Foto: Enrique Salazar (CC BY) via GBIF
Buriti-palito
Trithrinax brasiliensis
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: buriti-carandá, buriti, carandá, carandaúba, carandaí, palmeira-buriti, palmeira-de-leque, catarina, buriti-palmito, caraná, carandá-moroti, carandá-piranga
Botânica
Pelo sistema do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado das Monocotiledôneas, ordem Arecales e família Arecaceae (chamada de Palmae na classificação de Cronquist). Seu binômio é Trithrinax brasiliensis Martius, descrito pela primeira vez em Historia Naturalis Palmarum (vol. 6, p. 150, 1837), tendo como sinonímia botânica Trithrinax acanthocoma Drude. O nome do gênero une as palavras gregas treis (três) e thrinax (tridente), em referência ao cálice tripartido, à corola de três pétalas e aos três carpelos separados; já o epíteto brasiliensis indica que a planta ocorre no Brasil.
Trata-se de uma palmeira de estipe espinescente e folhagem perene, sem queda sazonal marcada. Os exemplares de maior porte alcançam cerca de 15 m de altura e 35 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, medido a 1,30 m do solo) quando adultos, embora no Paraná predominem indivíduos entre 2 m e 8 m. A planta é estolonífera e seus troncos podem aparecer isolados ou agrupados em touceiras, exibindo no alto uma trama ou "coroa" de filamentos longos, duros e munidos de espinhos de 6 cm a 12 cm. A casca externa (ritidoma) fica recoberta por restos de bainhas. As folhas são simples, em formato de leque, partidas até cerca da metade e com aproximadamente 150 cm de comprimento; cada palmeira costuma reunir de 5 a 10 folhas flabeliformes, rígidas, glabras, de pecíolo curto, divididas em 20 a 30 lacínias e com dois acúleos pungentes na ponta. A inflorescência é interfoliar, com cachos muito ramificados de 30 cm a 50 cm protegidos por uma espádice lenhosa e glabra. As flores são hermafroditas, trímeras, de coloração branco-amarelada e até 6 mm de comprimento; o cálice é curtamente cupulado e espesso, com três lobos desiguais de base larga e ápice agudo, enquanto a corola, quase o dobro do cálice, apresenta três pétalas suborbiculares a levemente ovaladas. O fruto é uma drupa ovoide e carnosa de 8 mm a 20 mm de diâmetro, inicialmente branco-amarelada e depois arroxeada, podendo chegar a quase preta; a semente tem putâmen ósseo, globoso ou subgloboso.
Uso e ecologia
As flores oferecem pólen e néctar, conferindo à planta potencial apícola. A polpa do fruto é comestível e bastante doce, sendo que os frutos fermentados servem para preparar bebida alcoólica, enquanto o óleo extraído das sementes é comestível e empregado na cozinha. As fibras das folhas viram chapéus, cestos e tecidos, e os finos filamentos trançados da "coroa" no topo do estipe são tradicionalmente usados como palitos de mesa. O caule (estipe) é aproveitado como mourão e na confecção de bengalas. Por ser muito ornamental, o gênero Trithrinax é indicado para jardins, parques e praças. A madeira tem densidade aparente de 0,80 g/cm³, coloração parda e é dura e fibrosa.
É uma espécie pioneira, típica e exclusiva do Planalto Meridional do Sul do Brasil, onde aparece de forma descontínua, em áreas restritas e isoladas. Pode ser vista esporadicamente por quase todo o Planalto Catarinense, às vezes em pequenos agrupamentos. Lindeman e colaboradores registraram sua única ocorrência próxima ao litoral, em Torres (RS); Mattos observou em Alegrete (RS) um pequeno maciço de plantas adultas em terreno pedregoso, associadas a espécies como bugreiro (Lithraea molleoides), aroeira (Schinus longifolius), veludo (Guettarda uruguayensis), sarandi (Terminalia australis), murta (Blepharocalyx salicifolius) e branquilho (Sebastiania commersoniana). Gubert Filho a encontrou junto a Butia eriospatha (butiá), ao longo do rio Tapera, em Laranjeiras do Sul (PR). Ocorre na Floresta Ombrófila Mista (com araucária), nas formações Submontana e Montana do Paraná e de Santa Catarina, e na Floresta Ombrófila Densa no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, além de matas ciliares no Paraná e no Rio Grande do Sul e dos Campos Sulinos, onde forma pequenos grupos. No Morro dos Conventos surge como elemento raro, formando agrupamentos densos, possivelmente introduzidos por viajantes no início do século 19.
A floração vai de agosto a setembro no Paraná e de outubro a novembro no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Os frutos amadurecem de março a julho no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, e de outubro a dezembro no Paraná.
A polinização é feita sobretudo por diversas espécies de abelhas, e a dispersão dos frutos e sementes é essencialmente zoocórica, ou seja, realizada por animais.
Plantio e silvicultura
Os frutos são colhidos maduros, quando as sementes podem ser retiradas à mão. Cada quilo reúne cerca de 164 sementes. Em geral não é preciso tratamento pré-germinativo, já que a germinação é fácil, algo raro na família das palmeiras; ainda assim, como é lenta e desuniforme, pode ser acelerada e uniformizada removendo-se o endocarpo e imergindo as sementes em água. A viabilidade se mantém por até um ano de armazenamento.
A semeadura é feita em recipientes individuais, cobrindo as sementes com cerca de 1 cm de terra. A germinação é hipógea (criptocotiledonar) e as plântulas emergem por volta de 6 meses após o plantio, com poder germinativo acima de 60%. As mudas ficam prontas para o plantio em campo cerca de 12 meses depois da semeadura.
Espécie heliófila e resistente ao frio, o buriti-palito pode ser cultivado a pleno sol, tanto em plantios puros quanto em consórcios. No Paraná, vem sendo manejado principalmente em sistema de faxinal. Endêmica do Sul do Brasil, é ameaçada pela própria raridade e consta da lista de plantas em risco de extinção no Paraná, na categoria vulnerável, além de figurar na Lista de Espécies da Flora Brasileira com deficiência de dados. Sua presença testemunha as mudanças climáticas desde o Pleistoceno, quando a região tinha caráter semiárido, e a raridade botânica e fitogeográfica no Paraná justificaria proteção governamental especial.
Há poucos registros sobre o desenvolvimento da espécie em plantios, mas o que se sabe é que seu crescimento é lento.
A precipitação média anual fica entre 1.200 mm, em Santa Catarina, e 2.000 mm, no Paraná, com chuvas bem distribuídas ao longo do ano e sem deficiência hídrica. A temperatura média anual varia de 15,7 ºC (Lages, SC) a 19,4 ºC (Torres, RS), com média de 10,9 ºC a 15,4 ºC no mês mais frio e de 20,3 ºC a 23,5 ºC no mais quente. A mínima absoluta registrada chega a -7,4 ºC (Lages, SC), podendo atingir -12 ºC na relva. As geadas variam de 2 a 14,5 em média, com máximo absoluto de 40 no Paraná. Segundo Köppen, o clima é Cfa (subtropical de verão quente) em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, e Cfb (temperado de verão ameno) no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.
Na natureza, cresce em afloramentos rochosos e solos rasos, de fertilidade baixa a alta. Quanto ao relevo, adapta-se tanto a terrenos ondulados quanto a relevos fortemente ondulados.