rapidamente.

Produção de mudas

Recomenda-se colocar 2 sementes por recipiente, seja em sacos de polietileno de 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, seja em tubetes grandes de polipropileno. A germinação é epígea, com plântulas fanerocotiledonares, e a emergência começa entre 40 e 70 dias após a semeadura, em geral com taxa superior a 40%. As mudas se desenvolvem depressa e ficam aptas ao plantio definitivo entre 4 e 5 meses. Há recomendação de não usar sombreamento na produção das mudas.

Características silviculturais

Espécie heliófila, que tolera geadas leves. Tem hábito irregular, com crescimento monopodial quando jovem e sem dominância apical definida na fase adulta. Pode ser estabelecida a pleno sol, tanto em plantio puro quanto em plantio misto. É indicada para sombreamento de pastagens, formando, no Pantanal Mato-Grossense, copa irregular que projeta sombra densa de 4 m a 5 m de diâmetro. Também é importante na restauração de ambientes fluviais e ripários (mata ciliar) e na recuperação de áreas de preservação permanente.

Crescimento e produção

São escassos os registros sobre o crescimento da espécie em plantios; o que se sabe é que ele é lento. Em plantio misto em Santa Helena (PR), em solo Latossolo Vermelho distroférrico, aos 8 anos e espaçamento de 5 x 5 m, observaram-se 75% de plantas vivas, altura média de 4,62 m e DAP médio de 6,3 cm.

Clima

A precipitação média anual vai de 1.000 mm em Mato Grosso a 2.550 mm no norte do estado, com chuvas periódicas e forte deficiência hídrica no Pantanal Mato-Grossense. A temperatura média anual oscila entre 24 °C (Lagoa da Confusão, TO) e 28 °C (Marcelândia, MT); a média do mês mais frio varia de 20,6 °C (Coxim, MS) a 22 °C (Cuiabá, MT) e a do mês mais quente, de 26,4 °C (Coxim, MS) a 27,4 °C (Cuiabá, MT). A mínima absoluta registrada foi de -3,7 °C, em Coxim (MS), em 20 de julho de 1975. As geadas vão de ausentes, na maior parte da área natural, a raras, na região de Coxim (MS). Pela classificação de Köppen, predominam os climas Aw (tropical com inverno seco, tipo Savana) em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e Am (tropical subúmido) no norte de Mato Grosso e em Tocantins.

Solos

A espécie é indiferente às condições físicas e químicas do solo, adaptando-se a áreas de Cerrado, onde os solos são pobres em nutrientes e de textura arenosa.