Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Cabriúva
Myrocarpus frondosus
- 10 a 25 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: bálsamo, bálsamo-caboriba, bálsamo-cabureíba, braúna, braúna-parda, caboré, caboreíba, cabreutinga, cabriúva-amarela, cabureíba, jataúba, óleo-de-caboreíba, caboretinga, cabreúva, cabreúva-mamata, cabreúva-parda, cabreuvinha, cabriúna, cabriúna-preta, cabriúva-parda, cabriúva-preta, cabriúva-vermelha, cabrué, caburé, gabriúva, cabureira, conduru-de-sangue, miroé, óleo-cabureíba, óleo-pardo, pau-bálsamo, pau-de-bálsamo, pau-de-óleo, pau-de-óleo-verdadeiro, roxinho
Botânica
Pela classificação de Cronquist, a cabriúva é uma angiosperma da classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Fabales, pertencente à família Fabaceae (Leguminosae, subfamília Papilionoideae). A espécie foi descrita por Freire Allemão em 1848, sob o nome Myrocarpus frondosus, tendo como sinônimo botânico Myrocarpus paraguariensis Hallier. O nome do gênero, Myrocarpus, traduz-se como "fruto de bálsamo", enquanto o epíteto frondosus faz referência à copa larga e densa da árvore. Já o nome popular cabriúva vem do tupi kabu'ré iwa, que significa "árvore-do-caburé".
Trata-se de uma árvore que perde as folhas na estação seca, atingindo em geral de 10 a 25 m de altura e de 30 a 60 cm de diâmetro à altura do peito (DAP); exemplares adultos podem chegar a 35 m e 100 cm de DAP. O tronco vai de cilíndrico a irregular em seção, podendo ser reto ou levemente inclinado, com fuste de até 15 m. A ramificação é dicotômica, cimosa e irregular, formando uma copa densa, irregular e com ramos cobertos de lenticelas. A casca é espessa, chegando a 50 mm: por fora é cinzenta, áspera, muito rugosa e marcada por fissuras longitudinais reticuladas e profundas; por dentro é branca a amarelada, dura, arenosa, aromática e oxida rapidamente, exalando odor característico. As folhas são alternas, compostas e imparipinadas, com 3 a 9 folíolos de cor verde-escura e brilhantes, de 3 a 8 cm de comprimento por 2 a 5 cm de largura, dotados de glândulas translúcidas. As flores, verde-amareladas e aromáticas, medem cerca de 1 cm e reúnem-se em pequenos racemos cilíndricos axilares ou terminais de 2 a 10 cm. O fruto é uma sâmara elíptica, indeiscente, plana, alada e achatada, em forma de fuso, de cor amarelo-clara, medindo 5 a 10 cm de comprimento por 1 a 2 cm de largura, e abriga em geral 1 semente (às vezes 2) na região central. A semente é inseparável do fruto, resinosa e aromática, com núcleo cilíndrico e alongado, nervuras anastomosadas e bolsas repletas de resina.
Uso e ecologia
A madeira da cabriúva é densa (0,77 a 1,18 g/cm³ a 12% de umidade no Brasil; 0,79 a 0,85 g/cm³ na Argentina). O alburno é amarelo-pálido e contrasta nitidamente com o cerne, que varia do pardo-claro-rosado ao pardo-escuro-rosado ou acastanhado, de tom uniforme. A superfície é lisa, pouco lustrosa, de textura média a fina e grã irregular ou ondulada, com cheiro característico, agradável e pouco intenso. É resistente a organismos xilófagos, fungos e cupins e tem boa durabilidade, embora escureça ao ficar exposta ao tempo e tenha vida útil inferior a 12 anos em contato com o solo. Tem baixa permeabilidade a preservantes sob pressão e não é tratável com creosoto nem com CCA-A. É fácil de serrar, aplainar, tornear, polir e envernizar, alcançando bom acabamento e bons preços nos mercados nacional e internacional, mas não aceita prego. É empregada em construção civil (vigas, caibros, ripas, esteios, portas, janelas, tábuas, tacos de assoalho), marcenaria, peças torneadas, obras externas (dormentes, cruzetas, postes, degraus, roda d'água), construção naval, lambris, folhas faqueadas decorativas, móveis comuns e de luxo, balcões e cabos de ferramentas; mourões duram até 12 anos. A lenha é de boa qualidade, mas a espécie não serve para celulose e papel. Na casca e no lenho há alcaloides e cumarinas. Ao se perfurar o tronco com trado, a planta exsuda um bálsamo aromático, pouco presente na casca e muito intenso no lenho, com propriedades repelentes, já usado como incenso e para aromatizar roupas; a serragem, de aroma balsâmico, é aproveitada em perfumaria e tinturas. A casca fornece resinas, goma-resinas e certo teor de tanino, e contém saponinas em baixa quantidade.
É uma espécie secundária, de inicial a tardia, que se desenvolve em vegetação secundária, capoeirões e florestas secundárias, sobretudo no fundo dos vales e no início de encostas pouco íngremes, sendo encontrada também em pastos. Ocorre principalmente na Floresta Estacional Semidecidual, onde ocupa o dossel superior, e na Floresta Estacional Decidual (formações Montana e Baixo-Montana), no estrato emergente e sem abundância; mais raramente aparece na Floresta Ombrófila Densa (Mata Atlântica) e, esporadicamente, na Floresta Ombrófila Mista Montana (Floresta com Araucária), na região de Irati, no sul do Paraná. Em densidade, registraram-se de 6 a 7 indivíduos por hectare na Selva Misionera (Misiones, Argentina) e cinco por hectare em Floresta Estacional Decidual no noroeste do Rio Grande do Sul.
A floração varia conforme a região: de maio a junho no Rio de Janeiro, de agosto a setembro no Paraná, de agosto a outubro no Rio Grande do Sul e de setembro a outubro em São Paulo — há quem acredite que a árvore só floresce em intervalos de 7 anos. Os frutos amadurecem de setembro a outubro em Minas Gerais, de setembro a dezembro em São Paulo, de novembro a dezembro no Paraná, de novembro a fevereiro no Rio Grande do Sul e de abril a maio no Espírito Santo. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 10 anos.
Planta hermafrodita, é polinizada sobretudo por abelhas, e suas flores são melíferas. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, feita pelo vento.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente do solo quando começam a mudar de cor, recomendando-se escalar a árvore e derrubar os ramos com frutos maduros. Há de 5.100 a 9.900 frutos por quilo; já as sementes, retiradas as asas, variam de 17.268 a 25 mil por quilo. Não há necessidade de quebra de dormência, pois as sementes não a apresentam. Por outro lado, têm comportamento recalcitrante e perdem rapidamente a viabilidade fora de ambiente controlado, durando cerca de 6 meses.
Recomenda-se semear os frutos em sementeiras e repicar as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio; a repicagem é feita de 3 a 5 semanas após a germinação, quando a muda tem de 3 a 5 cm. A germinação é hipógea e começa entre 10 e 60 dias após a semeadura, com poder germinativo geralmente de 50% a 80%; as mudas ficam prontas para o plantio cerca de 9 meses depois. Convém manter sombreamento leve no viveiro, com tela que deixe passar 40% da luz. A espécie aparentemente não forma associação simbiótica com Rhizobium e propaga-se com facilidade por estacas de ramos finos e por brotações das raízes.
Semi-heliófila, a cabriúva tolera sombreamento de intensidade média e é medianamente resistente ao frio — em mata natural, árvores adultas suportam mínimas de até -7,5ºC. Seu tronco é curto, sem dominância apical, com bifurcações e acamamento do caule e desrama natural deficiente, exigindo podas de condução e de galhos para ganhar altura comercial. Não deve ser plantada a pleno sol: para corrigir a má forma, indica-se plantio misto com pioneiras ou secundárias iniciais, ou plantio em linhas em faixas abertas na vegetação existente. O pegamento das mudas não é fácil e requer cuidados, mas a espécie rebrota da touça após o corte. No Paraná, consta da lista de plantas ameaçadas de extinção, na categoria rara.
O crescimento inicial é muito lento; entre as cem espécies reunidas na obra de referência, a cabriúva figura entre as três de pior ritmo de desenvolvimento.
A precipitação média anual vai de 1.000 mm, no Rio de Janeiro, a 3.700 mm, na Serra de Paranapiacaba (SP). As chuvas são uniformes na Região Sul, no litoral fluminense e no leste paulista, e concentradas no verão nas demais áreas. O déficit hídrico vai de nulo, no Sul, a moderado (3 meses secos) no norte do Espírito Santo e na região de Marabá, chegando a forte (até 9 meses secos) na Argentina. A temperatura média anual oscila entre 16,4ºC (Vacaria, RS) e 26,1ºC (Marabá, PA); a média do mês mais frio fica entre 11,8ºC e 24,3ºC e a do mês mais quente entre 21,5ºC e 26,9ºC, com mínima absoluta de -7,5ºC em Vacaria. As geadas variam de 0 a 23 por ano em média (máximo absoluto de 32) na Região Sul. Pela classificação de Köppen, ocorre em climas tropical (Af e Aw), subtropical úmido (Cfa), subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e temperado úmido (Cfb).
Prefere solos de mata profundos e úmidos, de fertilidade química elevada, com boa drenagem e textura franca a argilosa.