Foto: Ana Carolina Carmona (CC BY) via GBIF
Caixeta
Tabebuia cassinoides
- 3 a 13 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: caixeta-branca, caixeta-falsa, caixeta-do-litoral, ipê-caxeta, caixeta-vermelha, corticeira, ipê-branco, malacaxeta, pau-caixeta, pau-paraíba, pau-viola, pau-d'arco-amarelo, pau-d'arco-branco, pau-d'arco-roxo, pau-de-tamanco, pau-de-viola, peroba-d'água, tabebuia, tabebuia-do-brejo, tamancão, tamanqueiro
Botânica
Pelo sistema de classificação de Cronquist, a caixeta pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae) e ordem Scrophulariales, dentro da família Bignoniaceae. A espécie foi descrita como Tabebuia cassinoides (Lamarck) A. P. de Candolle, em 1845. Ao longo do tempo recebeu outros nomes científicos hoje considerados sinônimos, como Bignonia cassinoides Lamarck (1785), Catalpa cassinoides (Lamarck) Sprengel (1825), Tabebuia uliginosa (Gomes) Pyr. DC. (1845) e Tabebuia magnolioides (Cham.) Miers (1863). O nome do gênero, Tabebuia, vem da designação indígena dada à árvore Tabebuia uliginosa, enquanto o epíteto cassinoides remete à ideia de algo semelhante a uma caixa.
Trata-se de uma árvore semicaducifólia de pequeno porte, que costuma medir de 3 a 13 m de altura e ter DAP entre 10 e 30 cm; em locais pouco perturbados, exemplares adultos podem, excepcionalmente, ultrapassar 20 m de altura e chegar a 100 cm de DAP. O tronco é irregular e em geral tortuoso, com fuste habitualmente curto de 5 a 7 m; por crescer em terrenos alagados, costuma desenvolver raízes aéreas na base, que funcionam como escora. A ramificação é simpodial, formando uma copa pequena e pouco densa. A casca tem até 8 mm de espessura: a parte externa varia do bege-claro ao cinza-pardo-claro, com finas fissuras longitudinais (4 a 8 mm), lenticelas discretas e descamação em pequenas lâminas; a parte interna é esverdeada no ritidoma fino e amarelada mais para dentro, com fibras longas e reticuladas, sem odor ou sabor marcantes. As folhas são simples, opostas, oblongo-lanceoladas ou obovado-lanceoladas, coriáceas, com glândulas, glabras na face superior e pubescentes na inferior, de ápice obtuso e base aguda; medem de 6 a 22 cm de comprimento por 2 a 8 cm de largura, com pecíolo de quase 2 cm. Vale notar que a caixeta é uma das poucas espécies do gênero a apresentar folhas simples. As flores são brancas com estrias roxas, perfumadas e em número reduzido, reunidas em inflorescências cimosas trifloras nas pontas dos ramos folhosos; a corola mede de 6 a 9 cm e o cálice glandular e liso, de 1 a 2 cm. O fruto é uma cápsula terete, linear-oblonga, de 13 a 25 cm de comprimento por 1 a 1,5 cm de diâmetro, com base aguda atenuada, superfície levemente estriada e densamente lepidota; quando seco, fica acinzentado-castanho e mantém o cálice persistente, abrigando muitas sementes. Cada semente é bialada, delgada, com até 7 mm de comprimento por 3 mm de largura, com asas membranáceas hialinas largamente côncavo-convexas e venação castanha.
Uso e ecologia
A madeira da caixeta é muito leve, com massa específica aparente de 0,34 a 0,37 g/cm³ a 12% de umidade e 0,30 a 0,48 g/cm³ a 15%, e massa específica básica de 0,299 g/cm³. Alburno e cerne não se distinguem, sendo brancos com leve tom rosado e uniformes, escurecendo para um branco-encardido. A superfície é lisa e lustrosa, de textura fina a média e grã direita, sem cheiro ou gosto perceptíveis. Tem durabilidade natural baixa em contato com o solo, mas aceita muito bem soluções preservantes graças à alta permeabilidade. Apresenta ótima estabilidade dimensional, seca com facilidade, não racha nem empena mesmo exposta ao sol, e é extremamente fácil de cortar, aplainar e lixar, recebendo bem verniz, tinta e cera. Seu uso mais conhecido é na fabricação de lápis, em substituição ao cedro americano (Libocedrus decurrens). Também serve para cepas de tamancos, saltos de sapato, palitos de fósforo, instrumentos musicais como viola e violão, brinquedos, pranchetas, molduras, coxos, gamelas, tábuas de forro, caixotaria, caixas finas, canoas, remos e peças de embarcações, além de servir para laminação e compensados, inclusive navais. Por ser muito leve e fácil de esculpir, é bastante apreciada no artesanato. A madeira fornece celulose de qualidade razoável, aproveitável pelo processo sulfato para papéis de escrita e impressão (fibras de 0,66 a 1,20 mm, teor de celulose de 48,3% e de lignina de 31,2%), inclusive a partir de resíduos da fabricação de lápis. As raízes, esponjosas e leves, substituem a cortiça em quase todas as aplicações, exceto como rolhas, servindo para boias, salva-vidas, palmilhas e afiadores de navalha. As sementes são ricas em glicoproteínas e lipídios, com alguma quantidade de açúcares livres fermentáveis, e a forragem contém de 14% a 21% de proteína bruta e de 2,4% a 3,9% de tanino. Como lenha tem baixo poder calorífico.
Classificada como espécie secundária inicial, a caixeta forma associações vegetais típicas chamadas de caixetais: florestas paludosas litorâneas da Mata Atlântica, situadas entre os cordões arenosos das planícies sujeitas a alagamento, em que a espécie domina mais de 50% dos indivíduos com mais de 12 cm de DAP. Essas comunidades reúnem boa diversidade de plantas não arbóreas, mas riqueza relativamente baixa no estrato arbóreo, dominado pela própria caixeta. A planta vive naturalmente em terrenos permanentemente úmidos e alagadiços da planície litorânea e das restingas, condição que estimula a formação de raízes adventícias e de lenticelas hipertróficas. O fato de crescer mais quando alagada provavelmente lhe dá vantagem competitiva, ajudando a explicar a formação dos extensos caixetais nos brejos do litoral. Costuma aparecer em alta densidade, em maciços, consorciada com espécies como o guanandi (Calophyllum brasiliense). Os caixetais são interpretados como uma floresta subclimácica localizada e especializada dentro de uma hidrossere. Em um caixetal de Ubatuba (SP) foram registradas 59 espécies de 51 gêneros e 36 famílias, incluindo pteridófitas, refletindo a diversidade reduzida dessas planícies; já em São Sebastião (SP) a caixeta atingiu 60,6% de frequência relativa, 70% de densidade relativa e 68,7% de dominância relativa, presente nos três estratos da floresta desde a fase juvenil até o pleno desenvolvimento. Por ter ocorrência localizada e restrita aos brejos próximos ao litoral, sua distribuição é irregular e descontínua. Aparece tanto na vegetação primária alterada quanto na secundária, nas fases de capoeirão e floresta secundária, e domina a floresta de brejo no norte do Espírito Santo. É espécie exclusiva da Floresta Ombrófila Densa (Mata Atlântica), nas formações de Terras Baixas e Submontana e nas formações pioneiras de influência fluvial, onde ocupa os estratos superior e intermediário, ocorrendo ainda na restinga.
A floração varia conforme a região: setembro a outubro em Santa Catarina; setembro a novembro no Rio de Janeiro; setembro a janeiro no Espírito Santo e no Paraná; outubro a dezembro em São Paulo; e em fevereiro em Pernambuco. Os frutos amadurecem de agosto a setembro em São Paulo, de novembro a dezembro no Espírito Santo, de janeiro a fevereiro em Santa Catarina e de janeiro a março no Paraná. Em plantio, a reprodução começa por volta dos 5 anos de idade.
A planta é hermafrodita e tem nas abelhas seus principais agentes polinizadores. A dispersão das sementes é feita pelo vento, mas ocorre justamente no período em que o solo está alagado.
Plantio e silvicultura
A caixeta frutifica todos os anos, mas a colheita é difícil, pois a abertura dos frutos acontece de um dia para o outro, liberando as sementes aladas ao vento. Quando colhidos ainda fechados e verdes, os frutos rendem sementes com germinação entre 85% e 95%, e a extração pode ser feita manualmente, abrindo-os. Cada quilo contém de 35 mil a 40 mil sementes, que não apresentam dormência e, portanto, dispensam tratamentos para superá-la. O comportamento no armazenamento é ortodoxo: com germinação inicial de 85%, sementes guardadas em frascos de vidro em câmara fria (4ºC e 96% de UR) mantinham 62% de germinação após 12 meses, contra 47,5% em condições não controladas (18ºC e 82% de UR). Sementes com umidade inicial de 17,6% podem ser secas em estufa a 42ºC por 3 horas até 8,7% de umidade, sem perda de germinação ou vigor.
Recomenda-se semear em sementeiras e depois repicar as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio; no litoral do Paraná, costuma-se semear duas sementes diretamente no recipiente. A repicagem é feita de 3 a 5 semanas após a germinação. A germinação é epígea e começa entre 7 e 37 dias após a semeadura, com poder germinativo alto (chegando a 100% em laboratório e cerca de 75% em média). As mudas ficam prontas para o plantio cerca de 6 meses depois da semeadura. A propagação vegetativa é fácil, por estacas de brotações basais semilenhosas com diâmetro mínimo de 13 mm, sem necessidade de fitormônios; o enraizamento médio de cerca de 38% em estacas basais sem aplicação de AIA pode ser melhorado testando-se outras substâncias, formas de aplicação, épocas de coleta e tipos de estaca.
Na fase juvenil a caixeta é esciófila facultativa, tornando-se heliófila na fase adulta; em seu habitat, as árvores adultas recebem sol direto por não haver estratos acima delas, e a espécie não tolera o frio. Tem ramificação irregular e baixa dominância apical, mas os caixetais naturais apresentam desrama natural. Plantios puros a pleno sol por mudas não têm dado certo, sendo o primeiro ano a fase mais crítica; a planta não suporta período seco superior a 1 mês nem locais que não permaneçam encharcados. Indica-se o adensamento ou plantios de enriquecimento, possivelmente consorciada com palmiteiro (Euterpe edulis) e guanandi (Calophyllum brasiliense), comuns em ambientes parecidos. A regeneração natural não ocorre em áreas intactas, pois a semente costuma ficar sobre a lâmina de água permanente (20 a 40 cm de profundidade) sem alcançar o solo; já em áreas exploradas, mantendo-se ao menos três árvores adultas por hectare, há regeneração intensa por sementes, que com o simples pisoteio atingem o solo coberto de húmus, gerando plântulas mais vigorosas e numerosas. A expectativa é poder fazer novo corte após 15 a 20 anos de adensamento, ao se atingir diâmetro mínimo de exploração de 25 cm. A caixeta rebrota intensamente após o corte, permitindo o manejo por talhadia, e por vezes forma raízes gemíferas; cerca de 6 meses após o corte a vegetação volta a se fechar pela vigorosa brotação dos tocos. Como a germinação e a rebrota exigem muita luz, mas a muda deve crescer relativamente sombreada para não adotar arquitetura arbustiva que comprometa o rendimento de madeira, recomenda-se conduzir a brotação (raleio) cerca de 2 anos após o corte, deixando dois brotos. O manejo sustentado deve prever a convivência de gerações distintas de plantas. Estudos de eletroforese de isoenzimas mostraram que intervenções humanas reduzem a variabilidade genética das populações, o que exige mais pesquisas para a emissão de certificados de exploração.
O comportamento da caixeta em plantios ainda é pouco conhecido. Em Ilha Solteira (SP), um ano após o plantio em espaçamento de 3 x 3 m, a espécie alcançou altura média de 2,01 m, variando de 0,90 a 4,00 m. Em Morretes (PR), reflorestamentos com plantas vindas de regeneração natural não tiveram sucesso. A madeira vem sendo explorada desde a década de 1930 no Vale do Ribeira (SP) e, nos últimos 30 anos, sofreu forte exploração na faixa costeira entre o Rio de Janeiro e o Paraná, com cortes de árvores antes mesmo de atingirem 30 cm de DAP, aproveitando-se até exemplares de 8 a 10 cm. No litoral paranaense, os caixetais nativos chegaram a abastecer 70% das serrarias locais, e na região de Iguape (SP) há caixetais explorados há quase 60 anos, já no terceiro ou quarto corte. Como o custo de extração é alto, podendo dobrar o de reflorestamentos de Pinus em terra firme, as indústrias de lápis vêm abandonando os caixetais naturais, também por estarem em áreas de preservação permanente. Quanto à rotação, segundo caixeteiros antigos do litoral do Paraná, o caixetal pode ser explorado comercialmente a cada 15 a 20 anos no sistema de talhadia.
A precipitação média anual nas áreas de ocorrência vai de 1.100 mm no Rio de Janeiro a 2.700 mm em São Paulo. As chuvas são uniformemente distribuídas no litoral norte de Santa Catarina, no Paraná, em São Paulo e em parte do litoral fluminense, com mais aguaceiros entre a primavera e o outono, enquanto na porção norte as precipitações se concentram, sobretudo no verão. A deficiência hídrica é nula no litoral norte de Santa Catarina, no Paraná, em São Paulo e em parte do litoral do Rio de Janeiro; vai de pequena a moderada na faixa costeira de Pernambuco; e é moderada no nordeste do Espírito Santo, com estação seca de até 3 meses. A temperatura média anual varia de 19,6ºC (Paranaguá, PR) a 25,5ºC (Recife, PE); a média do mês mais frio fica entre 16,6ºC (Paranaguá) e 23,9ºC (Recife), e a do mês mais quente entre 22ºC (Caraguatatuba, SP) e 26,7ºC (Ubatuba, SP). A mínima absoluta registrada foi de -0,9ºC (Morretes, PR), e as geadas são raras, com no máximo três por ano no Paraná. Pela classificação de Köppen, predomina o clima tropical (Af e Am), ocorrendo também o subtropical úmido (Cfa) no litoral paranaense e no norte da costa catarinense.
A caixeta prefere Organossolos Háplicos Fíbricos e Hêmicos, aparecendo de forma pontual em Espodossolos Cárbicos Hidromórficos Hísticos, e se desenvolve em solos aluviais, úmidos e permanentemente inundados. Em ambiente natural ocupa solos com profundidade média de 20 a 40 cm e lâmina de água permanente, que oscila com o regime de chuvas, exigindo solo rico em húmus, de textura arenosa e drenagem deficiente.