Foto: Alfredo F. Fuentes Claros (CC0) via GBIF
Cabriúva-vermelha
Myroxylon peruiferum
- até 35 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: bálsamo, bálsamo-de-tolu, bálsamo-do-peru, óleo-vermelho, óleo-bálsamo, cabreúva, pau-de-bálsamo, caviúna, cabraíba, pau-vermelho, bálsamo-de-trapo
Botânica
Pertencente à família Fabaceae (Leguminosae, subfamília Papilionoideae), a espécie foi descrita como Myroxylon peruiferum L. f., publicada em 1781 (Suppl. Plant. 34: 233). Está inserida na ordem Fabales, classe Magnoliopsida e divisão Magnoliophyta. Entre os sinônimos botânicos mais citados na literatura estão Myrospermum peruiferum (L.f.) DC., Toluifera peruifera (L.) Baill. e Myroxylon pubescens Kunth. O nome do gênero Myroxylon vem do grego e significa algo como "madeira de mirra", em referência à resina aromática que a planta produz; já o epíteto peruiferum remete ao fato de o bálsamo da espécie ter sido exportado pelo porto peruano de Tolu.
Árvore decídua que, na fase adulta, pode chegar perto de 35 m de altura e 150 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo). O tronco é reto, cilíndrico, liso e uniforme, com altura útil ao redor de 15 m. A ramificação é cimosa ou dicotômica, e os ramos saem do tronco formando ângulos de cerca de 45º, característica que ajuda a reconhecer a espécie mesmo à distância; os galhos são tomentosos e cobertos de lenticelas. A casca é lisa e acinzentada, ficando rugosa apenas na base de árvores velhas, e sua superfície externa exibe faixas de lenticelas grandes e salientes — quando ferida, a casca interna libera bálsamo. As folhas são compostas e imparipinadas, com 10 a 14 folíolos alternos, pequenos e ovais, peninérveos, marcados por pontos e linhas translúcidos quando observados contra a luz; a face superior é verde-brilhante (parece molhada ao sol) e a inferior, mais clara. As inflorescências são corimbiformes, terminais ou axilares e pendentes, com flores quase sésseis de pétalas amarelo-esbranquiçadas. O fruto é uma sâmara bem típica, indeiscente, oblonga e aromática, de coloração amarelo-pardacenta, com 5,7 a 9,8 cm de comprimento e asa membranosa, fina e glabra; abriga de 1 a 2 sementes. A semente, inseparável do fruto, é sulcada, rugosa, resinosa, oleaginosa e de perfume agradável.
Uso e ecologia
Outrora considerada uma das madeiras mais nobres de São Paulo, a cabriúva-vermelha era empregada nos mais variados fins por sua beleza e resistência, inclusive em peças expostas ao tempo — os antigos carros de boi tinham eixo, rodas, mesa e cabeçalho feitos dessa madeira. Presta-se a construção civil e naval, obras hidráulicas a céu aberto, marcenaria de luxo, carrocerias, tanoaria, portas nobres, rodas-d'água, engrenagens de engenhos de cana, dormentes, vigas, esteios, cabos de ferramentas, marchetaria e tornearia; como dormente, chegou a durar 12 anos. Sua madeira é densa (0,92 a 1,00 g/cm³ a 15% de umidade; massa específica básica de 0,78 g/cm³), de cerne castanho a castanho-avermelhado com veios escuros, textura média e uniforme, grã geralmente reversa e cheiro balsâmico característico. O cerne tem alta resistência ao apodrecimento, embora o alburno se deteriore rápido; a trabalhabilidade é moderadamente difícil, mas o acabamento fica bom, e a retenção de produtos preservantes sob pressão é baixa. A lenha é de boa qualidade, mas a espécie não serve para celulose e papel. Dos frutos e sementes extrai-se o óleo essencial conhecido como "bálsamo-do-peru", usado em unguentos e preparações farmacêuticas.
Trata-se de uma espécie secundária tardia ou clímax, longeva, que aparece tanto em floresta secundária quanto isolada na paisagem. No bioma Mata Atlântica ocorre na Floresta Estacional Semidecidual (formações Aluvial e Montana) em Goiás, Minas Gerais, Paraná e São Paulo, com frequência de 1 a 23 indivíduos por hectare, e na Floresta Ombrófila Densa (formação das Terras Baixas) na Bahia, Espírito Santo, Paraíba, Rio de Janeiro e São Paulo. Também é encontrada em ambientes ripários do Distrito Federal, Paraná e São Paulo (até 23 indivíduos por hectare), em brejos de altitude no Nordeste e em florestas de brejo de São Paulo. Por ter sofrido pressão de exploração predatória, consta em listas de conservação genética e de espécies ameaçadas em vários estados (São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Distrito Federal).
A floração ocorre de maio a setembro em São Paulo, de agosto a setembro em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, e em novembro em Pernambuco. As primeiras florações costumam surgir entre 10 e 15 anos de idade, embora em Minas Gerais já tenha sido observada floração precoce, aos 5 anos. Os frutos amadurecem de agosto a dezembro em São Paulo, em outubro no Paraná, de novembro a dezembro em Minas Gerais e em dezembro no Rio de Janeiro.
A espécie é monóica e, segundo estudos, reproduz-se preferencialmente por alogamia (cruzamento entre indivíduos). A polinização é feita essencialmente por abelhas. A dispersão dos frutos é anemocórica, ou seja, pelo vento — não raro surgem exemplares jovens ao redor das árvores-mãe, onde permanecem por alguns anos.
Plantio e silvicultura
A colheita é feita com escadas ou podões, derrubando-se os frutos samariformes quando ficam amarelo-pardacentos e catando-os depois no chão; segue-se uma pré-limpeza antes de ensacar e completar a secagem no local de beneficiamento. Árvores de 14 a 23 m renderam, em média, 12 kg de frutos em cerca de 3 horas de trabalho, e cada quilo contém de 1.040 a 1.900 frutos. As sementes não devem ser semeadas com a casca, que dificulta a germinação; a imersão em água sanitária por 10 minutos parece favorecer a quebra de dormência do material com casca. Apresentam comportamento ortodoxo de armazenamento: partindo de 59% de germinação inicial, mantiveram 64% e 65% após secagem e guarda a 5 ºC e a -18 ºC, respectivamente. Em laboratório, os melhores resultados vêm de temperaturas alternadas de 20 ºC a 30 ºC em substrato pouco úmido a úmido.
Recomenda-se semear diretamente em sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno, com repicagem 2 a 3 semanas após a germinação. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 7 e 18 dias e taxa de 50% a 55%. As mudas se desenvolvem rapidamente e ficam aptas ao plantio definitivo em menos de 5 meses. O transplante de mudas de raiz nua pega bem, ficando mais difícil quando os exemplares já estão maiores. As raízes não se associam a Rhizobium, mas há baixa incidência de micorriza arbuscular. Na propagação vegetativa, a borbulhia alcançou 45% de pegamento e a garfagem, 38,3%.
Planta de comportamento heliófilo a esciófilo. Quando jovens, as mudas são sensíveis à geada, mas vão ganhando tolerância ao frio conforme amadurecem. A cicatrização e a desrama são boas em plantas jovens, enquanto os galhos ainda são finos; com a idade, a cicatrização piora e podem se formar ocos no tronco. Recomenda-se o plantio misto com espécies pioneiras e secundárias de rápido crescimento, que servem de tutoria ao desenvolvimento da cabriúva. O espaçamento de 2 x 2 m é apontado como ideal, por exigir menos mudas por hectare, reduzir bifurcações e produzir fustes de diâmetro mais adequado do que no espaçamento de 1 x 1 m. Em sistemas agroflorestais, é comum em pastagens e, em El Salvador, serve de sombra para o café.
O crescimento é lento: aos 8 anos de idade, a espécie registrou incremento médio anual em volume de 0,37 m³/ha/ano.
A precipitação média anual varia de 870 mm, em Pernambuco, a 1.800 mm, na Bahia, com chuvas uniformes ou periódicas na faixa costeira baiana e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica vai de nula a moderada, conforme a localidade. A temperatura média anual fica entre 19,4 ºC (Lavras, MG) e 25,2 ºC (Barbalha, CE), com mínima absoluta de -3,5 ºC registrada em Londrina (PR). O número de geadas é em média de 0 a 3 por ano (máximo de 7 no Paraná), predominando ausência ou baixa frequência. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Am, As, Aw, Cfa, Cwa e Cwb.
Cresce naturalmente em terrenos pedregosos e encostas de boa fertilidade, adaptando-se indiferentemente a solos secos ou úmidos. É indicadora de terra de primeira qualidade para cultivo, ainda que já tenha sido encontrada vegetando em solos de fertilidade mediana.